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Ponto e vírgula

10 de Julho de 2013

Klimt

para ler ouvindo: Não me arrependo, por Caetano Veloso.

 

Dias antes de você aparecer na porta da minha casa, pouco antes de te surpreender com aquele beijo no corredor, você perguntou algo simples, despretensioso. O horário do metrô. Nisso, seguimos com um diálogo que considero muito bonito, digno de nota:

– O metrô fecha meia-noite mesmo, né? Ou a uma? Eu quero chegar e tomar um banho pra te encontrar.
– Meia-noite. De sábado pra domingo que é até a uma.
– Vou chegar fedido,com roupa de trabalho, não é assim que deve ser.
– Venha do jeito que for, te dou um banho.
– Vai ser essa imagem que você vai gravar de mim… Nossa primeira noite sóbrios, ao menos no começo dela. Então tem que ser bonitinho.
– Sim. Isso é importante. E outro fator preocupante: nos conhecemos bêbados e super esgadinhados,com tinta e purpurina no corpo todo cachaçado! Enfim… Faça como for melhor. Só esteja aqui comigo.
– É verdade. Vamos estar sóbrios, sem purpurinas e sem uma música alta no fundo. Como vai ser, hein?
– Pois é… Temos que fazer dar certo por nós e se não der, a gente joga purpurina, bebe pacaralho, bota música alta e fica assim forever… Brincadeira. Acho que não vamos ter nenhum problema… É só sorrir pra mim, que sorrio pra você.

Talvez fosse a alegria que durou desde aquela noite de carnaval. Talvez tenha sido um êxtase momentâneo de gente apaixonada que troca minúcias por pequenos acasos, místicos e pontuais, bonitos pelo prazer que arrefece a alma. Talvez sejam confidências que trocamos quando conhecemos alguém que nos interessa, como se escrevêssemos um texto meio pronto, como um manual de gramática amorosa, o antigo caderninho preto, que ao invés de números de telefone, tem anotadas um monte de frases carinhosas. Talvez fosse amor mesmo, desses meio tortos que a gente vê nos filmes underground. Talvez a gente nunca saiba.

Pois depois de supor que não teríamos nenhum problema e depois de termos vários problemas e depois de termos superado esses problemas e depois de termos achado que tínhamos resolvido aqueles mesmos problemas e depois de termos percebido que não tínhamos resolvido merda nenhuma e depois de trocarmos todas as farpas afiadas que trocamos enquanto engolíamos aquele bife mal passado que parecia um tijolo de alvenaria e depois de termos pagado a conta calados, ranhetando com os olhos pro garçom sobre as coisas feias que falamos um pro outro, lembro do nosso último trajeto lado a lado.

Lembro de colocar o fone no ouvido enquanto você ligava para a sua avó. Pelo pouco que ouvi, você queria desejar a ela uma páscoa feliz. Ou quebrar o silêncio gritante que juntos instauramos na mesa do bar. Não sei. Talvez não soubéssemos ler os sinais que dávamos um pro outro. Enquanto olhava os arranha-céus, ouvia “Do sétimo andar”, no talo. Quando o refrão cantou “Será que você vai fugir?”, logo em seguida ouvi você perguntar para a sua avó ao telefone: “Será?”. Parecia que tínhamos nos perguntado a mesma coisa. Eu, você, sua avó, o cantor e a vida. Pena não termos corrido atrás do restante da letra.

Não sei o que poderia ter feito para nos “salvar”. Tentei pedir desculpas por qualquer coisa que tivesse te magoado. Tentei segurar sua mão e te dizer que te queria bem. Tentei te pedir um último beijo. Tentei te dizer, antes de você ir embora, que a gente tinha algo muito bonito, algo que não acontece a torto e a direito por aí, com qualquer pessoa desse mundo.

Nada. Ou quase nada. Tudo, na verdade.

Penso que deveríamos ter tomado um chá de habu, pra curar a tosse, tirar o chulé e nos botar de pé. Mas, no fim das contas, não quero mais pensar nos chás que não tomamos juntos. Prefiro pensar nos momentos bonitos, quando as coisas tinham movimento, quando a gente se dava bem, com tempo pra respirar, com tempo pra ser bem mais que dois. Prefiro acreditar que estamos aprendendo a amar. E que é por meio desses entreveros da vida que nos conhecemos melhor, que aprendemos a ver o que existe dentro da gente.

Hoje, lendo aquele poema que escrevi logo que a gente se conheceu, vi um sentido bonito pras coisas  que a gente viveu. Por isso, por mais que você possa não acreditar, só preciso dizer, antes de tudo, que foi por amor. Não por aquele amor romântico cheio de rococós, fitas de cetim e suspiros alados. Foi pelo amor de bem querer, de libertar o corpo do normal, a mente do racional e o coração do irreal.
Nos mais, peço ao tempo que me ensine a não repetir os mesmos erros, as mesmas farpas e os mesmos silêncios com outros amores. E, se for pra repetir, pra ir com mais calma, carinho e compreensão.
Talvez, algum dia, a gente se reencontre, por acaso ou por vontade conjunta.
E, nesse dia, quem sabe nossos sorrisos sejam um pro outro…

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25 de Julho de 2012

 

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26 de Outubro de 2011

 

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Orquídeas caídas

20 de Outubro de 2011

Ou “25 anos blues”.

Para ler ouvindo To Love Somebody, com a serenidade de Nina Simone e a fúria de Janis Joplin.

Dialogue a trois:

– Navegar é preciso. Viver não é preciso.
– “Precisar” em que sentido: exatidão ou necessidade?
– Exatidão.
– É preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a morte.
– Exatidão ou necessidade?
– Necessidade.
– Vou olhar os caminhos. O que tiver mais coração, eu sigo.
– Não tem verbo “precisar”.
– Mas é exato e necessário.

Esse ano não teve texto ou palavra ou metonímia ou onomatopeia de alegria nem de tristeza. Silêncio em forma de refrigerantes sem gás e salgadinhos de festa. Paro de conversar e olho para o quase jardim de inverno com certa melancolia. Uma orquídea seca cai do galho, leve como leve pluma muito leve pousa. Acompanho estático todo o seu movimento calmo e ondulado até o gramado. Penso logo de cara no tipo de movimento que a flor realiza enquanto a gravidade, o vento e o atrito agem sobre suas pétalas. Estarrecido por pensar primeiro na física das pétalas ao invés da beleza subjetiva do momento, falo alto, em sinal de auto-censura travestida de descaso:

– Flores mortas não fedem nem cheiram.

A maioria ali, indiferente a qualquer crítica ou auto-crítica, continua a falar alto enquanto as orquídeas secas caem com o vento. E numa espiral de beleza e silêncio e loucura começo a refletir não mais sobre as noções físicas, mas sobre o tempo metafórico das pétalas.

Talvez essa melancolia seja só reflexo da Lua na casa 4 em instrospecção com o Sol na casa 12. Ou o fim do ciclo revolutivo de Mercúrio. Ou o novo ano astral que se inicia. Tudo junto, sei lá. Ou talvez seja só uma pequena ponta de indiferença mesmo, uma tristezinha velada, uma pequena alegria que não faz muito sentido, talvez nada muito astrológico, nada tão visão divina. Mas, de certa forma, preciso que assim seja: alto astral altas transas lindas canções, para não pensar na física das pétalas e de todas as outras coisas. Não preciso movimentos físicos matemáticos químicos  por agora. Preciso místicas. Exatas e necessárias.

Mas são tempos de correria, sem dúvida. Muita coisa im-por-tan-te pra fazer, muita pe-dra pra carregar, muito la-bi-rin-to pra percorrer! Falta cabeça pra pensar no que está acontecendo, avaliar-se e refletir sobre a pétala que cai, sobre o tempo que se leva. E se for parar pra pensar bem, há tanta coisa nova e bonita pra ser sonhada nesse ano do escorpião, de grandes realizações. Há tanto deserto pra percorrer, floresta pra desbravar, mar pra navegar!

E a melancolia, talvez, resida aí mesmo, em todas essas grandes e escorpianas realizações. São aprendizados, certamente. Burocráticos e duros, trazem dores de cabeça inevitáveis, cansaços de fundas olheiras, aborrecimentos físicos, mas nem por isso são menos interessantes ou necessários ou contextualizados ou propícios. E mesmo assim, mesmo sabendo da necessidade de tudo isso, ando precisado de algo mais. De me render a certos devaneios. De mais paciência para reencontrar a pureza nas almas de luta. De misticismos esotéricos que alucinem o marasmo dos dias. De gritos incontidos, de goles de vida, de choros cheios de olhos, de nuvens que escondam as luas mais bonitas, assim como a caixa que guarda o carneirinho do pequeno príncipe.

– Preciso de doações prazerosas de corpo e alma, por Jah!, grito em silêncio enquanto olho o jardim.

A flor seca finalmente caiu.

Depois que ela desfaleceu no gramado, penso nessas contradições do querer e do viver a todo tempo, como se meu mapa astral me perseguisse, como se um espelho me levasse me refletisse me guiasse por tudo que é lugar. E é quando estou com a cabeça pesada, lisérgica de tanto pensar nisso tudo, que saio por aí. Como leve pluma muito leve, pouso de madrugada em madrugada em qualquer balada estranha e multicolorida do centro.

Da sacada de um prédio antigo, olhos fechados, ergo a cabeça para o alto e vejo aos poucos a imensidão da lua cheia. Olho para baixo e vejo a calçada molhada e suja. Vejo algo reluzente gotejar em uma poça d’água. Meio zonzo, cogito ir até lá pegar essas gotas de luz, penso em cair levemente como a orquídea do quase jardim de inverno, pois já é quase inverno e tempo seco e vento e movimento e bêbado não fico pensando em todas as coisas que me incomodam, mas em não faça assim, não faça nada por mim, não vá pensando que eu sou seu, uma música bonita na voz do Ney. E nesse momento já não me censuro mais pelos primeiros pensamentos. A melancolia me parece mais leve também. Sinto o vento, o tempo e os movimentos como se orquídeas caídas pudessem voar…

Olho para os lados e vejo você de relance na luz negra. Duas caveiras multicoloridas olham para nós. Muita gente se olha com estranheza. Algumas pessoas me olham com estranheza. Já não olho mais para as gotas de luz. Já não vejo o chão. Só vejo seus olhos meio desavisados. Não sei ao certo o que você vê. E olhando serenamente você ali ao longe, recito baixinho:

– Te daria essa lua se você quisesse, se respondesse aos meus apelos. Não faça assim, não faça nada por mim, não vá… Pois hoje olhando a chuva pela janela do ônibus, percebi que já me encontrei há tempos e não preciso de vaidades, identidades, sofrimentos. Preciso seus olhos sobre os meus. Preciso seus sorrisos amarelos. Preciso tuas mãos no meu rosto. Preciso não precisar as coisas.

Como mantra internalizado, esqueço cada pessoa à minha volta. Você me olha também, sem assombros. Com precisão de esquecimento, para não precisar mais os dias deixados para trás, com precisão de estar atento e forte, para não ter tempo de temer a morte, sigo instintivo, sem pensar demais nos poréns. Após dois minutos de dança no escuro, te peço um beijo. Você brinca e diz sim com um sorriso. E o que me sai dessas entrelinhas, sem texto ou palavra ou metonímia ou onomatopeia de alegria ou tristeza, é um dos beijos mais bonitos, calmo e demorado como a orquídea que cai no gramado.

– Somos orquídeas caídas, falo baixinho.

– O que disse?, você me pergunta.

Que gostei de você, respondo calmamente.

Como? Não te ouvi…, você me responde sorrindo.

– Nada não. Talvez a gente nem se veja amanhã ou depois. A gente perde muito tempo na vida. A cada palavra que sai a gente morre um pouco. Fica comigo essa noite…, falo com os olhos.

– E não te arrependerás! É isso?!, você me diz gargalhando.

– Isso. E não te arrependerás, tipo Nelson Gonçalves, gargalho junto.

Acho bonito nosso diálogo a três, nós dois e a mística das pequenas coisas,  mesmo sabendo que o desencontro e o desassossego seriam inevitáveis. Místicas não duram para sempre. Nós também não. Afinal, uma noite foi o que pedi e uma noite foi o que tive. Por isso mesmo não quis saber nada: nem nome, nem telefone, nem endereço.

– Tenho receios de me aventurar demais por você, por seus cachos e olhos e pálpebras e arranjos e afagos e quereres e escombros e esquinas eteceteras, resmungo embriagado enquanto nos despedimos.

Um último beijo rápido e profundo e bonito e te dou as costas pelas ruas do centro e nunca olho para trás. Fujo com o olhar fixo num ponto qualquer dum sol qualquer que raia que cega que tira a cor das coisas que deixa tudo branco.

Serenidade, apesar de tudo. Certa fúria comedida pelas palavras desmedidas, pela loucura crua das conversas, pelos vitupérios da embriaguez, mas ainda assim detalhes tão pequenos…

Parece que nascemos para fugir querendo ficar. E olhamos para pontos fixos que remontam um mesmo lugar qualquer, talvez por medo de ficarmos cegos de amor pelo mundo divino maravilhoso que nos cerca. Em noites como essa a melancolia parece não existir: estranhamente é a escuridão que me abre os olhos. Tristeza vezenquando serena vezenquando furiosa que retorna pelas manhãs, quando a claridade volta a me cegar. Talvez, por isso tudo, por desejo de contrariar as coisas estabelecidas, preciso te rever agora. Exato e necessário.

Fato que são 25 anos de flores secas e noites serenas e fugas cegas e manhãs de domingo. Quem sabe não te reencontro em algum jardim por aí?

Afinal, somos orquídeas caídas.

Cegos de quase inverno.

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18 de Outubro de 2011

 

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11 de Outubro de 2011

 

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Finjo e quero.

25 de Abril de 2011

Para ler ouvindo Só sei dançar com você.

Talvez seja só mais um engano.

E se não for?

Tenho de ver o erro cara a cara para reconhecê-lo, isso é fato. Mas tenho tão pouca disposição para isso… Chega de joguinhos por agora, vezenquando quero pingos nos “is”.

E sim, ainda sofro.

Estou farto de minhas loucuras.

Estou cansado de me dar conselhos, de me dar ouvidos, de me dar ajuda. Cansado também de dar conselhos, de dar ouvidos, de dar ajuda. Já me matei muitas vezes por reconhecimento. E não, não fui reconhecido. Já me morri muitas vezes aos solavancos das ruelas, esquinas do centro, calçadas paralelas, corredores de ônibus, escadas de metrô. Lugares de matar e morrer onde me tornei lugar comum, irreconhecível em meio a multidão. E não, não me matei por você em público, pois sei fingir. E sim, a morte da multidão é solitária e não pára o mundo.

Não parei de fingir não me importar com tudo isso, com você. Mas confesso que quis parar.

De me aconselhar, digo, de galgar passos rumo ao desconhecido do reconhecimento. Agora, e só por agora, durante esses trinta segundos de grito no escuro, não quero mais ter de galgar nada por-você-por-mim. Quero me engalfinhar com minha solidão e matá-la com minhas próprias mãos, prazerosamente aos poucos. Quero criar, nascer, ter e recriar, renascer, reter minhas esperanças. Conter e recontar, contar e reconter minhas contas por conta própria. Sem ouvidos pra nada que não saia do fone, da voz rouca de um cantor qualquer.

Não, não vou me aconselhar a repensar o sempre e o nunca. São grandes, gerais e soberbos demais. Vou só sentar na cadeira preta de rodinhas, ouvir a voz rouca de qualquer cantor e pensar na métrica do som. Sim, é fácil assim desaparecer.

Como se fosse, finjo. E sim, finjo não ponderar a possibilidade de parar de fingir, de não desaparecer.

E ainda assim te quero. Quero ficar com você e com minha-sua preguiça, com minha-sua canção de algum cantor qualquer. Quero que você me chame da forma mais bonita que for pra dançar essa canção. Quero a alegria de matar minha solidão. Quero a agonia de perder a esperança, para depois resgatá-la. Quero que você saque minha esquizofrenia quando ninguém a entende. E me faça girar, por favor, pois é tudo isso que o amor e a loucura do-outro-do-eu faz.

De-bom-de-boa-para-com minhas fingidas caraminholas.

O telefone tocou. Não era você. Não era engano. Fingi animação ao ouvir a voz, o causo, toda a história. Aconselhei alguém que amo. Lembrei do trato comigo mesmo de não aconselhar-mais-ninguém-nem-a-mim e parei. Enfim, vai fundo até tudo acabar naturalmente e prometo não falar mais nada. Não acertei a métrica, nem o conteúdo.

Da música, digo.

Afinal, na vida quem perde o telhado em troca recebe as estrelas. Pra rimar até se afogar e de soluço em soluço esperar, o sol que sobe na cama e acende o lençol. Só lhe chamando. Solicitando…

Sim. A música acertou por mim.

A métrica e o conteúdo dos versos são verdadeiros.

Mas não falo mais nada por agora, pois preciso fingir estar tudo certo-errado.

Preciso vomitar, mas me sinto engasgado, como se aquilo que comi ontem não quisesse sair. Tenho ânsia. Ânsias, na verdade, mas o mundo urge e não consigo me mover da cadeira preta de rodinhas. A música continua tocando e não consigo parar de pensar na métrica.

Não da música, do caminho que sigo com-sem você.

De pensar, nem sei mais o que é o alívio.

Só sei de uma canção triste do Tom Zé, um cantor qualquer. Ouvida de um fone vermelho, de uma cadeira preta de rodinhas.

Que não se movem.

E ainda digo que te quero, mas cansei de esperar por você.

E ainda finjo.