Arquivos para a Categoria ‘Vislumbres’

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Tento de imperfeição

Novembro 26, 2009

Para ler ouvindo a música mais forte e bela que tiver conhecimento.

Meio-dia e trinta adentrou o recinto. Após um almoço conturbado e uma manhã de cansaço, o explosivo humano corroeu-se através do pátio da construção de vidro, atravessou o corredor de flores silvestres, subiu as escadas de marfim e deu de cara com as pessoas que mais amava e com as que menos gostava nessa vida.

Se é que ainda tinha vida e se é que ainda podia entitulá-la como tal.

Perguntou o que poderia fazer para ajudar, a quantas andava a coisa toda, que caixas deveria carregar… O que fazia ali? O que todos faziam ali? O que toda aquela construção fazia ali? O que todas aquelas vielas tortas faziam ali? O que aquela cidade toda fazia, escondida nos cafundós conservadores de um estado decadente, de um país em declínio?

Por alguns instantes a intolerância tomou conta do seu corpo. Não se sabe o que aconteceu. Desejo de brigar, partir pra cima de alguém, caçar confusão, deixar o demônio operar e apossar-se de sua mente… Não se sabe mesmo, mas seja o que for, essas forças motrizes fizeram festa em sua imaginação como há muito não faziam.

A cabeça doía, mas controlou-se. Fez caras e bocas, sorriu às gargalhadas, flerteu com quem viu de interessante pela frente, olhou os transeuntes com olhos baixos, soturnos, veementes. Lançou mão dos sarcasmos mais bem elaborados e maldosos, diga-se de passagem.

Boas armas, que, quando bem utilizadas, irritam e ferem mais que um soco bem dado, pensou.

Acertou em cheio. Saiu vitorioso, pelo menos, em sua fértil imaginação. Vislumbrou ser odiado mesmo, com toda força e todo ódio desse mundo, agora ou mais tarde, tanto fizesse, tanto houvesse, tanto quisesse.

Duas e meia da tarde adentrou novo recinto. Ambiente estranho, insalubre, parecido com a sensação de afundar-se em areia movediça. Colocou os fones de ouvido na tentativa de reinterpretar suas fantasias mais ousadas através das músicas que mais gostava. Saiu completamente do mundo. De corpo, alma e coração. Não sentia mais nada, nem uma sensação sequer. Tomou de assalto a estratosfera, como se ela fosse demasiado pequena para tamanha neutralidade de sentidos. Queria reabsorver-se de si mesmo, sugar tudo de ruim que existia para construir algo novo por cima, como um prédio em ruínas que é implodido para conferir vida nova em espaço e tempo diferentes.

Após tanto ódio, tanta raiva, tanto mau pressentimento, acalmou o coração. Voltou a si por livre e espontânea vontade de espírito.

Sabia que era volúvel e que essa volubilidade tinha seus encantos, pelo menos, em sua imaginação fértil. A cabeça ainda doía, mas por motivos diferentes. Era a transformação dos sentimentos ruins em renovadas fontes de percepção.

Às seis da tarde, ao desfalecer da aurora, já era outro. Não precisava de recintos, fossem construções de vidro ou ambientes insalubres. Nada disso. Era todo o espaço que podia alcançar com a fantasia. Era realmente outro. Era si mesmo. Nem ódio, nem neutralidade.

Era amor. É amores.

E o resto da história eu não preciso nem contar. Sei que é difícil, mas realize em sua mente, em sua alma e no íntimo do seu ser, um homem realmente feliz. Que de explosivo humano à uma neutralidade estratosférica, encontrou-se no lugar dos amores, das fantasias, das paixões irresolutas e das utopias transformadoras.

Não. Não pense que era perfeito, pois tinha prazer em não sê-lo, pois era feliz nas inconstâncias, nas volubilidades e, principalmente, nos prazeres de transformar as coisas mais humanas.

Era ainda o ódio, era ainda o neutro.

Sabendo, que, no final das contas, era sempre o amor.

E é sempre amores.

Sempre.

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O vôo das gaivotas

Novembro 22, 2009

Para ler ouvindo Celibacy Blues, da Jill Scott.

Hoje acordei com vontade de voar com as gaivotas. Quando preparado pra decolagem, descobri que me faltavam asas.

Chorei. Não podia voar. Tomei um dramin e adormeci novamente.

Irremediavelmente adormecido, sonhei que voava com as gaivotas do Pacífico Sul. Não precisava de asas. A aerodinâmica dos braços, o arquear das pernas e a ajuda de minhas parceiras gaivotas eram suficientes para uma planagem sutil. Frustrava-me a impossibilidade de me atirar bruscamente na imensidão do mar revolto. Tinha medo de morrer num primeiro impacto com a águas gélidas do Pacífico…

Atentei-me logo que estava num sonho. E não se morre em sonhos, a não ser que se transformem em pesadelos. E se tem uma coisa que aprendi nessa vida é não ter medo de transformações, mesmo que um tanto absurdas e fora dos manuais de instrução normativos.

Fui de cabeça numa velocidade esfacelante. Mergulhei como um jato supersônico a 100, 200, 1000 metros de profundidade! Vi meu pobre corpo desfazer-se na água turva do oceano. Transformava-me em pequenos pontos de luz vermelha, azul, amarela, que se aglutinavam às moléculas borbulhantes de hidrogênio, oxigênio, sódio e o caralho a quatro. Estranhamente não sentia dor alguma. Muito pelo contrário. Sentia a brisa leve da primavera e os primeiros raios de sol da manhã. Sentia o prazer sufocante do gozo e a primeira mordida dum chocolate meio-amargo. Sentia o gosto dos primeiros beijos e as inquietudes dos diferentes amores.

Se isso era morrer, queria morrer um pouco todos os dias,  até explodir em pequenas-grandes boas sensações.

Mas tomei tino: isso não era morrer. Não, era algo muito maior. Era a transformação das coisas contraditórias, divinas e profanas. Tornava-me parte do oceano. Do todo. Do tudo. Mesmo que em sonho, fazia parte de um todo de sensações inocentes e mundanas, brandas e violentas, sutis e sagazes, grandes e pequenas…

Sensação indescritível em palavras que já existem, posso assegurar-lhe. Se feliz ou infelizmente, não sei, mas são desejos que ainda não tem nome. E creio que não seja coisa nossa, de ser humano, pensar em nomes e colocações pra eles. Basta ser permeável o bastante pra sentir. E tá aí a magia da coisa toda.

Após horas e horas de sono, acordei gozado e sorridente.

Polução noturna, dizem…

Mas eu acho que tudo isso não tem nome, não.

Acho que é só vontade de voar mesmo.

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A casa e a estrada

Novembro 10, 2009

Casa e Estrada

Ou “Hora de voltar”

Para ler ouvindo Winding Road, de Bonnie Sommerville, parte da trilha sonora de Garden State, que me inspirou a escrever essas coisas sem sentido…

Aja estranhamente sempre, no intuito de ver a vida através dos olhos de um lunático. Faça coisas que sua imaginação diz serem únicas, como se fosse a primeira vez que um ser humano as realiza sobre a face da terra. Saboreie o bizarro na tentativa de sentir-se novo, renovado, único e especial.

Não se mova.

Fique inerte por alguns instantes como se fosse desmaiar, só pra dar aquele suspiro cansado ao final da trama que você mesmo criou enquanto a fantasia deprimente de desfalecer passava pela sua cabeça.

Não entenda o que os outros querem dizer pra você com um simples olhar. Desfrute sempre de um bom diálogo, mesmo que monossilábico e cheio de momentos ininterruptos de um silêncio agoniante, pois além do olhar existe a palavra, assim como existe a pergunta acima de qualquer resposta. É o que importa: a existência dos símbolos que criam os laços e não os laços por si sós.

Sinta-se, pelo menos uma vez na vida, em um clipe de música indiana onde todos dançam e fazem sexo loucamente, enquanto você observa tudo com olhos atentos e calmos, em câmera lenta. Feche-os nos exatos momentos em que sentir um prazer orgásmico correr pelo seu corpo, como uma chama de pavio que se alastra dos dedos dos pés até o fim da nuca. Não se mova. Deixe os corpos se movimentarem por você. Só nesse pequeno instante perdido no tempo. Onde a música toca lentamente e os dançarinos e dançarinas do sexo se embriagam numa rapidez lancinante, que faria até o mais cético dos católicos fervorosos trepidar de prazer. E você ali, parado. Calmo, convicto, orgásmico… Estático a criar fantasias pagãs.

Conheça-se e reinterprete-se através dos olhos dos outros, daqueles que te amam ou possam vir a te amar um dia. Ou uma vida inteira… Quem sabe?

São aquelas estranhas sensações de encontro que não necessariamente precisam terminar em despedida. Não tão cedo. Não sem choro. Não sem perda. Não, nunca foi fácil pra ninguém. Mas quem disse ou escreveu que deveria ser assim ou assado? Afinal, existem sensações que mesmo estranhas ou tristes não deveriam deixar de existir, como a saudade.

Tudo isso representa aquele encontrar-se de que tanto falo. Em vários personagens e situações. É aquele fantasiar das coisas, aquela brincadeira de travestí-las de uma mística particular e única, por isso tão especial. É o prazer de sentir-se completo e concreto nos outros, naqueles que te amam e vão te amar pela vida inteira, mesmo que só em fantasia…

Afinal, a chuva continua caindo. A estrada continua nos chamando. O oceano continua com a mesma imensidão. O café com o mesmo gosto. O travesseiro com o mesmo cheiro. A mesma cama desarrumada…

O que muda com o tempo é a maneira como sentimos a vida e o mundo. Muda a cor do pensamento.

E porque caminhamos por tanto tempo? E porque procuramos tanto e tanta coisa? E porque nos fantasiamos de sonhos e realidades?

Pra achar o caminho de casa.

Acredito eu. Acredita você. Acreditamos nós.

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23 Today

Setembro 8, 2009

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Para ler ouvindo Aimee Mann, Mary J. Blige, Madeleine Peyroux e Paul McCartney. Ou qualquer outra coisa bacana…

A lua está cheia, o céu de baunilha estrelado. A gata saiu pra dar um passeio e a fumaça do cigarro traça uma linha conjunta com a água que cai da torneira. As garrafas estão vazias, os pratos sujos e a consciência limpa.

Hoje faço festas.

Fiz festas ontem. E anteontem também. Aliás, faço festas sempre. Físicas, espirituais, surreais, insurretas. Algumas calmas, outras, a maioria confessa, descontroladas.

Mas hoje a festa é diferente. São 23 anos pra pensar em tudo: no que me aconteceu de bom, de ruim e de indiferente. Em tudo que está pra acontecer. Em todas as coisas que estão guardadas nas mãos de Deus. Em tudo o que deixou de acontecer… 

Hoje é dia de pensar no porvir das coisas do mundo. Do meu mundo.

E foi tudo tão rápido! Mais do que eu pensava… Um turbilhão descontrolado de vida seguiu derrubando velhos muros, pra formar e construir tudo que sou hoje.

Foi minha família. Foram meus pais e meus amigos. Foi aquela escola que eu odiava, aquela universidade que eu adorava, aquelas pessoas com as quais eu saía, aquelas com as quais eu dialogava. Foram os estudos, as bebedeiras, as militâncias, as conversas. Aquelas, de botas batidas…

Foram os problemas e as soluções. Foram os infernos pessoais e as pazes com o mundo. Foram as garrafas de vinho e os maços de cigarro. Foram todos os filmes que iluminaram meus dias. Foram todas aquelas manhãs de domingo. Foram todas aquelas tardes gastas de rir e trabalhar. Foram todas aquelas noites de conflito e reflexão. Foram todas as músicas que compuseram a trilha sonora dos meus momentos mais íntimos. E dos mais loucos também…

Sim, foram as loucuras! De todos os meus amores. De todos os meus conhecidos-desconhecidos. De todos os meus afetos e desafetos. De todos os amantes do círculo polar. De todos os degradados e malucos-beleza. De todos os solidários e solitários.  De todos os meus sinos e desatinos. De todos os sorrisos que desprendi da alma…

Foram, enfim, os carinhos. Os abraços. Os amores. As cores. Os açúcares. As confianças e os confidentes. Os sonhos e as utopias…

Foram todos esses que me construíram, me constroem e fazem parte de mim. Do meu corpo, da minha alma, da minha mente, do meu coração.  E é a todas essas pessoas, coisas e pensamentos que dedico cada sorriso e cada lágrima dos dias que passam e que estão por vir.

Hoje já é 23. Faltam alguns dias para o fim do mês.

E ainda preciso de alguém que me salve. E ainda preciso me salvar. E salvar alguém. Mas não vou pensar nisso por agora.  

Que venha o sol ou venha a chuva.

Continuo aqui, firme e convicto, fazendo festas.

Pois nos dias de hoje sou todo amor.

Sou todo amores.

Thiago Padovan, o Terra Roxa, chega aos 23 anos e espera viver outros 23 para reler tudo o que já escreveu nessa vida. É jornalista, amante e sonhador nas horas vagas. Diz que um dia vai chegar às estrelas, mas por enquanto não passa da cabeceira da cama, pois prefere se deliciar mais um pouco com os prazeres e felicidades da vida terrena…

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Das manhãs de domingo

Agosto 28, 2009

makes me wonder

Domingo de manhã. Dentro do carro. Nós dois.

Frio.

Indo, finalmente, ao fatídico encontro.

Procurei alguns CDs dentro do porta-luvas do carro. Queria algo feliz, bonito, mas nada muito “cheguei”, que pudesse nos deixar mais inquietos do que já estávamos.

Coloquei Maroon 5, pra quebrar um pouco o gelo.

Ele logo meteu o bedelho no botão vermelho e desligou o som.

Parei alguns instantes, observei o botão poucos segundos, sem acreditar que fosse capaz de tamanha falta de delicadeza… Deve ser o nervosismo, pensei.

Virei-me para a janela do carro e fiquei observando os bambuzais e as árvores à beira da estrada, descompassadas ao sinal do vento. Os pássaros eram os únicos que conseguiam planar…

Não suportava aquela melancolia impregnada nos cantos do carro. O ar pairava quente em minha cabeça, como mormaço. Tudo me sufocava. A presença, a passividade, a falta de diálogo… Podiam ser acanhados e monossilábicos, não me importava, pois ainda assim seria um tête-à-tête agradável, uma conversa banal pra deixar a cabeça da gente no lugar, pra nos fazer esquecer dos ares e dissabores da terra que se aproximava.

Não aguentei.

Liguei o som novamente.

E antes que tocasse o primeiro refrão da música, ele o fez novamente. Desligou-o. Com um pouco mais de severidade, perceptivelmente, pois, após apertar o botão, colocou as duas mãos firmes sobre o volante e olhou fixamente pra frente, sem piscar os olhos. Uma gota de suor escorreu da testa até o pescoço… Desafrochou a gola da camiseta e abriu os botões da blusa de frio… As ações sinalizavam os pensamentos: sabia que fazia  algo que me magoava e não queria olhar nos meus olhos.

- Sei que está nervoso, mas não precisa ser…

- Ser o que? Fala! O que?

- Tosco…

- Só não gosto da voz desse cara. Não quero escutar essa música.

- Pensei que gostasse… Afinal, foi a trilha sonora do nosso primeiro encontro… E hoje é dia de relembrar… De reforçar nossos laços… Não combinamos isso antes de sair?

Não se lembrava. Realmente não se lembrava da música que tocava quando se conheceram. Bem ele! Um virginiano sagaz, que dava importância meticulosa a detalhes cotidianos dos mais corriqueiros e imperceptíveis. O andar, o olhar, a voz alterada, as pequenas permissividades das pessoas… Nada surpreendia nas condições humanas, mas em tudo se podia botar algum reparo.

Esquecera-se do próprio amor. Talvez até mesmo do amor próprio.

Havia percebido há algum tempo que as preocupações tomavam o lugar das boas lembranças, mas não imaginava que o fizessem estacionar os sentimentos em local impróprio, a ponto de não se lembrar dos momentos místicos de seu relacionamento mais forte.

- É… Verdade, isso… Sunday morning, né?

Ufa!, pensei.

E pouco tempo depois estavam conversando intensamente sobre as noitadas, as viagens, os risos, os causos… Os sonhos compartilhados…

Até se esqueceram por alguns instantes do encontro que teriam logo mais, com o passado. Com a cidade e com as pessoas que pararam no tempo e pouco sabiam da história recente dos dois. Esses seres inertes de tempos atrás só especulavam sobre o rebuliço e a fuga. Nada mais.

E naquela manhã de domingo mais que propícia, perceberam, através da sonoridade da música e das palavras recordadas, que não temiam mais nada. Nem os fantasmas do passado, nem os perrengues do presente, nem as surpresas do futuro.

Eram tudo: os problemas, as soluções, as lembranças, os amigos, os livros de cabeceira, as bitucas de cigarro, as garrafas de vinho, as tatuagens nos braços, os blues das madrugadas, os abraços, os beijinhos e os carinhos sem ter fim.

Eram todo o amor que houver nessa vida. Até os ossos!

Eram as calmarias. Aquelas estranhas e lancinantes calmarias.

Das manhãs de domingo.

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Quando a gente vai…

Agosto 18, 2009

Quando a gente vai

Há tempos tenho tentado mudar de vida. Tornar-me mais responsável com meus estudos, com meu trabalho e com minha casa. Tenho tentado encontrar alguém com quem possa compartilhar os desgastes e as alegrias dos dias, das semanas, dos meses e, quem sabe, dos anos…

Na verdade, quero e tento ser mais organizado e sistemático, pra não parecer que uma bomba atômica é lançada a cada passo que dou, por cada lugar onde piso.

Profissão, satisfação, sabedoria, carinho, amor… Por tempos pensei em estratagemas, táticas e formas de alcançar tudo isso. Claro que não de uma hora pra outra. Mas gradualmente… Com leveza, calma, sapiência…

Mas nada funcionou até então.

Tenho tentado descobrir o que tanto me aflige, qual a causa de tanta hiperatividade, de tanto descontrole.

Não tenho paciência.

E essa ânsia pra que as coisas dêem certo me deixa louco, me tira do mundo. Acaba afetando meus relacionamentos interpessoais e profissionais. Estou com preguiça pra dialogar sobre coisas banais. E até mesmo sobre algumas coisas que considero sérias.

Tenho precisado de fundamentos. E de calma, pra lidar com minhas reflexões. Com minha mente e com meu coração.

Deve ser por isso que esses estratagemas, táticas e formas pra alcançar essas felicidades materiais não tenham dado certo até agora. Talvez não sejam essas as felicidades que quero e, certamente, não é sendo outra pessoa que me fará alcançá-las, quaisquer que sejam.

Preciso urgentemente de novos fundamentos. Outras perspectivas. Outros olhares.

Mas entendo que é assim mesmo que funciona essa onda de ir vivendo. Às vezes dá vontade de ser outra pessoa… Alguém diferente. Como as pessoas mais loucas e felizes dos filmes. Como as mais ousadas com seus amores. Como as mais criativas com seus problemas. Como as mais bombásticas e ao mesmo tempo mais organizadas que possam existir.

Mas essa vontade passa… Como o tempo. Passa…

Quando a gente vai se descobrindo…

Quando a gente vai descobrindo o outro…

Quando a gente vai descobrindo o outro que existe dentro da gente…

Quando a gente vai se tornando alguém especial pra gente mesmo…

E nem percebe.

Daí dá uma puta duma vontade de ser uma versão melhorada do que a gente já é.

E isso é bom.

Pelo menos, eu acho.

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Chuva de lírios

Agosto 10, 2009

Chuva de lírios

Passei esse final de semana assistindo filmes que, de alguma forma, fizeram parte da minha vida, do meu passado. Claro que influem ainda no presente e, provavelmente, influirão no futuro, mas, de qualquer forma, num plano específico, mais detalhado, esses filmes ficaram lá, guardados em algum lugar do meu passado.

E algumas características desse passado, num plano mais geral, pode-se dizer que “pelo ângulo como eu analiso e critico as coisas”, é igual ao presente e, provavelmente, vai ser igual no futuro. Meus métodos pra pensar e refletir sobre as coisas da vida parecem ser os mesmos de quando eu tinha doze anos: cheios de estratagemas, conjecturas, devaneios e fantasias.

Mas, enfim… Comecei as sessões com Magnolia, numa madrugada incendiária. O efeito foi o mesmo das outras três vezes que assisti: fiquei acordado até as nove da manhã, fantasiando milhares de loucuras. Coisas minhas, coisas da vida, coisas do filme. Sinas e sinais de uma viagem muito louca, que às vezes eu acho que só eu tenho, de tão colorida e estroboscópica que é. Sei lá. É estranho. Juro que tem vezes em que fecho os olhos pra dormir e começo a ver diversos caleidoscópios, de cores diferentes, berrantes, que giram na minha cabeça. Sou obrigado a abrir os olhos, fitar a escuridão durante alguns minutos e só daí fechar os olhos e tentar dormir novamente. Foi mais ou menos isso que aconteceu depois que assisti o filme pela quarta vez, mas eu ainda estava acordado.

No sábado assisti Secretária. Estava ainda meio estranho, lesado, sei lá. Mas mesmo assim foi uma experiência fantástica. Perceber o amor e o sexo com olhos mais ávidos e menos estereotipados. O sentido de coisas que num primeiro momento parecem infames, mas que, com o passar das reflexões, se tornam claras, aceitáveis, corriqueiras. Naturais, até. E é nesse momento, quando começo a naturalizar milhares de coisas que pra maioria das pessoas são bizarras, é que percebo o quanto eu mesmo sou bizarro, por me deixar enlouquecer por muitas dessas pequenas atitudes que inicialmente parecem infames e que depois se tornam naturais, pelo menos pra mim. Deve ser porque, pra sociedade, essas coisas realmente são infames e, geralmente, não se tornam naturais…

No domingo, pra aproveitar as pitadas de loucura que tinha visto nos dias anteriores, assisti Angels in America. Fui tentado a provar novamente de toda aquela atmosfera rebuscada e cheia de significados do filme-teatro, mas quase que instintivamente, o que me tentou mesmo foi a loucura dos personagens e suas relações frenéticas com espíritos, alucinações, anjos e mensageiros, enquanto que, no mundo real, se é que ele existe, vivem pra exorcizar determinados demônios.

Enfim… Acho que não precisava de tanto blá-blá-blá pra chegar a certas conclusões. Não é mais ou menos tudo isso que a gente faz todos os dias? Fantasia as coisas, pensa em amor, pensa em sexo e exorciza os demônios da vida?

Acho que a grande e fundamental diferença reside na forma como refletimos sobre tudo isso e não nos conteúdos propriamente ditos… Os referenciais são importantes também…

Pra mim, as referências não são os filmes, mas os devaneios que eles incitam…

E é isso que aprendo, a cada passo, a cada momento de loucura: a respeitar a delicada ecologia de meus delírios.

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A alguém conhecido-desconhecido

Junho 12, 2009

conhecido-desconhecido

Corre calma, chama de pavio. Corre calma… Tua hora inda há de chegar. Just pray for something good…

Para ler ouvindo Yael Naim.

Saí de casa tarde, pra beber e fumar alguma coisa.

Mentira.

Procurava alguém… Conhecido-desconhecido. Não sei bem…

Passei pelos bares e não vi nada, nem ninguém. Andei pelas ruas escuras de chuva… Passei pelo puteiro, pela lanchonte, pelos postos de conveniência. Não, não consegui comprar um cartão telefônico. Queria tanto ligar pra alguém, não sei quem.

Mentira.

Eu sabia muito bem pra quem queria ligar, mas não tinha o número. Nem sabia se deveria…

Voltei pelo mesmo caminho, esperando que algum conhecido-desconhecido estivesse sentado na porta de casa. Esperando por mim, com uma garrafa de vinho e um sorriso estampado.

Só quando cheguei lá me lembrei que coisas assim não acontecem.

Sinto que estou por fora, quando uma grande bagunça acontece por dentro. Vivendo pra ver tudo queimar e virar cinza.

Nada. Não é nada disso que quero mais.

Pois ao final de cada noite, sinto que perdi a noção da hora. E que, sozinho, joguei tudo fora.

Ninguém, afinal, me diz quando ei de partir.

Muito menos quando ei de chegar…

Lá.

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Just let the sun

Maio 27, 2009

Just let the sun

You take it easy
You walk on your own
Look for the sunshine you’ll find your way home

Just let the sun
Shine on your face

- Vocês são iguais a ela… Aquela degradada, débil… Ficam buscando essas formas alternativas pra ver as coisas!

- Ser diferente é ser alternativo? Se for, é isso mesmo. Não tem como. Vai ficar tudo do jeito que está.

- Vocês viram onde ela foi parar agora, né? Com todas essas alternatividades… Vocês viram onde ela está com suas loucuras e desvarios? Tá lá, a sete palmos! Aquela vadia! Nos deixou pelo mundo…

- Não há mais espaço pras suas normatividades em nossa vida. Chega de hipocrisia. Amar não mata ninguém. E ela morreu muito feliz, se quer saber. Pediu que eu lhe desse um beijo e um abraço de despedidas. E disse que espera lá do céu, ou do inferno, que você ainda possa ser feliz. Assim, como ela procurou ser.

- Eu quero mais é que ela queime. E que vocês mudem! E vejam que tudo isso é passageiro! Que na vida só nos resta seguir.

E ela queimou.

Na verdade, todos queimaram. Por dentro, por fora, de raiva, de prazer…

E o mundo inteiro mudou.

Na verdade, pra pior. Só eles, e alguns outros, foram felizes de verdade.

Pois tiveram coragem pra deixarem de ser passageiros e tomaram a boléia do trem desgovernado.

Perceberam a tempo que a vida não é só seguir.

Pero seguir luchando.

Y poniendo el cuerpo…

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Blues da madrugada

Maio 25, 2009

blues

Para ler ouvindo You don’t know what love is.

Desceu pela primeira vez naquela estação.

Era o início da nova rotina casa-trabalho, trabalho-casa.

Cabeça baixa, taciturno, atravessou a estação como quem se encontra perdido e assustado no meio de um mar de gente. Mas não havia quase ninguém no pátio central da estação. Não naquele horário. Alguns travecos debochados, algumas putas cansadas, dois ou três cafetões tirando o último sarro do dia…

Não, não tinha medo dos degradados e degradadas da madrugada. Era mais um que chafurdava. Mais em pensamento que em ação, mas ainda assim chafurdava.

Espantou-se por alguns instantes com a desgraça alheia. Depois sorriu da própria desgraça. Um sorriso meio amarelado, ainda de cabeça baixa. Mas era um sorriso, sem dúvida.

Foi aí, nesse momento-preguiça-de-viver, que ouviu a música que mudaria sua vida. Caiu como uma estrela do céu. Iluminou-o.

Um blues.

Parou um instante no meio do pátio, levantou a cabeça para ver daonde vinha a voz e o sax.

Encantou-se. Pelos lábios que cantavam com tanta veemência, com tanta dor.

Percebeu de imediato que aqueles lábios haviam sido deixados. De imediato, percebeu também que queria-os pra si.

Tentou trocar um olhar, um sorriso amarelo, mas não conseguiu. Os olhos dos belos lábios estavam fechados, chorosos…

Com o tempo, os passos pelo pátio da estação foram ficando um pouco mais alegres. Todo dia um blues diferente. Todo dia os mesmos lábios. Todo dia os mesmos encantos e as mesmas dores de amor. Nenhum olhar, nenhum sorriso. Praticamente as mesmas reações iniciais.

Um santo dia, uma terça, às três da madrugada, passava mais uma vez pela estação, cabisbaixo e taciturno.

Foi quando a música parou e ouviu um grito, um chamamento.

- Ei, ainda são três horas! Você só passa às quatro!

Sentiu um arrepio gelado, visceral, mas gostoso. Sentiu que era pra ele que aqueles lábios se dirigiam.

- Esqueceu que o horário de verão acabou?

Pensou um pouco, sorriu. Bendito horário.

- Acho que perdemos a noção da hora…

Até pegar o ônibus pro trabalho ficaram conversando. Tomaram um pingado, comeram um pão de queijo. A tristeza dos meses se fora para ambos. Não viam a hora do partir. Queriam os desvarios e as travessuras das noites eternas. Sentiram-se como partes soltas no mundo recém-encontradas.

Deixaram o passado e foram verdadeiros. Fizeram as perguntas e deram as respostas. E, juntos, jogaram tudo fora. Agora estão aqui, após tanto tempo, perto de mim, esperando juntos o trem na estação. Ambos chorosos.

- Estou te deixando pela última vez. Você acha que me ama, mas não… Você não me ama. Até aprender a amar, você tem que perder.

Só escutei, com o sax na mão. Não ousei interferir, pois eram os mesmos encantos e a mesma dor dos amores e dos dias passados no pátio da estação.

Foi-se… Os belos lábios ficaram sozinhos novamente, após tanta espera, após tanta procura, após tanto blues.

Mal sabiam esses lábios que o maior parceiro, o maior amor, estava logo ao lado. Com o sax na mão. Na espera, na escuta.

De tempos em tempos acordo com uma puta vontade de gritar, de declarar meu amor e minha saudade.

Ontem, e só por ontem, acordei pra ir até a velha estação.

Pensei nos amores que nunca tive, nas respostas que nunca dei, nos blues que nunca toquei, em todas as vidas e histórias que presenciei sem presenciar, sem ter e nem tocar da maneira que queria.

E hoje, e hipocritamente só hoje, não sei porque acordei bêbado e fumado.

Com o intuito de amar. Na esperança de também ser amado.

Pelos lábios, pelos ouvidos, pelos olhos…