Arquivos para a Categoria ‘Tempos passados’

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Nossa carne é de carnaval

24 de Março de 2011

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas as vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Clarice Lispector

Na mesa do bar não existe preocupação. Não quando estou com meus amig@s. Todos falam, todos riem, todos futricam sobre a vida alheia, todos discutem algum tipo de relação bizarra entre uma coisa e outra. Não que não existam desavenças. Essas vem aos montes. Não que não existam histórias tristes, coisas do passado. Sempre rola uma lágrima ou outra. Não que não existam momentos de silêncio. Às vezes eles são meio que necessários. Não que não existam desencontros e despedidas. Que deixam boa saudade, só.

Mas preocupação mesmo, não existe. Estamos juntos pra reinventar a história, pra revivê-la de outra forma, pra fantasiá-la com cores novas, diferentes sabores e cheiros dos mais diversos.

Tem cheiros, cores e sabores que não esqueço. Aliás, que não quero e não me deixo esquecer. O gosto do vinho e da cachaça com mel, o cheiro do mutuca, da chuva e do perfume no cangote, as múltiplas cores do carnaval. E isso me lembra mais mesas de bar e o quanto sou louco por elas: pelas conversas de botas batidas, pelas discussões políticas em voz alta, pelas confissões ao pé do ouvido, pelas paixonites agudas que mantém a chama acesa, a roda vida, a voz ativa.

De tanto relembrar, de tanto reviver, consigo remontar e refantasiar perfeitamente uma grande mesa de bar, com todos que, de diferentes formas, com diferentes copos e bebidas, passaram e ficaram em minha vida. Imagens reais de um Brasil que amo, de São Paulo a Minas Gerais, de cerveja a cerveja, de cigarro a cigarro, de sorriso a sorriso, de história a história.

Por tudo isso sei que sou Atrás da Porta: me arrasto, me arranho, me agarro em seus cabelos, nos teus pés, no tapete atrás da porta… Sou passional demais e tenho aprendido a ser mais contido, mais objetivo com meus quereres e meus prazeres, sem deixar de lado o amor e a saudade que sinto. Que fique claro: objetividade não é prisão, nem perda de subjetividade, é uma leveza nos sentimentos, um equilíbrio essencial à delicada ecologia de meus delírios.

Sei, logo de cara, que nem todos à mesa são como eu, graças a Jah. Aliás, tenho observado que muitos de meus amigos e amores representam pra mim um oposto, igualmente amoroso, mas sem essa passionalidade toda. São Mil Perdões: te perdôo por fazeres mil perguntas, que em vidas que andam juntas ninguém faz, te perdôo por pedires perdão, por me amares demais… São aquele gostar meio escondido, aquela objetividade exacerbada, que não deixa os sentimentos aparecerem à primeira vista, nem à segunda. Uma racionalidade tamanha que não deixa determinadas vontades emergirem por si próprias. Aprendi, creio eu, com essa minha busca por uma passionalidade mais branda, a respeitar essa maneira de agir, essa forma de adorar pelo avesso.

Porém, como a mesa de bar é sempre um espaço de democracia, todos nos propomos a sentir o que o outro sente, ou temos procurado fazê-lo, à nossa maneira. E espero, nessas andanças de mesa em mesa, de bar em bar, ter dado um pouco do meu coração passional aos que dele querem sentir algo. E, tenho certeza que, da mesma forma, absorvi muitos desses pensamentos de mentes racionais, de que tanto preciso pra me transformar.

Afinal, vida é troca, vida é luta, vida é delírio, vida é transformação.

E dessa vida, a única coisa que sei, amigos e amigas, é que quando estou junto de vocês, quando nos conversamos, quando nos abraçamos, quando nos beijamos e quandos nos amamos, não somos nem Atrás da Porta, nem Mil Perdões.

Somos todos Folhetim. Somos todos Dê um rolê.

Somos, definitivamente, amor da cabeça aos pés.

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Mil razões, mil perdões

3 de Fevereiro de 2011

Para ler ouvindo Atrás da Porta e Mil Perdões.

Toc-toc.

- Quem bate?

(Desce o som. Vazio. Sobe aquele cenário escuro, aquele suspiro frio e enevoado, como nos filmes de suspense)

- É o calor.

(Bobagem! Todos sabemos como essa cena começa)

Pelo vão da porta, logo senti que era o frio disfarçado. Não a abri e nem quero que seja aberta, mas continuo em frente à maçaneta, vezenquando olhando pela fechadura. O frio, disfarçado de calor, me encara como uma criança triste, sentada no frio do viaduto, esperando a benvinda redenção. Sinto seu olhar de ódio desviado, falso ao mesmo tempo abatido, que me tenta a deixá-lo entrar novamente.

- Não. Já te perdoei por me perdoares, mesmo quando se vitimizava em suas próprias entranhas.

(Donde eu tanto me entrenhava…)

Por que retornar à minha vida assim, mesmo pedindo a devida licença? Por que ainda sente prazer em me atormentar, me fazer de bobo perante meus próprios olhos? Se você sempre olhava pra baixo quando conversávamos… Por que? Minha figura nunca foi austera, nunca foi assustadora, nunca foi fundo de mar. Fui teu cais, pois resvalei-me de meus mais castos mistérios, de meus mais belos acasos. Por você e por mim. Por isso mesmo acabou… Por eu estar ali, nu em pêlo, mesmo sem querer, sem minhas melhores mentirinhas.

Meus olhos estavam tão cheios de mim mesmo que não conseguiam olhar pra você? Era isso que você pensava, sempre pensou, eu sei. Isso me magoava, entristecia, matava um pouco a cada dia, pois percebendo meus olhos, você deixava de reconhecer os seus, que se perdiam numa ilusão vitimizada, que não conseguiam enxergar toda a maravilha refletida no espelho. O todo de sua divina obra, tua imagem refletida. Criação tua, só tua.

(Donde eu tanto me entrenhava…)

O que queres de mim novamente? Que além de deixar pra trás minhas mentirinhas, deixe pra trás também meus questionamentos? Que eu me remexa num túmulo de histórias passadas enquanto você se martiriza de um sofrimento que nunca sofreu? E se sofreu algum dano, não foi por tua própria causa, de teu olhar que não te olhava? Hoje, esses mesmos olhos que, segundo suas aspirações, pensavam só neles mesmos e no rosto em que se encaixavam, vêem com certa clareza toda aquela situação: tudo aquilo pra se fazer de vítima das situações cotidianas, pra me vestir de bicho papão perante seus amigos.

Plano traçado durante quanto tempo, quantos carnavais? Precisava? Fui tão mau assim? Passei dos meus próprios limites por insistência, creio. Mas, se passei, foi por você. E por mim. E pelas contas que contei. E por acreditar do fundo da alma que daria certo. E é por aí que errei e é por aí que hoje acerto: respeito a delicada ecologia de meus sentimentos, de meus mórbidos desejos. Sem ao menos sentí-los, sem ao menos desejá-los. Conselho: faça isso também com teus belos olhos…

(Donde eu tanto me entrenhava…)

O teu olhar, por fim, era de adeus. O meu, de esperança.

E sabe por que foi assim?

Por que meus olhos foram tudo que me sobraram. O resto todo era seu.

E hoje, quase tudo é meu novamente. Retornando em doses homeopáticas, em pequenas prestações, fragmentos de mim que se desgarraram de ti, que te esqueceram pelos cantos escuros das noites azuis, dos suspiros enevoados atrás da porta. Meu olhos e meu corpo querem ser de alguém que não você. Ainda bem!

Por isso pare.

Por isso repare.

Por isso não volte.

Por isso não revolte.

Sua tristeza nunca foi maior que a minha. Nem menor. Somos democráticos em relação ao sofrimento sofrido.

E se te amei pelo avesso, o erro foi meu e dos teus olhos.

Isso, porém, não faz de mim um crápula. Um inocente idiota, talvez. Nada de tão horrendo que justifique tuas ações.

Afinal, amar pelo avesso também é amar. Ou não é?

No mais, acabou, o frio se foi.

- Te perdoo.

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24 parágrafos

9 de Setembro de 2010

ou Da janela do quarto.

Vinho e cigarros. Vinho e cigarros. Vinho e cigarros…

Fecho os olhos e tento lembrar. Bem apertado.

Como começa essa história?

Lembrava ontem, hoje não lembro mais.

Merda…

Tinha lua, tinha gato, tinha árvore, tinha recados, tinha uma mesa cheia de porcarias, um edredon sujo.

Merda…

Acordei por volta das cinco ou seis da tarde com o vento. Não lembro que hora fui dormir. Só sei que já era noite. A árvore quase que totalmente depenada ainda jorra pela janela pequenas folhas amareladas no meu edredon azul. Tipo de frio. Árvore filha-de-um-puta-mal-paga, sujou todo meu edredon com essas merdas de folhinhas amarelas. E como tirar essas merdinhas amarelas do trilho da janela, da beirada do pé da cama, do chão do quarto todo? Não sei bem o que faço por aqui, deitado, friorento, tentando dormir um sono que não existe enquanto todo o mundo está acordado. Às seis da tarde…

Lembrei. É dia de comemorar. Aliás, é véspera de comemoração.

Acendi um cigarro logo que levantei. Fui pra beira da janela, coloquei Beauty is within us pra rolar, som de Scott Matthew. Onde ouvi isso a primeira vez? Não, não é de Shortbus. Acho que é de Ghost in the Shell, mas não tenho a máxima certeza, nem a mínima vontade de pesquisar. Deixei rolar, fácil assim, afinal, a beleza está dentro de todos nós, é como uma rosa que está pra desabrochar e blá blá blá blá. Só quero ouvir uma música que dê pra chegar até o meio do cigarro, depois escolho outra, aleatoriamente pré-requisitada, pra outra metade. Psychedelic Soul, mais do mesmo. Antes que o cigarro terminasse senti uma vontade quase que irrefreável de encostar os lábios na cantoneira de metal da janela. De segurar firme as mãos na parede ao lado da janela. Como se agarrasse alguém, como se aquele enconstar de lábios contra o metal e de mãos contra a parede fossem um simulacro daquilo que eu mais desejava durante esse tempo todo de sono, sonho e cigarro.

Uma marca quase imperceptível de respiração ofegante foi desaparecendo lentamente da superfície metálica, enquanto a chama do cigarro se esvaia e os últimos tragos estavam por vir.

Não tinha muito o que comemorar, pensando bem, analisando minha atual situação de desprendimento com o mundo e de literal agarramento com a parede do quarto e com o metal da janela.

Parei de pensar. Não há pra onde fugir, não há contra o que ou quem lutar. Não existem razões, nunca existem, não é mesmo? Por que pensar, então? Melhor: em que pensar? Na situação que acabou de acontecer ou nas situações que já aconteceram antes dessa, muito parecidas por sinal?

Não há nada em que pensar.

Vesti uma roupa, peguei uma blusa de frio, calcei as havaianas e saí. Meio sem rumo, creio. Precisava comer. Comprei uma pizza, metade moda da casa, metade frango com catupiry, uma coca-cola, vi algumas pessoas, não olhei nenhuma no rosto, fui até à padaria, comprei pão, presunto e queijo, vi mais algumas pessoas, não queria olhar em rosto nenhum, andei alguns metros, merda, voltei à padaria, comprei um maço de cigarros, este produto contém mais de 4.700 substâncias tóxicas, e nicotina que causa dependência física ou psíqui…, saco, nem se pode comprar um pão em paz!

Não. É proibido comprar pão.

Voltei lento pra casa. Acompanhava o passo não-passo dos gatos preguiçosos que habitam as ruas desertas de feriado. Avistei alguém fumando, cigarro de filtro amarelo, enquanto esperava o cachorro, um poodle branco mais que horroroso, fazer as necessidades noturnas. Tanto a tarefa quanto o cigarro pareciam não ter fim, tanto que me acompanhou com os olhos disfarçados de boné até minha chegada em frente ao portão. Walking after you, Foo Fighters, tocou baixinho em minha cabeça. Estranha fantasia.

Subi a escadaria, tomado pelas paredes e pelas vigas de metal, até o terceiro andar. Passei pela velha porta branca, pela porta de mogno, pela porta de Dona Nena, avistei o tapete colorido, bem-vindo, entrei. I’m on your back. Barulho de chuveiro, adoro água, doce, de preferência, por favor. Pus a pizza na mesa, o pão na cozinha, os frios na geladeira, o maço de cigarros perto da janela da sala, junto do cinzeiro. Pratos na mesa, talheres também, condimentos idem. Comemos, conversamos, olhei pouco para os lados. Fui pro quatro, fumei uma metade ouvindo 20 anos blues e a outra, Batucada da vida, ambas de Elis.

Meia-noite. Meio-cigarro. Meio-apático. Toca o telefone.

Parabéns! Abraço! Te amo muito! Sinto sua falta! Queria você por aqui! Agora você já tem a nossa idade! (risos, não meus, até então).

A partir daí, e só daí, comecei a lembrar. Comecei a desprender alguns sorrisos, pequenos que fossem. E fui me lembrando de coisas, que talvez já não façam mais parte de mim, não sei. Lembrei que sempre tentei ser um cara legal. Lembrei que tenho família e amigos e que os amo muito. Lembrei que já fiz coisas das quais me orgulhei com força. Lembrei, principalmente, que existem formas de lutar e lugares onde resistir. Kamchatka. Lembrei de alguém que, despercebidamente, passou pela minha vida. E espero que volte. Lembrei de mim. E essa foi uma boa lembrança.

Cantei É com esse que eu vou e Só tinha de ser com você em voz alta, enquanto saía de casa, enquanto esperava o ônibus, enquanto andava pelas ruas do centro. Daí em diante, desprendi sorrisos mais largos, mais cheios de mim, de alguém, de todos que amo. Ao olhar pela janela, vi mais que folhas amarelas.

Vi o sol.

E os brotos novos que saem dos galhos da árvore.

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Aquele texto

22 de Junho de 2010

Para ler ouvindo The Fall of the Worlds Own Optimist, de Aimee Mann.

Sonhei com isso algumas vezes. Dei de ombros quando precisei. Era o necessário. O tempo  das coisas. Não, aquele texto não era pra mim. Hoje percebo isso com mais sagacidade que antes.

Não chorei quando precisava, porém. Preferi fazê-lo em momentos que acreditava serem misticamente mais críveis, pra mim e pro mundo. Preferi o crer sem realmente sentir, apesar de também não saber ao certo. Ou será que o simples ato de crer me fez também sentir? Isso necessariamente tem que vir antes ou depois?

Gostaria de ter estado naquele olhos. Andado pequenos passos logo ali, logo atrás. Percorrido alguns pensamentos, fagulha que fosse. Acho que nem isso. Queria ter participado de mais conversas. Ser motivo delas, talvez. Baixinho, da boca pro ouvido. Pertinho. Queria ter tido pra. Queria não. Devia ter tido pra mim aqueles lábios, uma noite que fosse.

Mas não foi.

Fiquei em segundo lugar. E isso é tudo que vou conhecer desse mundo, dessa vida? Não queria que fosse assim, mas tenho acreditado cada vez mais, muito a contragosto, nessa coisa de destino, de vibe pronta. Quinze minutos em potência máxima no microondas e tá feito. O meu é sempre o lugar após o primeiro. Isso porque sempre acreditei que as dores e delícias do primeiro lugar são sempre relativas. Sempre acreditei que nem sempre se ganha no primeiro lugar. Agora, não sei mais em que acreditar.

São tantos erros, tantas ilusões de um dia. De outro dia. Do dia após. Dos dias e dias que passam. E se eu tivesse. Era um vez. Era outrora. Agora não é mais. É outro tempo, são outros acasos. Os cavalos brancos estão em outros campos. Pisoteiam os morangos. Sujam de rubro o branco-neve dos cascos, das coxas, dos dias.

Estou cansado, enfim. Sempre cansado. Como se uma preguiça gigante estivesse atracada dentro de mim, impedindo que meus músculos se movam, que minha vida ande. Algo há tempos se quebrou, e não sei o que é.  Nas madrugadas vou catando os cacos que sobraram. Recomponho-me sempre após as três da manhã. É aí que páro de me iludir, que coloco os pés no chão. No outro dia, percebo que andei sobre ovos. Ou sobre meus próprios cacos, quem sabe? Afinal, poderia consertar o que está quebrado? Serei um dia aquele cara do qual quero me orgulhar? Será que até o fim da noite, às três da manhã, terei força pra catar todos os cacos e me recompor por inteiro, sem faltar nada? Terei forças pra parar de vislumbrar e chegar às vias de fato?

Da vida, só sei que aquele texto não era pra mim.

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A porta da geladeira

4 de Fevereiro de 2010

ou Tudo sobre minha geladeira

“Eu simplesmente posso dizer que não o escrevi: fui escrito por ele. Ao contrário de todos os outros, não seguiu nenhum seguro plano prévio. Eu simplesmente não sabia ao certo o que queria dizer ou contar. Para saber, foi preciso aceitar escrevê-lo meio às cegas, correndo todos os riscos.”

Caio Fernando Abreu,  Para Não Gritar.

Na geladeira, nada de nada: dois sucos de caixa, quatro garrafinhas de água, duas ou três maçãs, quatro cebolas pequenas, molhos para salada, nenhuma salada. Num flash cogitou entrar na geladeira, como Mary-Louise Parker em Angels in America; tentar alguma coisa nova, inovadora, vai que dá certo, pensou. Mas não tinha comprimidos de valium e, além do mais, não queria criar alucinações. Queria que as alucinações viessem até ele, como num sonho psicodélico que se transpõe pro plano material.

Gostava de pensar nas coisas, fritar os nervos com relativizações descabidas, suposições do-que-poderia-ser-ou-ter-sido-ou-vir-a-ser. Fantasiar um pouco a realidade sem graça, sei lá. Criar estratagemas que provavelmente não iria utilizar, por mais que desejasse. Isso porque tinha medo de ser sincero demais com as pessoas e com as coisas que gostava. Na verdade, tinha medo que o achassem bizarro. Afinal, ninguém tenta a boa sorte entrando numa geladeira quase vazia. Só a Mary-Louise Parker, claro. E ele. Ou não. Será?!

Nesse frigir dos pensamentos, lhe ocorreu uma dura e corriqueira reflexão: nunca iria encontrar ninguém que o amasse de verdade. Só amor não correspondido, coisa platônica. Tudo amor assim, daquele jeito ruim, que ninguém ou quase ninguém quer ter. Não sabia porque havia cogitado entrar na geladeira e logo após pensado nisso. Não havia correlação direta entre as duas coisas. Ou havia?!

Ficou triste e aflito sem saber o porque das coisas da vida e do mundo. Deu aquele aperto estranho no coração, um comichão nas pontas dos dedos. Tentou se concentrar na bizarrice dos pensamentos pra ver de onde tinha tirado tamanha e horrível constatação. Relembrou pequenas aflições, velhos amores, grandes paixões, altos astrais, altas transas, lindas canções. Tudo em questão de segundos, como se fossem flashs rápidos de uma câmera fotográfica, tiros de metralhadora. Visualizava amor em tudo e em nada ao mesmo tempo. Coisas, momentos e pessoas tão fluidas e ao mesmo tempo tão presentes que não tinha bases para continuar pensando e refletindo sobre. Não sabia o que pensar, na verdade. Tinha medo que aquela reflexão fosse verdadeira. Tinha mais medo ainda de não saber o que representava o sentimento amor, pois esta sim seria a  constatação real e verdadeira de que tudo aquilo que tinha vivido até abrir a maldita porta da geladeira teria sido em vão. Ou não!?

Talvez, tudo que viveu e aquele momento em que abriu a geladeira naquele domingo à noite, fossem um subterfúgio da vida, um aprendizado prévio pra que ele agora fosse mais sincero consigo e com os outros, tivesse menos medo, e conseguisse alcançar o amor que nunca havia alcançado. Mais ou menos aquela coisa de igreja, que diz que “num lampejo de consciência e verdade ele alcançou a luz e mudou de vida”. Ou era uma forma de dizer a si mesmo que era um verdadeiro bosta, uma merda ambulante e sem amores. Ou, ainda, que tudo era apenas uma grande bobagem, uma peça que seus pensamentos estavam pregando para assombrá-lo.

Realmente, não sabia o que eram esses pensamentos. E não sabia também o que considerava como sendo amor. Não sabia se o que havia sentido anos atrás se configurava enquanto. Não sabia mesmo. Aliás, não conseguia reproduzir esse sentimento agora, de frente com a geladeira aberta. Com isso, não sabia se já havia amado ou não e se já havia sido amado por alguém. Não tinha base pra comparação, entende?

Não, ninguém entende. Nem eu.

Mas o fato é que isso o frustrou absurdamente. Era a constatação mais feia de todas. Não sabia mais amar, ou pior, nunca soube, pois não conseguia reproduzir o que já havia sentido, não sabia nem por onde começar. Lembrava só dos arrepios, dos desejos, dos gemidos, dos vislumbres, dos abraços, dos beijinhos, dos carinhos sem ter fim. Lembrava de algumas coisas desse tipo. E isso já não era a livre manifestação do amor? Sei lá, pode ser de dor também, né?

Nunca se sabe. Tudo é tão difícil, tão estranho.  Preferiu pensar na concepção abragente e subjetiva de Vinícius. O amor é o carinho, é o espinho que não se vê em cada flor. É a vida quando chega sangrando aberta em pétalas de amor. Não queria mais pensar nisso, então, encontrou uma forma de se confortar. Nem oito nem oitenta. Nem amor, nem dor. Tudo é nada, nada é tudo. Everything is Everything, como dizia Lauryn Hill. Nada mais justo. Nada mais poético. Nada mais fugaz.

Tudo isso pra que, na real, as caraminholas continuassem ali, intactas, mesmo com todo o esforço de Vinícius de Moraes, Lauryn Hill, Mary-Louise Parker, o caralho a quatro.

Pior que o babaca só queria tomar um suco de manga. E acabou vendo que o coração estava tão vazio e frio quanto a geladeira.

Sorte que a porta ainda continua aberta.

Existem coisas na vida que são fruto de uma sinceridade mórbida, como esse texto. Escrevi em terceira pessoa por acreditar linguisticamente que essa seja uma forma “bonita” de dizer as coisas. Mas falo de mim mesmo, sem hipocrisias e sem arrependimentos, na tentativa de ser alguém mais feliz e completo. E, por mais que esse não seja um dos textos mais bem elaborados gramaticalmente e um tanto quanto difícil de entender numa primeira leitura, fico feliz por tê-lo escrito. Bêbado e de ímpeto, claramente. Mais feliz ainda por tê-lo postado. Bêbado e de ímpeto, claramente. Pois representa aquele sentimento de “consciência para ter coragem”, extremamente clichê, pelo menos pra mim, que não sinto há muito tempo. Vejo como um sinal. Uma pequena luz, mínima que seja. Uma porta aberta. Sinal de novos tempos, novos prólogos, novas histórias, novos finais. Esperança, enfim.

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O fim da novela

15 de Novembro de 2009

garoto gordo

O que os olhos vêem é tão superficial, às vezes. E você?
Acredita só naquilo que seus olhos vêem?

Nada é real…

Perdemos tempo em uma sala de espera de consultório médico, lendo revistas antigas, enquanto um garoto gordo de boné vermelho nos olha com desdém. Você se sente um perdedor, um deslocado, assim como ele aparenta ser. Você lê sobre o final da novela que acabou há quatro anos atrás, enquanto ele, o garoto gordo, chupa um sundae de morango e te observa. Você se sente tão excluído e gordo quanto ele. Você se vê nele ou ele se vê em você?

Isso te incomoda… Os olhos estáticos se fixam na parede branca. Deixa de pensar no que aconteceu no último capítulo da novela que assistiu há quatro anos atrás.  Futilidades…

Aliás, fútil é o ser humano inconveniente e mórbido que convencionou que o garoto gordo é um um perdedor-deslocado-excluído. Porque? Por ser gordo, usar um boné vermelho e chupar um sundae de morango? E porque nos incomodamos tanto quando nos colocamos na mesma posição que o garoto gordo ocupa na escala de “vencedores”?

O garoto gordo poderia ser Jô Soares. Não é mesmo? Você pensa isso, talvez, pra não se sentir tão infeliz quando se coloca no mesmo patamar que o garoto gordo. Você encontra um gordo de sucesso… Maravilha!

Eis que chegamos ao ponto clímax da adiposa equação! Damos fama e dinheiro pro garoto gordo de boné vermelho e ele deixa de ser um perdedor-deslocado-excluído! Se torna um bobo da corte das elites… Mas será que isso é o melhor pra ele? O que será que ele quer da vida? Será que quer mesmo ser o Jô Soares? Ou o Faustão? Acho que não…

Acho que o garoto gordo de boné vermelho não quer dinheiro nem fama. Acho que ele quer continuar sua vida lambuzada de sundae de morango, observando os babacas que lêem revistas de quatro anos atrás em salas de espera de consultórios médicos, na tentativa de relembrar finais de novelas que não fazem a mínima diferença em sua vida.

Provavelmente, somos todos parecidos com o garoto excluído e gordo. Alguns por fora, a maioria por dentro. E, provavelmente, queremos ser o babaca que lê revistas velhas na sala de espera, só pra não ser o garoto gordo.

Às vezes nossos olhos são realmente muito superficiais e não vêem nada além da gordura do garoto. Talvez ele seja um cara bacana. Poderia ter sido seu melhor amigo na escola. Mas você preferia as futilidades dos “descolados” ao diálogo com os “deslocados”. A maioria normativa prefere.

O poder, ou a simples vontade de tê-lo, tapa nossos olhos com a normalidade estanque de tempos estranhos. E, assim, essa moral normativa cria os estigmas da puta, do viado, do drogado, do bizarro, do gordo… Dos perdedores-deslocados-excluídos. É sempre ruim ser minoria, que na verdade é maioria. É sempre bom sentir-se parte da maioria, que na verdade é minoria.

No final das contas, no frigir dos ovos e no bem da verdade, compartilhamos da mesma sala de espera e das mesmas revistas antigas. Do mesmo consultório médico e do mesmo desdém. Dos mesmos finais de novela que não lembramos e que não fazem a mínima diferença na nossa história.

Descolados ou deslocados, não interessa. Pra um virar o outro basta deslocar ou descolar duas pequenas letras… Nenhum deles é real. Nada disso é real. Nenhum deles precisa dessa realidade…

Afinal, todos nos escondemos por aí, em máscaras soturnas e empoeiradas de esperança, à procura de uma cura pras doenças que nos obrigam a permanecer em salas de espera de consultórios médicos, fantasiando finais de novelas em revistas antigas.

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Rascunho de um amor etílico

16 de Outubro de 2009

Jeff Buckley

ou “Quem tem medo do misterioso garoto branco?”

Para ler ouvindo Morning Theft, The sky is a landfill, Last Goodbye, Grace, So Real, Yard of blonde girls, Opened Once, Everybody here wants you, New Year’s Prayer, Witche’s Rave, Satisfied Mind, Lilac Wine, Hallelujah ou Lover, you should’ve come over. Ou todas de uma vez só…

My main musical influences? Love, anger, depression, joy and dreams……and zeppelin!

Um corpo sobre a água. Céu azul, brisa leve. Alguns pássaros planam. Temperatura estável. Um balão de ar, um zepelim direcionado, cruza os céus irradiando luzes mágicas, multicoloridas, ensurdecedoras. Cheio de amor, traz o último suspiro.

Desestabiliza tudo. Os pássaros não planam mais. O frio é mórbido. O céu enegrece, a brisa vira tufão. O corpo segue a correnteza calmamente. Agora é ele que irradia luz pela água turva do rio. Multicoloridas, mágicas, ensurdecedoras, loucas, agudas, arrepiantes…

Essa luz ainda pode ser vista até hoje, ouvida, até. É doce, terna e ao mesmo tempo agonizante. Forte por fora, instável por dentro. É o som que aqueles demônios que vivem dentro da gente fazem quando vestem carcaças de anjos: belos à primeira vista, corrosivos à segunda, mortais à terceira. É mais ou menos como aqueles amores fulgazes, senhores de tantas rugas: arrebatadores num primeiro momento, arrasadores num segundo, deprimentes num terceiro…

Mas ainda assim, quem não quer ter “anjos”, mesmo que disfarçados, e amores sórdidos, mesmo que acabem?!

É esse frisson dos desejos contraditórios que sinto hoje em dia quando ouço Jeff Buckley, cantor norte-americano que, mesmo sem ter nem saber (pois se encontrava morto quando o conheci), operou mudanças significativas em minha vida. Conheço-o desde os 15 anos de idade, das noites de Alto-Falante na TV Cultura. Desde então ficamos amigos. Assim, meio que sem querer querendo.

Penso que mudou muitas coisas na minha vida, primeiro de tudo, porque eu era o adolescente chato que pedia pras pessoas baixarem (não, eu não tinha internet) músicas estranhas que eu conhecia não-sei-de-onde. Tipo The Clash, Ella Fitzgerald e Jeff Buckley, que são meio desconhecidinhos numa cidade de 8 mil habitantes do interior paulista… Mas, enfim, o fato é que as músicas se tornam muitas vezes nossas vestimentas. E às vezes é melhor não extravazar demais na escolha das peças pra não causar a impressão errada. Ainda mais na adolescência, onde qualquer deslize é motivo de chacota. É como na alegoria dos demônios com carcaça de anjo… Você se torna o que as pessoas querem só pra ser melhor aceito numa rodinha de amigos ou num grupinho de pessoas especiais.

Mas o demônio ainda vive dentro de você. Os desejos contraditórios também.

Após quase um ano dessa amizade com Jeff, comecei a sair pras noitadas esfumaçadas da boate da minha pequena cidade. Parei de ouví-lo. Queria que as luzes fossem outras. Multicoloridas e sonoras de outra forma. Queria me tornar um anjinho sem asas, como tantos outros que conheci e que hoje são meus melhores amigos. Nos entendemos através dessas luzes esfumaçadas, enfim. E foi ótimo ter vivenciado todas essas pequenas loucuras de um mundo particular.

Mas eu sempre sentia que faltavam certas coisas, que antes existiam e que, até esse ponto da história, já não existiam mais. Sentia falta da morbidez dos momentos. Afinal, de depressivo-sozinho passei a playboy-rodeado-de-gente, num estalar de dedos. Queria de volta determinadas sensibilidades, que só conseguia ter em momentos de boa solidão, que se tornaram um tanto quanto raros.

Eu e Jeff só nos tornamos amigos novamente depois que entrei na universidade. Querendo ou não os espaços tem esse poder de mudar nossos ares. A fugacidade dos amores e os platonismos deram espaço para diversas luzes, inclusive as de Jeff, que sempre estiveram em minha vida, de uma forma ou de outra.

Foram as batidas itinerantes de “Grace“, a morbidez mágica de “So Real“, os arrepios na nuca de “Last Goodbye“, as esperanças amorosas gastas de “Lover, you should’ve come over“, a suavidade irrespirável de “Hallelujah“, as perdições noturnas de “Lilac Wine” e as reconfortantes verdades de “Satisfied Mind” que construíram meus momentos mais íntimos durante muito tempo.

Hoje são, em mesmo gênero, número e grau, os sonhos delirantes de “The sky is a landfill“, a baladinha dançante de “Witche’s Rave“, a confiança inabalável de “Yard of blonde girls“, a sensualidade deprimente de “Everybody here wants you“, as dores e delícias de “New Year’s Prayer“, o sopro descompassado de “Opened Once” e os sorrisos esperançosos desprendidos pela rua de “Morning Theft” que iluminam meu caminho para uma mente cada vez mais satisfeita.

Não são somente as músicas que me trazem à tona aquele frisson dos desejos contraditórios que tão subjetivamente tentei explicar inicialmente. É o sorriso sôfrego e o olhar indeciso, as mãos suaves sobre o violão e os olhos cerrados, a falta de palavras, o excesso de gestos estranhos e a boca trêmula que me fazem gostar da figura de Jeff Buckley. Foram e são aqueles gritos agudos e afinados que criaram esses laços entre minha vida e as músicas dele.

Jeff é meu suspiro prolongado… Aquele, do pé do ouvido. É um de meus delírios.  É um dos poucos demônios que preferiu, por livre e espontâneo arbítrio, extirpar a carapaça de anjo e mostrar as garras malévolas e suaves.

É, certamente, a trilha sonora do meu último adeus.

Não é a primeira vez que escrevo sobre artistas que curto, mas certamente é a mais tocante. Jeff foi meu primeiro delírio musicado, como disse anteriormente. E longe de mim dar o último adeus tão cedo como ele. Quero ainda curtir muitas das minhas primeiras paixões, como ele mesmo foi um dia. Em todos os sentidos…

Pra enfatizar e saber mais:

Site Oficial
Documentário (Amazing Grace: Jeff Buckley, 2004, Once and Future Productions)
Site Oficial do Documentário

Trailer de Amazing Grace

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23 Today

8 de Setembro de 2009

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Para ler ouvindo Aimee Mann, Mary J. Blige, Madeleine Peyroux e Paul McCartney. Ou qualquer outra coisa bacana…

A lua está cheia, o céu de baunilha estrelado. A gata saiu pra dar um passeio e a fumaça do cigarro traça uma linha conjunta com a água que cai da torneira. As garrafas estão vazias, os pratos sujos e a consciência limpa.

Hoje faço festas.

Fiz festas ontem. E anteontem também. Aliás, faço festas sempre. Físicas, espirituais, surreais, insurretas. Algumas calmas, outras, a maioria confessa, descontroladas.

Mas hoje a festa é diferente. São 23 anos pra pensar em tudo: no que me aconteceu de bom, de ruim e de indiferente. Em tudo que está pra acontecer. Em todas as coisas que estão guardadas nas mãos de Deus. Em tudo o que deixou de acontecer…

Hoje é dia de pensar no porvir das coisas do mundo. Do meu mundo.

E foi tudo tão rápido! Mais do que eu pensava… Um turbilhão descontrolado de vida seguiu derrubando velhos muros, pra formar e construir tudo que sou hoje.

Foi minha família. Foram meus pais e meus amigos. Foi aquela escola que eu odiava, aquela universidade que eu adorava, aquelas pessoas com as quais eu saía, aquelas com as quais eu dialogava. Foram os estudos, as bebedeiras, as militâncias, as conversas. Aquelas, de botas batidas…

Foram os problemas e as soluções. Foram os infernos pessoais e as pazes com o mundo. Foram as garrafas de vinho e os maços de cigarro. Foram todos os filmes que iluminaram meus dias. Foram todas aquelas manhãs de domingo. Foram todas aquelas tardes gastas de rir e trabalhar. Foram todas aquelas noites de conflito e reflexão. Foram todas as músicas que compuseram a trilha sonora dos meus momentos mais íntimos. E dos mais loucos também…

Sim, foram as loucuras! De todos os meus amores. De todos os meus conhecidos-desconhecidos. De todos os meus afetos e desafetos. De todos os amantes do círculo polar. De todos os degradados e malucos-beleza. De todos os solidários e solitários.  De todos os meus sinos e desatinos. De todos os sorrisos que desprendi da alma…

Foram, enfim, os carinhos. Os abraços. Os amores. As cores. Os açúcares. As confianças e os confidentes. Os sonhos e as utopias…

Foram todos esses que me construíram, me constroem e fazem parte de mim. Do meu corpo, da minha alma, da minha mente, do meu coração.  E é a todas essas pessoas, coisas e pensamentos que dedico cada sorriso e cada lágrima dos dias que passam e que estão por vir.

Hoje já é 23. Faltam alguns dias para o fim do mês.

E ainda preciso de alguém que me salve. E ainda preciso me salvar. E salvar alguém. Mas não vou pensar nisso por agora.

Que venha o sol ou venha a chuva.

Continuo aqui, firme e convicto, fazendo festas.

Pois nos dias de hoje sou todo amor.

Sou todo amores.

Thiago Padovan, o Terra Roxa, chega aos 23 anos e espera viver outros 23 para reler tudo o que já escreveu nessa vida. É jornalista, amante e sonhador nas horas vagas. Diz que um dia vai chegar às estrelas, mas por enquanto não passa da cabeceira da cama, pois prefere se deliciar mais um pouco com os prazeres e felicidades da vida terrena…

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Quando a gente vai…

18 de Agosto de 2009

Quando a gente vai

Há tempos tenho tentado mudar de vida. Tornar-me mais responsável com meus estudos, com meu trabalho e com minha casa. Tenho tentado encontrar alguém com quem possa compartilhar os desgastes e as alegrias dos dias, das semanas, dos meses e, quem sabe, dos anos…

Na verdade, quero e tento ser mais organizado e sistemático, pra não parecer que uma bomba atômica é lançada a cada passo que dou, por cada lugar onde piso.

Profissão, satisfação, sabedoria, carinho, amor… Por tempos pensei em estratagemas, táticas e formas de alcançar tudo isso. Claro que não de uma hora pra outra. Mas gradualmente… Com leveza, calma, sapiência…

Mas nada funcionou até então.

Tenho tentado descobrir o que tanto me aflige, qual a causa de tanta hiperatividade, de tanto descontrole.

Não tenho paciência.

E essa ânsia pra que as coisas dêem certo me deixa louco, me tira do mundo. Acaba afetando meus relacionamentos interpessoais e profissionais. Estou com preguiça pra dialogar sobre coisas banais. E até mesmo sobre algumas coisas que considero sérias.

Tenho precisado de fundamentos. E de calma, pra lidar com minhas reflexões. Com minha mente e com meu coração.

Deve ser por isso que esses estratagemas, táticas e formas pra alcançar essas felicidades materiais não tenham dado certo até agora. Talvez não sejam essas as felicidades que quero e, certamente, não é sendo outra pessoa que me fará alcançá-las, quaisquer que sejam.

Preciso urgentemente de novos fundamentos. Outras perspectivas. Outros olhares.

Mas entendo que é assim mesmo que funciona essa onda de ir vivendo. Às vezes dá vontade de ser outra pessoa… Alguém diferente. Como as pessoas mais loucas e felizes dos filmes. Como as mais ousadas com seus amores. Como as mais criativas com seus problemas. Como as mais bombásticas e ao mesmo tempo mais organizadas que possam existir.

Mas essa vontade passa… Como o tempo. Passa…

Quando a gente vai se descobrindo…

Quando a gente vai descobrindo o outro…

Quando a gente vai descobrindo o outro que existe dentro da gente…

Quando a gente vai se tornando alguém especial pra gente mesmo…

E nem percebe.

Daí dá uma puta duma vontade de ser uma versão melhorada do que a gente já é.

E isso é bom.

Pelo menos, eu acho.

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Chuva de lírios

10 de Agosto de 2009

Chuva de lírios

Passei esse final de semana assistindo filmes que, de alguma forma, fizeram parte da minha vida, do meu passado. Claro que influem ainda no presente e, provavelmente, influirão no futuro, mas, de qualquer forma, num plano específico, mais detalhado, esses filmes ficaram lá, guardados em algum lugar do meu passado.

E algumas características desse passado, num plano mais geral, pode-se dizer que “pelo ângulo como eu analiso e critico as coisas”, é igual ao presente e, provavelmente, vai ser igual no futuro. Meus métodos pra pensar e refletir sobre as coisas da vida parecem ser os mesmos de quando eu tinha doze anos: cheios de estratagemas, conjecturas, devaneios e fantasias.

Mas, enfim… Comecei as sessões com Magnolia, numa madrugada incendiária. O efeito foi o mesmo das outras três vezes que assisti: fiquei acordado até as nove da manhã, fantasiando milhares de loucuras. Coisas minhas, coisas da vida, coisas do filme. Sinas e sinais de uma viagem muito louca, que às vezes eu acho que só eu tenho, de tão colorida e estroboscópica que é. Sei lá. É estranho. Juro que tem vezes em que fecho os olhos pra dormir e começo a ver diversos caleidoscópios, de cores diferentes, berrantes, que giram na minha cabeça. Sou obrigado a abrir os olhos, fitar a escuridão durante alguns minutos e só daí fechar os olhos e tentar dormir novamente. Foi mais ou menos isso que aconteceu depois que assisti o filme pela quarta vez, mas eu ainda estava acordado.

No sábado assisti Secretária. Estava ainda meio estranho, lesado, sei lá. Mas mesmo assim foi uma experiência fantástica. Perceber o amor e o sexo com olhos mais ávidos e menos estereotipados. O sentido de coisas que num primeiro momento parecem infames, mas que, com o passar das reflexões, se tornam claras, aceitáveis, corriqueiras. Naturais, até. E é nesse momento, quando começo a naturalizar milhares de coisas que pra maioria das pessoas são bizarras, é que percebo o quanto eu mesmo sou bizarro, por me deixar enlouquecer por muitas dessas pequenas atitudes que inicialmente parecem infames e que depois se tornam naturais, pelo menos pra mim. Deve ser porque, pra sociedade, essas coisas realmente são infames e, geralmente, não se tornam naturais…

No domingo, pra aproveitar as pitadas de loucura que tinha visto nos dias anteriores, assisti Angels in America. Fui tentado a provar novamente de toda aquela atmosfera rebuscada e cheia de significados do filme-teatro, mas quase que instintivamente, o que me tentou mesmo foi a loucura dos personagens e suas relações frenéticas com espíritos, alucinações, anjos e mensageiros, enquanto que, no mundo real, se é que ele existe, vivem pra exorcizar determinados demônios.

Enfim… Acho que não precisava de tanto blá-blá-blá pra chegar a certas conclusões. Não é mais ou menos tudo isso que a gente faz todos os dias? Fantasia as coisas, pensa em amor, pensa em sexo e exorciza os demônios da vida?

Acho que a grande e fundamental diferença reside na forma como refletimos sobre tudo isso e não nos conteúdos propriamente ditos… Os referenciais são importantes também…

Pra mim, as referências não são os filmes, mas os devaneios que eles incitam…

E é isso que aprendo, a cada passo, a cada momento de loucura: a respeitar a delicada ecologia de meus delírios.

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