O que os olhos vêem é tão superficial, às vezes. E você?
Acredita só naquilo que seus olhos vêem?
Nada é real…
Perdemos tempo em uma sala de espera de consultório médico, lendo revistas antigas, enquanto um garoto gordo de boné vermelho nos olha com desdém. Você se sente um perdedor, um deslocado, assim como ele aparenta ser. Você lê sobre o final da novela que acabou há quatro anos atrás, enquanto ele, o garoto gordo, chupa um sundae de morango e te observa. Você se sente tão excluído e gordo quanto ele. Você se vê nele ou ele se vê em você?
Isso te incomoda… Os olhos estáticos se fixam na parede branca. Deixa de pensar no que aconteceu no último capítulo da novela que assistiu há quatro anos atrás. Futilidades…
Aliás, fútil é o ser humano inconveniente e mórbido que convencionou que o garoto gordo é um um perdedor-deslocado-excluído. Porque? Por ser gordo, usar um boné vermelho e chupar um sundae de morango? E porque nos incomodamos tanto quando nos colocamos na mesma posição que o garoto gordo ocupa na escala de “vencedores”?
O garoto gordo poderia ser Jô Soares. Não é mesmo? Você pensa isso, talvez, pra não se sentir tão infeliz quando se coloca no mesmo patamar que o garoto gordo. Você encontra um gordo de sucesso… Maravilha!
Eis que chegamos ao ponto clímax da adiposa equação! Damos fama e dinheiro pro garoto gordo de boné vermelho e ele deixa de ser um perdedor-deslocado-excluído! Se torna um bobo da corte das elites… Mas será que isso é o melhor pra ele? O que será que ele quer da vida? Será que quer mesmo ser o Jô Soares? Ou o Faustão? Acho que não…
Acho que o garoto gordo de boné vermelho não quer dinheiro nem fama. Acho que ele quer continuar sua vida lambuzada de sundae de morango, observando os babacas que lêem revistas de quatro anos atrás em salas de espera de consultórios médicos, na tentativa de relembrar finais de novelas que não fazem a mínima diferença em sua vida.
Provavelmente, somos todos parecidos com o garoto excluído e gordo. Alguns por fora, a maioria por dentro. E, provavelmente, queremos ser o babaca que lê revistas velhas na sala de espera, só pra não ser o garoto gordo.
Às vezes nossos olhos são realmente muito superficiais e não vêem nada além da gordura do garoto. Talvez ele seja um cara bacana. Poderia ter sido seu melhor amigo na escola. Mas você preferia as futilidades dos “descolados” ao diálogo com os “deslocados”. A maioria normativa prefere.
O poder, ou a simples vontade de tê-lo, tapa nossos olhos com a normalidade estanque de tempos estranhos. E, assim, essa moral normativa cria os estigmas da puta, do viado, do drogado, do bizarro, do gordo… Dos perdedores-deslocados-excluídos. É sempre ruim ser minoria, que na verdade é maioria. É sempre bom sentir-se parte da maioria, que na verdade é minoria.
No final das contas, no frigir dos ovos e no bem da verdade, compartilhamos da mesma sala de espera e das mesmas revistas antigas. Do mesmo consultório médico e do mesmo desdém. Dos mesmos finais de novela que não lembramos e que não fazem a mínima diferença na nossa história.
Descolados ou deslocados, não interessa. Pra um virar o outro basta deslocar ou descolar duas pequenas letras… Nenhum deles é real. Nada disso é real. Nenhum deles precisa dessa realidade…
Afinal, todos nos escondemos por aí, em máscaras soturnas e empoeiradas de esperança, à procura de uma cura pras doenças que nos obrigam a permanecer em salas de espera de consultórios médicos, fantasiando finais de novelas em revistas antigas.












