Arquivos para a Categoria ‘Tempos passados’

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O fim da novela

Novembro 15, 2009

garoto gordo

O que os olhos vêem é tão superficial, às vezes. E você?
Acredita só naquilo que seus olhos vêem?

Nada é real…

Perdemos tempo em uma sala de espera de consultório médico, lendo revistas antigas, enquanto um garoto gordo de boné vermelho nos olha com desdém. Você se sente um perdedor, um deslocado, assim como ele aparenta ser. Você lê sobre o final da novela que acabou há quatro anos atrás, enquanto ele, o garoto gordo, chupa um sundae de morango e te observa. Você se sente tão excluído e gordo quanto ele. Você se vê nele ou ele se vê em você?

Isso te incomoda… Os olhos estáticos se fixam na parede branca. Deixa de pensar no que aconteceu no último capítulo da novela que assistiu há quatro anos atrás.  Futilidades…

Aliás, fútil é o ser humano inconveniente e mórbido que convencionou que o garoto gordo é um um perdedor-deslocado-excluído. Porque? Por ser gordo, usar um boné vermelho e chupar um sundae de morango? E porque nos incomodamos tanto quando nos colocamos na mesma posição que o garoto gordo ocupa na escala de “vencedores”?

O garoto gordo poderia ser Jô Soares. Não é mesmo? Você pensa isso, talvez, pra não se sentir tão infeliz quando se coloca no mesmo patamar que o garoto gordo. Você encontra um gordo de sucesso… Maravilha!

Eis que chegamos ao ponto clímax da adiposa equação! Damos fama e dinheiro pro garoto gordo de boné vermelho e ele deixa de ser um perdedor-deslocado-excluído! Se torna um bobo da corte das elites… Mas será que isso é o melhor pra ele? O que será que ele quer da vida? Será que quer mesmo ser o Jô Soares? Ou o Faustão? Acho que não…

Acho que o garoto gordo de boné vermelho não quer dinheiro nem fama. Acho que ele quer continuar sua vida lambuzada de sundae de morango, observando os babacas que lêem revistas de quatro anos atrás em salas de espera de consultórios médicos, na tentativa de relembrar finais de novelas que não fazem a mínima diferença em sua vida.

Provavelmente, somos todos parecidos com o garoto excluído e gordo. Alguns por fora, a maioria por dentro. E, provavelmente, queremos ser o babaca que lê revistas velhas na sala de espera, só pra não ser o garoto gordo.

Às vezes nossos olhos são realmente muito superficiais e não vêem nada além da gordura do garoto. Talvez ele seja um cara bacana. Poderia ter sido seu melhor amigo na escola. Mas você preferia as futilidades dos “descolados” ao diálogo com os “deslocados”. A maioria normativa prefere.

O poder, ou a simples vontade de tê-lo, tapa nossos olhos com a normalidade estanque de tempos estranhos. E, assim, essa moral normativa cria os estigmas da puta, do viado, do drogado, do bizarro, do gordo… Dos perdedores-deslocados-excluídos. É sempre ruim ser minoria, que na verdade é maioria. É sempre bom sentir-se parte da maioria, que na verdade é minoria.

No final das contas, no frigir dos ovos e no bem da verdade, compartilhamos da mesma sala de espera e das mesmas revistas antigas. Do mesmo consultório médico e do mesmo desdém. Dos mesmos finais de novela que não lembramos e que não fazem a mínima diferença na nossa história.

Descolados ou deslocados, não interessa. Pra um virar o outro basta deslocar ou descolar duas pequenas letras… Nenhum deles é real. Nada disso é real. Nenhum deles precisa dessa realidade…

Afinal, todos nos escondemos por aí, em máscaras soturnas e empoeiradas de esperança, à procura de uma cura pras doenças que nos obrigam a permanecer em salas de espera de consultórios médicos, fantasiando finais de novelas em revistas antigas.

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Rascunhos de um amor etílico…

Outubro 16, 2009

Jeff Buckley

ou “Quem tem medo do misterioso garoto branco?”

Para ler ouvindo Morning Theft, The sky is a landfill, Last Goodbye, Grace, So Real, Yard of blonde girls, Opened Once, Everybody here wants you, New Year’s Prayer, Witche’s Rave, Satisfied Mind, Lilac Wine, Hallelujah ou Lover, you should’ve come over. Ou todas de uma vez só…

My main musical influences? Love, anger, depression, joy and dreams……and zeppelin!

Um corpo sobre a água. Céu azul, brisa leve. Alguns pássaros planam. Temperatura estável. Um balão de ar, um zepelim direcionado, cruza os céus irradiando luzes mágicas, multicoloridas, ensurdecedoras. Cheio de amor, traz o último suspiro.

Desestabiliza tudo. Os pássaros não planam mais. O frio é mórbido. O céu enegrece, a brisa vira tufão. O corpo segue a correnteza calmamente. Agora é ele que irradia luz pela água turva do rio. Multicoloridas, mágicas, ensurdecedoras, loucas, agudas, arrepiantes…

Essa luz ainda pode ser vista até hoje, ouvida, até. É doce, terna e ao mesmo tempo agonizante. Forte por fora, instável por dentro. É o som que aqueles demônios que vivem dentro da gente fazem quando vestem carcaças de anjos: belos à primeira vista, corrosivos à segunda, mortais à terceira. É mais ou menos como aqueles amores fulgazes, senhores de tantas rugas: arrebatadores num primeiro momento, arrasadores num segundo, deprimentes num terceiro…

Mas ainda assim, quem não quer ter “anjos”, mesmo que disfarçados, e amores sórdidos, mesmo que acabem?!

É esse frisson dos desejos contraditórios que sinto hoje em dia quando ouço Jeff Buckley, cantor norte-americano que, mesmo sem ter nem saber (pois se encontrava morto quando o conheci), operou mudanças significativas em minha vida. Conheço-o desde os 15 anos de idade, das noites de Alto-Falante na TV Cultura. Desde então ficamos amigos. Assim, meio que sem querer querendo.

Penso que mudou muitas coisas na minha vida, primeiro de tudo, porque eu era o adolescente chato que pedia pras pessoas baixarem (não, eu não tinha internet) músicas estranhas que eu conhecia não-sei-de-onde. Tipo The Clash, Ella Fitzgerald e Jeff Buckley, que são meio desconhecidinhos numa cidade de 8 mil habitantes do interior paulista… Mas, enfim, o fato é que as músicas se tornam muitas vezes nossas vestimentas. E às vezes é melhor não extravazar demais na escolha das peças pra não causar a impressão errada. Ainda mais na adolescência, onde qualquer deslize é motivo de chacota. É como na alegoria dos demônios com carcaça de anjo… Você se torna o que as pessoas querem só pra ser melhor aceito numa rodinha de amigos ou num grupinho de pessoas especiais.

Mas o demônio ainda vive dentro de você. Os desejos contraditórios também.

Após quase um ano dessa amizade com Jeff, comecei a sair pras noitadas esfumaçadas da boate da minha pequena cidade. Parei de ouví-lo. Queria que as luzes fossem outras. Multicoloridas e sonoras de outra forma. Queria me tornar um anjinho sem asas, como tantos outros que conheci e que hoje são meus melhores amigos. Nos entendemos através dessas luzes esfumaçadas, enfim. E foi ótimo ter vivenciado todas essas pequenas loucuras de um mundo particular.

Mas eu sempre sentia que faltavam certas coisas, que antes existiam e que, até esse ponto da história, já não existiam mais. Sentia falta da morbidez dos momentos. Afinal, de depressivo-sozinho passei a playboy-rodeado-de-gente, num estalar de dedos. Queria de volta determinadas sensibilidades, que só conseguia ter em momentos de boa solidão, que se tornaram um tanto quanto raros.

Eu e Jeff só nos tornamos amigos novamente depois que entrei na universidade. Querendo ou não os espaços tem esse poder de mudar nossos ares. A fugacidade dos amores e os platonismos deram espaço para diversas luzes, inclusive as de Jeff, que sempre estiveram em minha vida, de uma forma ou de outra.

Foram as batidas itinerantes de “Grace“, a morbidez mágica de “So Real“, os arrepios na nuca de “Last Goodbye“, as esperanças amorosas gastas de “Lover, you should’ve come over“, a suavidade irrespirável de “Hallelujah“, as perdições noturnas de “Lilac Wine” e as reconfortantes verdades de “Satisfied Mind” que construíram meus momentos mais íntimos durante muito tempo.

Hoje são, em mesmo gênero, número e grau, os sonhos delirantes de “The sky is a landfill“, a baladinha dançante de “Witche’s Rave“, a confiança inabalável de “Yard of blonde girls“, a sensualidade deprimente de “Everybody here wants you“, as dores e delícias de “New Year’s Prayer“, o sopro descompassado de “Opened Once” e os sorrisos esperançosos desprendidos pela rua de “Morning Theft” que iluminam meu caminho para uma mente cada vez mais satisfeita.

Não são somente as músicas que me trazem à tona aquele frisson dos desejos contraditórios que tão subjetivamente tentei explicar inicialmente. É o sorriso sôfrego e o olhar indeciso, as mãos suaves sobre o violão e os olhos cerrados, a falta de palavras, o excesso de gestos estranhos e a boca trêmula que me fazem gostar da figura de Jeff Buckley. Foram e são aqueles gritos agudos e afinados que criaram esses laços entre minha vida e as músicas dele.

Jeff é meu suspiro prolongado… Aquele, do pé do ouvido. É um de meus delírios.  É um dos poucos demônios que preferiu, por livre e espontâneo arbítrio, extirpar a carapaça de anjo e mostrar as garras malévolas e suaves.

É, certamente, a trilha sonora do meu último adeus.

Não é a primeira vez que escrevo sobre artistas que curto, mas certamente é a mais tocante. Jeff foi meu primeiro delírio musicado, como disse anteriormente. E longe de mim dar o último adeus tão cedo como ele. Quero ainda curtir muitas das minhas primeiras paixões, como ele mesmo foi um dia. Em todos os sentidos…

Pra enfatizar e saber mais:

Site Oficial
Documentário (Amazing Grace: Jeff Buckley, 2004, Once and Future Productions)
Site Oficial do Documentário

Trailer de Amazing Grace

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23 Today

Setembro 8, 2009

foto

Para ler ouvindo Aimee Mann, Mary J. Blige, Madeleine Peyroux e Paul McCartney. Ou qualquer outra coisa bacana…

A lua está cheia, o céu de baunilha estrelado. A gata saiu pra dar um passeio e a fumaça do cigarro traça uma linha conjunta com a água que cai da torneira. As garrafas estão vazias, os pratos sujos e a consciência limpa.

Hoje faço festas.

Fiz festas ontem. E anteontem também. Aliás, faço festas sempre. Físicas, espirituais, surreais, insurretas. Algumas calmas, outras, a maioria confessa, descontroladas.

Mas hoje a festa é diferente. São 23 anos pra pensar em tudo: no que me aconteceu de bom, de ruim e de indiferente. Em tudo que está pra acontecer. Em todas as coisas que estão guardadas nas mãos de Deus. Em tudo o que deixou de acontecer… 

Hoje é dia de pensar no porvir das coisas do mundo. Do meu mundo.

E foi tudo tão rápido! Mais do que eu pensava… Um turbilhão descontrolado de vida seguiu derrubando velhos muros, pra formar e construir tudo que sou hoje.

Foi minha família. Foram meus pais e meus amigos. Foi aquela escola que eu odiava, aquela universidade que eu adorava, aquelas pessoas com as quais eu saía, aquelas com as quais eu dialogava. Foram os estudos, as bebedeiras, as militâncias, as conversas. Aquelas, de botas batidas…

Foram os problemas e as soluções. Foram os infernos pessoais e as pazes com o mundo. Foram as garrafas de vinho e os maços de cigarro. Foram todos os filmes que iluminaram meus dias. Foram todas aquelas manhãs de domingo. Foram todas aquelas tardes gastas de rir e trabalhar. Foram todas aquelas noites de conflito e reflexão. Foram todas as músicas que compuseram a trilha sonora dos meus momentos mais íntimos. E dos mais loucos também…

Sim, foram as loucuras! De todos os meus amores. De todos os meus conhecidos-desconhecidos. De todos os meus afetos e desafetos. De todos os amantes do círculo polar. De todos os degradados e malucos-beleza. De todos os solidários e solitários.  De todos os meus sinos e desatinos. De todos os sorrisos que desprendi da alma…

Foram, enfim, os carinhos. Os abraços. Os amores. As cores. Os açúcares. As confianças e os confidentes. Os sonhos e as utopias…

Foram todos esses que me construíram, me constroem e fazem parte de mim. Do meu corpo, da minha alma, da minha mente, do meu coração.  E é a todas essas pessoas, coisas e pensamentos que dedico cada sorriso e cada lágrima dos dias que passam e que estão por vir.

Hoje já é 23. Faltam alguns dias para o fim do mês.

E ainda preciso de alguém que me salve. E ainda preciso me salvar. E salvar alguém. Mas não vou pensar nisso por agora.  

Que venha o sol ou venha a chuva.

Continuo aqui, firme e convicto, fazendo festas.

Pois nos dias de hoje sou todo amor.

Sou todo amores.

Thiago Padovan, o Terra Roxa, chega aos 23 anos e espera viver outros 23 para reler tudo o que já escreveu nessa vida. É jornalista, amante e sonhador nas horas vagas. Diz que um dia vai chegar às estrelas, mas por enquanto não passa da cabeceira da cama, pois prefere se deliciar mais um pouco com os prazeres e felicidades da vida terrena…

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Quando a gente vai…

Agosto 18, 2009

Quando a gente vai

Há tempos tenho tentado mudar de vida. Tornar-me mais responsável com meus estudos, com meu trabalho e com minha casa. Tenho tentado encontrar alguém com quem possa compartilhar os desgastes e as alegrias dos dias, das semanas, dos meses e, quem sabe, dos anos…

Na verdade, quero e tento ser mais organizado e sistemático, pra não parecer que uma bomba atômica é lançada a cada passo que dou, por cada lugar onde piso.

Profissão, satisfação, sabedoria, carinho, amor… Por tempos pensei em estratagemas, táticas e formas de alcançar tudo isso. Claro que não de uma hora pra outra. Mas gradualmente… Com leveza, calma, sapiência…

Mas nada funcionou até então.

Tenho tentado descobrir o que tanto me aflige, qual a causa de tanta hiperatividade, de tanto descontrole.

Não tenho paciência.

E essa ânsia pra que as coisas dêem certo me deixa louco, me tira do mundo. Acaba afetando meus relacionamentos interpessoais e profissionais. Estou com preguiça pra dialogar sobre coisas banais. E até mesmo sobre algumas coisas que considero sérias.

Tenho precisado de fundamentos. E de calma, pra lidar com minhas reflexões. Com minha mente e com meu coração.

Deve ser por isso que esses estratagemas, táticas e formas pra alcançar essas felicidades materiais não tenham dado certo até agora. Talvez não sejam essas as felicidades que quero e, certamente, não é sendo outra pessoa que me fará alcançá-las, quaisquer que sejam.

Preciso urgentemente de novos fundamentos. Outras perspectivas. Outros olhares.

Mas entendo que é assim mesmo que funciona essa onda de ir vivendo. Às vezes dá vontade de ser outra pessoa… Alguém diferente. Como as pessoas mais loucas e felizes dos filmes. Como as mais ousadas com seus amores. Como as mais criativas com seus problemas. Como as mais bombásticas e ao mesmo tempo mais organizadas que possam existir.

Mas essa vontade passa… Como o tempo. Passa…

Quando a gente vai se descobrindo…

Quando a gente vai descobrindo o outro…

Quando a gente vai descobrindo o outro que existe dentro da gente…

Quando a gente vai se tornando alguém especial pra gente mesmo…

E nem percebe.

Daí dá uma puta duma vontade de ser uma versão melhorada do que a gente já é.

E isso é bom.

Pelo menos, eu acho.

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Chuva de lírios

Agosto 10, 2009

Chuva de lírios

Passei esse final de semana assistindo filmes que, de alguma forma, fizeram parte da minha vida, do meu passado. Claro que influem ainda no presente e, provavelmente, influirão no futuro, mas, de qualquer forma, num plano específico, mais detalhado, esses filmes ficaram lá, guardados em algum lugar do meu passado.

E algumas características desse passado, num plano mais geral, pode-se dizer que “pelo ângulo como eu analiso e critico as coisas”, é igual ao presente e, provavelmente, vai ser igual no futuro. Meus métodos pra pensar e refletir sobre as coisas da vida parecem ser os mesmos de quando eu tinha doze anos: cheios de estratagemas, conjecturas, devaneios e fantasias.

Mas, enfim… Comecei as sessões com Magnolia, numa madrugada incendiária. O efeito foi o mesmo das outras três vezes que assisti: fiquei acordado até as nove da manhã, fantasiando milhares de loucuras. Coisas minhas, coisas da vida, coisas do filme. Sinas e sinais de uma viagem muito louca, que às vezes eu acho que só eu tenho, de tão colorida e estroboscópica que é. Sei lá. É estranho. Juro que tem vezes em que fecho os olhos pra dormir e começo a ver diversos caleidoscópios, de cores diferentes, berrantes, que giram na minha cabeça. Sou obrigado a abrir os olhos, fitar a escuridão durante alguns minutos e só daí fechar os olhos e tentar dormir novamente. Foi mais ou menos isso que aconteceu depois que assisti o filme pela quarta vez, mas eu ainda estava acordado.

No sábado assisti Secretária. Estava ainda meio estranho, lesado, sei lá. Mas mesmo assim foi uma experiência fantástica. Perceber o amor e o sexo com olhos mais ávidos e menos estereotipados. O sentido de coisas que num primeiro momento parecem infames, mas que, com o passar das reflexões, se tornam claras, aceitáveis, corriqueiras. Naturais, até. E é nesse momento, quando começo a naturalizar milhares de coisas que pra maioria das pessoas são bizarras, é que percebo o quanto eu mesmo sou bizarro, por me deixar enlouquecer por muitas dessas pequenas atitudes que inicialmente parecem infames e que depois se tornam naturais, pelo menos pra mim. Deve ser porque, pra sociedade, essas coisas realmente são infames e, geralmente, não se tornam naturais…

No domingo, pra aproveitar as pitadas de loucura que tinha visto nos dias anteriores, assisti Angels in America. Fui tentado a provar novamente de toda aquela atmosfera rebuscada e cheia de significados do filme-teatro, mas quase que instintivamente, o que me tentou mesmo foi a loucura dos personagens e suas relações frenéticas com espíritos, alucinações, anjos e mensageiros, enquanto que, no mundo real, se é que ele existe, vivem pra exorcizar determinados demônios.

Enfim… Acho que não precisava de tanto blá-blá-blá pra chegar a certas conclusões. Não é mais ou menos tudo isso que a gente faz todos os dias? Fantasia as coisas, pensa em amor, pensa em sexo e exorciza os demônios da vida?

Acho que a grande e fundamental diferença reside na forma como refletimos sobre tudo isso e não nos conteúdos propriamente ditos… Os referenciais são importantes também…

Pra mim, as referências não são os filmes, mas os devaneios que eles incitam…

E é isso que aprendo, a cada passo, a cada momento de loucura: a respeitar a delicada ecologia de meus delírios.

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A viagem de Julieta

Julho 1, 2009

Julieta dos espíritos

Da série “Recordar é viver!”

Não esperava muito de uma noite enfadonha de terça-feira. Resolvi passar na locadora para ver as novidades, mas, de sobressalto, acabei locando um filme bem antigo.

Digamos que tinha uma capa pouco convidativa. Claro, pouco convidativa aos olhos da explosão colorida de efeitos sobrenaturais que a atual cinegrafia tenta passar aos espectadores através das capas dos filmes. Da mesmo que aqueles roteiros dos quais escorrem ladrões, mocinhos, beldades e tantos outros atores de fama internacional, que acabam tomando a cena de tal forma que a história acaba se perdendo, tendo pouca importância.

O fato é que não esperava assistir a um filme que trouxesse uma atmosfera tão carregada de cores, sentidos, emotividade e, acima de tudo, uma maneira tão única de ver e expressar a mística do “fazer cinema com paixão”.

Julieta dos Espíritos (Giulietta degli Spiriti, Itália/França, 1965) conta a história de uma mulher que, ao desconfiar que o marido a traia, começa a ser acometida por visões.

Mas não pensem que se tratam de visões com espíritos malignos ou com aquelas aparições fantasmagoricamente toscas. Esse contato com o (sur)real, com um outro mundo de significados, leva Julieta (Giulietta Masina) a uma jornada de novas descobertas que a fazem despertar para a vida.

Despertar para sensações nunca antes sentidas. Despertar para aquilo que realmente traz unicidade e valor ao “ser vivente”, para tudo aquilo que realmente importa quando nos deparamos com as nossas reais necessidade e desejos.

Peço desde já desculpas a qualquer leitor que tenha chegado ao final deste texto, mas é meio difícil ser claro, conciso e jornalisticamente objetivo quando, pela primeira vez, assisti a uma obra-prima tão cheia de cor e esplendor, do mestre atemporal Federico Fellini.

Gozei!

É até bom salientar que o filme concorreu ao Oscar nas categorias “Direção de Arte” e Fotografia”, além de ganhar o prêmio Globo de Ouro de “Melhor Filme Estrangeiro”. Aliás… Não precisa de nada disso não… É Fellini!

O que vale mesmo salientar é que no texto original, pro site “Dentro do Balaio” que a gente montou no curso de comunicação da UFV em 2007, eu não escrevi a palavra “Gozei!”… Ainda era um jornalistinha meio retraidinho com as palavras. E com o sentido delas… Chato, né?!

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Just let the sun

Maio 27, 2009

Just let the sun

You take it easy
You walk on your own
Look for the sunshine you’ll find your way home

Just let the sun
Shine on your face

- Vocês são iguais a ela… Aquela degradada, débil… Ficam buscando essas formas alternativas pra ver as coisas!

- Ser diferente é ser alternativo? Se for, é isso mesmo. Não tem como. Vai ficar tudo do jeito que está.

- Vocês viram onde ela foi parar agora, né? Com todas essas alternatividades… Vocês viram onde ela está com suas loucuras e desvarios? Tá lá, a sete palmos! Aquela vadia! Nos deixou pelo mundo…

- Não há mais espaço pras suas normatividades em nossa vida. Chega de hipocrisia. Amar não mata ninguém. E ela morreu muito feliz, se quer saber. Pediu que eu lhe desse um beijo e um abraço de despedidas. E disse que espera lá do céu, ou do inferno, que você ainda possa ser feliz. Assim, como ela procurou ser.

- Eu quero mais é que ela queime. E que vocês mudem! E vejam que tudo isso é passageiro! Que na vida só nos resta seguir.

E ela queimou.

Na verdade, todos queimaram. Por dentro, por fora, de raiva, de prazer…

E o mundo inteiro mudou.

Na verdade, pra pior. Só eles, e alguns outros, foram felizes de verdade.

Pois tiveram coragem pra deixarem de ser passageiros e tomaram a boléia do trem desgovernado.

Perceberam a tempo que a vida não é só seguir.

Pero seguir luchando.

Y poniendo el cuerpo…

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Filosofias de um cagão…

Maio 5, 2009

cagao

Acordei cedo. Quase não dormi a noite toda.

Estava com o c* na mão.

Lavei o rosto meio assustado, limpei bem a boca com a escova de dentes, passei o fio dental, anti-séptico bucal, gargarejo. Ainda assim a gengiva sangrava sem ter nem saber.

Deu aquele frio na espinhela. Um medo da porra de ser coisa séria.

Fui quieto pra caminhonete pra não deixar transparecer o nervosismo. E fiquei quieto quase a viagem toda, só pensando em que daria aquela visita ao médico.

Tudo passou rápido demais. A estrada, os motel, a escola onde estudei, a praça onde sentava pra ler… Quando vi já estava na sala de espera do otorrinolaringologista.

Não sei porque tinha tanta criança naquele consultório! Pelo amor de Jah Rastafarah! Hoje em dia não se pode ter um momento de drama na vida sem barulhos incômodos de pessoas felizes?! Ainda por cima eram pessoas felizes  que seguravam bebês rechonchudos, remelentos e risonhos!

Minha mãe conhecia uma das mães felizes. Conversou, conversou, conversou e nem me viu ser chamado pelo médico.

Andei meio troncho pelo corredor, como quem faz gracinha em momento sério pra descontrair com o próprio destino.

Sentei na cadeira e, quando dei por mim, estava frente a frente a um senhor de cabelos brancos, cara de nordestino e óculos preto fundo de garrafa. Quase gargalhei enquanto estendia a mão pra cumprimentá-lo.

Repentinamente me esqueci de tudo que me afligia. Passados dois minutos de perguntas corriqueiras, o nordestino cego de cabelos brancos diagnosticou rinite, amidalite, desvio de septo, gengivite intermediária e cistos glandulares. Nada que não pudesse ser tratado com facilidade, segundo ele.

Receitou uns quatro remédios, escovação correta, enxaguatório bucal constante. E aqueles conselhos de sempre.

Saí da sala tão risonho quanto as mães com as crianças a tiracolo.

Engraçado como dez minutos acabaram com uma preocupação de quatro meses. Engraçado como o medo de não pertencer mais a este mundo faz a gente mudar nossas concepções em relação à vida que levamos.

Depois de dez minutos no consultório das mais pessoas risonhas e fofas do mundo, decidi ser mais sincero comigo mesmo, mais saudável e um pouco menos medroso.

Já se passaram duas semanas desde então e acho que ainda não cumpri com nada do que me auto-prometi. Mas, de tudo, penso que valeu a pena passar por tudo isso, pois já escrevi esse texto, tomei uma dose maravilhosa de cachaça pra agradecer o santo e acabei gastando toda a filosofia de buteco que tinha armazenada só pra repensar com mais sinceridade e carinho por onde andava minha vida.

No mais, me sinto mais leve.

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Palhaços no salão

Novembro 9, 2008

palhacos2

Andávamos a passos largos e apressados. Tínhamos de ir logo ao supermercado, comprar todas aquelas coisinhas imprescindíveis à uma noite pra lá de divertida: comidas de beliscar, bebida alcoólica e cigarros. O que mais nos afligia, até então, era a falta do famigerado gim.

Acabamos indo de cerveja mesmo: um fardo de latões. Perambulamos um tiquinho mais pra pegar o restante dos ingredientes e partimos pra esperada, combinada e cada vez mais próxima, gandaia particular. Estávamos quase que fugindo do mundo.

Não, não era uma fuga de verdade, no-sentido-literal-da-palavra. Eram pequenas vontades, que há muito não eram realizadas. Conversar, partilhar, gargalhar. Falar da vida: nossa e dos outros, claro.

Enfim… Cerveja vai, cerveja vem. As canequinhas brindavam em sinal de alegria, mais loucas que o morcegão da DC Comics. Fomos pra cozinha, fazer a prometida porçãozinha de linguiça defumada com provolone e pão amanhecido. Delícia da vida. Chuchu beleza!

Lembro que falávamos de tudo um pouco. Dos projetos, das realizações passadas, dos romances que não davam certo, dos casos escabrosos e também dos engraçados.

Pequenas celebrações.

Noite severina, severina noite.

Nostalgia do passado, incerteza do presente e esperança de futuro.

Tudo era farto. Tudo era alegria. Tudo era cansaço. Tudo era disposição.

Tu-ru-ru-ru, Tu-ru-ru-ru, Tu-ru-ru-ru-ruuuuuuuu. Tu-ru-ru-ru, Tu-ru-ru-ru, Tu-ru…

Celular tocando. Que porre!, pensei.

- Alô?

- Vem pra cá, pra minha casa. Vêm agora!

- Num posso. Tô longe daí. E já são quase onze e meia. Num tem como não.

- Vou ter de falar por telefone, então… Acontece que a…

Parei de ouvir.

- Deixa eu conversar com outra pessoa, isso é brincadeira.

- Não é, mas, enfim…

O segundo pra passar o telefone de uma mão pra outra podia ter durado a noite toda, mas foi rápido, um segundinho só.

- É ver… ver… verdade sim. Ela morreu.

Pane. Choro. Tremedeira. Descompasso. Soco no estômago.

Calma, calma, o que foi?

Abraço. Água. Cigarro. Tremedeira. Senta. Cadeira. Aqui! Transe… Como pode?

Celular. Me empresta seu celular!

- É verdade mesmo?

- É! Vem logo pra cá. Tá todo mundo aqui!

Celular. Táxi. Cigarro. Tempo. Tempo. Tempo. Não passa, porra! Que merda!

Buzina. Portão. Rua. Porta. Rodovia. Choro. Choro. Choro. Descompasso. Gente fantasiada. Zorro, Batman, Amy, cotonete, puta, travesti, médico, Jesus! Gente louca! Gente estranha. Gente feliz… Eu, chocado. Com o paiol e o fósforo grudados na mão.

Desci as escadas com o coração em punho. Toquei a campainha com alguma esperança.

A cantora abre a porta, sem suas vestimentas peculiares. Cara inchada. Abraço. Choro.

Era verdade.

Meus amigos, todos sérios, uns de cara fechada, outros com os olhos marejados, alguns, como eu, sem chão. Surreal. Não era um velório, mas a casa, antes radiante, estava escura. Parecia ter velas grudadas nas paredes. As pessoas pareciam estar vestidas de luto. Era verdade.

Música. Precisava de música. Qualquer uma. Escolhi o blues. Sentei num canto, ouvi e fumei mais.

Nada, não queria nada nem ninguém. A alegria, com um só baque, se esvaiu completamente.

Fomos ver como os outros estavam. Passamos pelas ruas lotadas de máscaras, fantasias, alegria e embriaguez. Nós, trizteza. Mal chegamos e logo sentei sozinho na escadaria. Alguns vieram me abraçar, outros conversar. Não queria nada, nem ninguém. Chorei. Como há tempos não chorava.

De súbito, alguém tirou o fone do meu ouvido. Só vi a imagem na camiseta: mão, exclamação, Avante!

Não aconteceu nada. Tá tudo bem. Ela não morreu.

Parei.

Baque.

Alívio. Nostalgia. Gente triste sorrindo. Gente alegre desacreditada. Gente boba se abraçando.

Tudo era brincadeira. Tudo era mal-gosto. Tudo era mórbida alegria. Tudo era humilhação. Tudo era vergonha.

Pra que? Por que? Pra quem? Como? Quando? Onde? Quem?!?!

Lead fácil de entender.

Criança de 19 anos, com problemas de compreensão das coisas e dos sentimentos do mundo, finge a própria morte, na tentativa de desvendar os mistérios do coração.

Do coração dos outros. Do coração de um, do coração de todos. Do coração dos despreparados.

Afinal, quem não quer se sentir amado por alguém?

Vai entender!

Cada um tem aquela paz que não quer seguir admitindo. Cada um brinca como pode e mobiliza como quer. Cada um tem as vontades que a cabeça realiza e que o coração não reflete. Cada ser tem sonhos a sua maneira.

O problema é que, pra realizar os sonhos a gente é obrigado a deixar uma parte de nós pra trás. Fantasias custam caro.

E a fantasia de palhaço que fui obrigado a vestir na festa dessa noite custa a sair. Foi pesada de vestir e está pesando pra sair.

Mas vai passar.

O resultado disso tudo são só mais algumas noites em claro, como tantas outras desses últimos tempos… Dessas últimas fantasias gastas.

A uma alma infeliz que ainda teimo em amar. Não se foi dessa vez, mas perdeu parte de sua luz. E um pouco do caráter também.
Ao leitor preparado, espero que saiba que tudo que escrevi nessas linhas tortas faz parte de uma grande brincadeira. Um ato lúdico de fazer os outros se esguelarem, típico de palhaços. Mas por mim tá tudo bem, tá tudo ótimo, pois fiquei sabendo que esse tipo de brincadeira é a nova moda da pós-modernidade. Lá no País dos Retardados, na pequena Vila dos Sentimentais, Rua do Desencanto, nº 171.
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Ode ao aonde

Setembro 14, 2008

(tudo começa com uma baforada de cigarro)

Sou aquele desajeitado.

Não, desajeitado não… Desajustado!

Erro mais que acerto, acerto mais que erro… Por fim (pausa seguida de suspiro) acabo acertando com os erros e errando com os acertos.

Fui pra ala, minha escola desfilou e o carnaval, enfim, terminou… Foram dias de glória nesse lugar!

A quarta-feira de cinzas começa sorrateira, e ao mesmo tempo feliz, por mais que represente uma determinada e bem delimitada ruptura com a ala das loucuras juvenis, com a escola onde aprendi a ser quem sou e com o carnaval mais transformador de minha vida…

(pausa prolongada por mais algumas baforadas…)

Agora quero outras alas, escolas e carnavais… Espero mais avenidas, pra com meus companheiros/as poder desfilar a vida…

E não só viver da contemplação das coisas, nem da mediocridade daqueles que não aceitam com o mínimo de permeabilidade a existência do próximo… Mas vivenciar a diferença ao lado desse próximo, construindo-me na contradição das coisas humanas.

(cai a primeira lágrima)

Me proponho a entender a beleza da vida… Que, para mim, enquanto desajustado que sou, é representada na luta diária, vinda do suor da face, da olheira do mulambo, do passo ritmado da morena, do mais belo altar de moscas bicheiras…

Por isso me proponho à permeabilidade… Pra Viver! Pra Escandalizar! Pra Carnavalizar! Pra aprender com o outro! Pra Lutar!

Simples… Complicado… Mas a vida segue (e continuará seguindo) sendo sinônimo de luta…

(caem outras lágrimas, que continuarão caindo… por tristeza, por felicidade, por carinho, por fim… por saudade…)