Arquivos para a Categoria ‘Sentidos’

h1

Tento de imperfeição

Novembro 26, 2009

Para ler ouvindo a música mais forte e bela que tiver conhecimento.

Meio-dia e trinta adentrou o recinto. Após um almoço conturbado e uma manhã de cansaço, o explosivo humano corroeu-se através do pátio da construção de vidro, atravessou o corredor de flores silvestres, subiu as escadas de marfim e deu de cara com as pessoas que mais amava e com as que menos gostava nessa vida.

Se é que ainda tinha vida e se é que ainda podia entitulá-la como tal.

Perguntou o que poderia fazer para ajudar, a quantas andava a coisa toda, que caixas deveria carregar… O que fazia ali? O que todos faziam ali? O que toda aquela construção fazia ali? O que todas aquelas vielas tortas faziam ali? O que aquela cidade toda fazia, escondida nos cafundós conservadores de um estado decadente, de um país em declínio?

Por alguns instantes a intolerância tomou conta do seu corpo. Não se sabe o que aconteceu. Desejo de brigar, partir pra cima de alguém, caçar confusão, deixar o demônio operar e apossar-se de sua mente… Não se sabe mesmo, mas seja o que for, essas forças motrizes fizeram festa em sua imaginação como há muito não faziam.

A cabeça doía, mas controlou-se. Fez caras e bocas, sorriu às gargalhadas, flerteu com quem viu de interessante pela frente, olhou os transeuntes com olhos baixos, soturnos, veementes. Lançou mão dos sarcasmos mais bem elaborados e maldosos, diga-se de passagem.

Boas armas, que, quando bem utilizadas, irritam e ferem mais que um soco bem dado, pensou.

Acertou em cheio. Saiu vitorioso, pelo menos, em sua fértil imaginação. Vislumbrou ser odiado mesmo, com toda força e todo ódio desse mundo, agora ou mais tarde, tanto fizesse, tanto houvesse, tanto quisesse.

Duas e meia da tarde adentrou novo recinto. Ambiente estranho, insalubre, parecido com a sensação de afundar-se em areia movediça. Colocou os fones de ouvido na tentativa de reinterpretar suas fantasias mais ousadas através das músicas que mais gostava. Saiu completamente do mundo. De corpo, alma e coração. Não sentia mais nada, nem uma sensação sequer. Tomou de assalto a estratosfera, como se ela fosse demasiado pequena para tamanha neutralidade de sentidos. Queria reabsorver-se de si mesmo, sugar tudo de ruim que existia para construir algo novo por cima, como um prédio em ruínas que é implodido para conferir vida nova em espaço e tempo diferentes.

Após tanto ódio, tanta raiva, tanto mau pressentimento, acalmou o coração. Voltou a si por livre e espontânea vontade de espírito.

Sabia que era volúvel e que essa volubilidade tinha seus encantos, pelos menos, em sua imaginação fértil. A cabeça ainda doía, mas por motivos diferentes. Era a transformação dos sentimentos ruins em renovadas fontes de percepção.

Às seis da tarde, ao desfalecer da aurora, já era outro. Não precisava de recintos, fossem construções de vidro ou ambientes insalubres. Nada disso. Era todo o espaço que podia alcançar com a fantasia. Era realmente outro. Era si mesmo. Nem ódio, nem neutralidade.

Era amor. É amores.

E o resto da história eu não preciso nem contar. Sei que é difícil, mas realize em sua mente, em sua alma e no íntimo do seu ser, um homem realmente feliz. Que de explosivo humano à uma neutralidade estratosférica, encontrou-se no lugar dos amores, das fantasias, das paixões irresolutas e das utopias transformadoras.

Não. Não pense que era perfeito, pois tinha prazer em não sê-lo, pois era feliz nas inconstâncias, nas volubilidades e, principalmente, nos prazeres de transformar as coisas mais humanas.

Era ainda o ódio, era ainda o neutro.

Sabendo, que, no final das contas, era sempre o amor.

E é sempre amores.

Sempre.

h1

Distrações momentâneas

Novembro 24, 2009

Estava extremamente chateado quando escrevi esse texto. Publiquei-o pra não deixar essas palavras doentes assombrarem meu painel de controle do WordPress na parte de rascunhos, como tantos outros textos rascunhados que teimo em não publicar…

Sempre que perco a esperança no mundo, olho pro céu ou pras pessoas ao meu redor. Quase sempre sorrio depois disso, mas, ultimamente, não acho certo fazê-lo. Minha desesperança tem sido cada vez maior, senão exorbitante, mas, estranhamente, é em relação a mim mesmo, e não com o mundo. Não sei bem se é por causa da fraqueza que sinto, advinda de uma sinusite crônica que teima em não largar do meu pé ou se, politicamente, me sinto fraco e desacreditado, sem convicções, sem ideologia, sem pátria, sem caminho.

Estranho isso, né?

Como uma doença aparentemente simples pode te deixar pra baixo durante todo um mês ou como os pensamentos que correm soltos pela sua cabeça podem te deixar abismadamente fraco, a ponto de não querer fazer absolutamente nada.

Estou assim. Cheio de coisas pra fazer no trabalho, no estudo, na vida pessoal, mas não encontro forças pra nada. Tenho preferido ficar em casa, escrevendo e ouvindo música, quando não dormindo e tomando remédios.

Me falaram algumas vezes pra ir ao médico, mas acho que preciso de novas e diferentes emoções, não de mais remédios ou tratamentos. Creio que a fraqueza física prolongada e a falta de convicções fazem isso, de vez em quando. Nos fazem desacreditar que nem tudo é o que é e que mudanças irão acontecer, talvez pra melhor.

Acaba que a gente fica como esse texto… Chato, ranzinza, cheio de reclamações, sem conseguir vislumbrar nenhuma solução.

A única coisa boa nisso tudo é que, virtualmente, você acaba dizendo coisas que você realmente precisa ouvir de si mesmo e acaba exorcizando alguns demônios que te assombram momentaneamente. De alguma forma, já é um alívio, né?

Ou, pelo menos, é algo pra se pensar: na fraqueza de si e na franqueza consigo.

Depois de escrever esse texto, fui dormir e, após quatro horas de sono, acordei 50 vezes melhor. Minha cabeça nem dói, meu nariz nem escorre mais e minha vida política nem parece tão conturbada assim…  Acordei mais esperançoso e feliz, graças a Jah.

h1

O vôo das gaivotas

Novembro 22, 2009

Para ler ouvindo Celibacy Blues, da Jill Scott.

Hoje acordei com vontade de voar com as gaivotas. Quando preparado pra decolagem, descobri que me faltavam asas.

Chorei. Não podia voar. Tomei um dramin e adormeci novamente.

Irremediavelmente adormecido, sonhei que voava com as gaivotas do Pacífico Sul. Não precisava de asas. A aerodinâmica dos braços, o arquear das pernas e a ajuda de minhas parceiras gaivotas eram suficientes para uma planagem sutil. Frustrava-me a impossibilidade de me atirar bruscamente na imensidão do mar revolto. Tinha medo de morrer num primeiro impacto com a águas gélidas do Pacífico…

Atentei-me logo que estava num sonho. E não se morre em sonhos, a não ser que se transformem em pesadelos. E se tem uma coisa que aprendi nessa vida é não ter medo de transformações, mesmo que um tanto absurdas e fora dos manuais de instrução normativos.

Fui de cabeça numa velocidade esfacelante. Mergulhei como um jato supersônico a 100, 200, 1000 metros de profundidade! Vi meu pobre corpo desfazer-se na água turva do oceano. Transformava-me em pequenos pontos de luz vermelha, azul, amarela, que se aglutinavam às moléculas borbulhantes de hidrogênio, oxigênio, sódio e o caralho a quatro. Estranhamente não sentia dor alguma. Muito pelo contrário. Sentia a brisa leve da primavera e os primeiros raios de sol da manhã. Sentia o prazer sufocante do gozo e a primeira mordida dum chocolate meio-amargo. Sentia o gosto dos primeiros beijos e as inquietudes dos diferentes amores.

Se isso era morrer, queria morrer um pouco todos os dias,  até explodir em pequenas-grandes boas sensações.

Mas tomei tino: isso não era morrer. Não, era algo muito maior. Era a transformação das coisas contraditórias, divinas e profanas. Tornava-me parte do oceano. Do todo. Do tudo. Mesmo que em sonho, fazia parte de um todo de sensações inocentes e mundanas, brandas e violentas, sutis e sagazes, grandes e pequenas…

Sensação indescritível em palavras que já existem, posso assegurar-lhe. Se feliz ou infelizmente, não sei, mas são desejos que ainda não tem nome. E creio que não seja coisa nossa, de ser humano, pensar em nomes e colocações pra eles. Basta ser permeável o bastante pra sentir. E tá aí a magia da coisa toda.

Após horas e horas de sono, acordei gozado e sorridente.

Polução noturna, dizem…

Mas eu acho que tudo isso não tem nome, não.

Acho que é só vontade de voar mesmo.

h1

O fim da novela

Novembro 15, 2009

garoto gordo

O que os olhos vêem é tão superficial, às vezes. E você?
Acredita só naquilo que seus olhos vêem?

Nada é real…

Perdemos tempo em uma sala de espera de consultório médico, lendo revistas antigas, enquanto um garoto gordo de boné vermelho nos olha com desdém. Você se sente um perdedor, um deslocado, assim como ele aparenta ser. Você lê sobre o final da novela que acabou há quatro anos atrás, enquanto ele, o garoto gordo, chupa um sundae de morango e te observa. Você se sente tão excluído e gordo quanto ele. Você se vê nele ou ele se vê em você?

Isso te incomoda… Os olhos estáticos se fixam na parede branca. Deixa de pensar no que aconteceu no último capítulo da novela que assistiu há quatro anos atrás.  Futilidades…

Aliás, fútil é o ser humano inconveniente e mórbido que convencionou que o garoto gordo é um um perdedor-deslocado-excluído. Porque? Por ser gordo, usar um boné vermelho e chupar um sundae de morango? E porque nos incomodamos tanto quando nos colocamos na mesma posição que o garoto gordo ocupa na escala de “vencedores”?

O garoto gordo poderia ser Jô Soares. Não é mesmo? Você pensa isso, talvez, pra não se sentir tão infeliz quando se coloca no mesmo patamar que o garoto gordo. Você encontra um gordo de sucesso… Maravilha!

Eis que chegamos ao ponto clímax da adiposa equação! Damos fama e dinheiro pro garoto gordo de boné vermelho e ele deixa de ser um perdedor-deslocado-excluído! Se torna um bobo da corte das elites… Mas será que isso é o melhor pra ele? O que será que ele quer da vida? Será que quer mesmo ser o Jô Soares? Ou o Faustão? Acho que não…

Acho que o garoto gordo de boné vermelho não quer dinheiro nem fama. Acho que ele quer continuar sua vida lambuzada de sundae de morango, observando os babacas que lêem revistas de quatro anos atrás em salas de espera de consultórios médicos, na tentativa de relembrar finais de novelas que não fazem a mínima diferença em sua vida.

Provavelmente, somos todos parecidos com o garoto excluído e gordo. Alguns por fora, a maioria por dentro. E, provavelmente, queremos ser o babaca que lê revistas velhas na sala de espera, só pra não ser o garoto gordo.

Às vezes nossos olhos são realmente muito superficiais e não vêem nada além da gordura do garoto. Talvez ele seja um cara bacana. Poderia ter sido seu melhor amigo na escola. Mas você preferia as futilidades dos “descolados” ao diálogo com os “deslocados”. A maioria normativa prefere.

O poder, ou a simples vontade de tê-lo, tapa nossos olhos com a normalidade estanque de tempos estranhos. E, assim, essa moral normativa cria os estigmas da puta, do viado, do drogado, do bizarro, do gordo… Dos perdedores-deslocados-excluídos. É sempre ruim ser minoria, que na verdade é maioria. É sempre bom sentir-se parte da maioria, que na verdade é minoria.

No final das contas, no frigir dos ovos e no bem da verdade, compartilhamos da mesma sala de espera e das mesmas revistas antigas. Do mesmo consultório médico e do mesmo desdém. Dos mesmos finais de novela que não lembramos e que não fazem a mínima diferença na nossa história.

Descolados ou deslocados, não interessa. Pra um virar o outro basta deslocar ou descolar duas pequenas letras… Nenhum deles é real. Nada disso é real. Nenhum deles precisa dessa realidade…

Afinal, todos nos escondemos por aí, em máscaras soturnas e empoeiradas de esperança, à procura de uma cura pras doenças que nos obrigam a permanecer em salas de espera de consultórios médicos, fantasiando finais de novelas em revistas antigas.

h1

A casa e a estrada

Novembro 10, 2009

Casa e Estrada

Ou “Hora de voltar”

Para ler ouvindo Winding Road, de Bonnie Sommerville, parte da trilha sonora de Garden State, que me inspirou a escrever essas coisas sem sentido…

Aja estranhamente sempre, no intuito de ver a vida através dos olhos de um lunático. Faça coisas que sua imaginação diz serem únicas, como se fosse a primeira vez que um ser humano as realiza sobre a face da terra. Saboreie o bizarro na tentativa de sentir-se novo, renovado, único e especial.

Não se mova.

Fique inerte por alguns instantes como se fosse desmaiar, só pra dar aquele suspiro cansado ao final da trama que você mesmo criou enquanto a fantasia deprimente de desfalecer passava pela sua cabeça.

Não entenda o que os outros querem dizer pra você com um simples olhar. Desfrute sempre de um bom diálogo, mesmo que monossilábico e cheio de momentos ininterruptos de um silêncio agoniante, pois além do olhar existe a palavra, assim como existe a pergunta acima de qualquer resposta. É o que importa: a existência dos símbolos que criam os laços e não os laços por si sós.

Sinta-se, pelo menos uma vez na vida, em um clipe de música indiana onde todos dançam e fazem sexo loucamente, enquanto você observa tudo com olhos atentos e calmos, em câmera lenta. Feche-os nos exatos momentos em que sentir um prazer orgásmico correr pelo seu corpo, como uma chama de pavio que se alastra dos dedos dos pés até o fim da nuca. Não se mova. Deixe os corpos se movimentarem por você. Só nesse pequeno instante perdido no tempo. Onde a música toca lentamente e os dançarinos e dançarinas do sexo se embriagam numa rapidez lancinante, que faria até o mais cético dos católicos fervorosos trepidar de prazer. E você ali, parado. Calmo, convicto, orgásmico… Estático a criar fantasias pagãs.

Conheça-se e reinterprete-se através dos olhos dos outros, daqueles que te amam ou possam vir a te amar um dia. Ou uma vida inteira… Quem sabe?

São aquelas estranhas sensações de encontro que não necessariamente precisam terminar em despedida. Não tão cedo. Não sem choro. Não sem perda. Não, nunca foi fácil pra ninguém. Mas quem disse ou escreveu que deveria ser assim ou assado? Afinal, existem sensações que mesmo estranhas ou tristes não deveriam deixar de existir, como a saudade.

Tudo isso representa aquele encontrar-se de que tanto falo. Em vários personagens e situações. É aquele fantasiar das coisas, aquela brincadeira de travestí-las de uma mística particular e única, por isso tão especial. É o prazer de sentir-se completo e concreto nos outros, naqueles que te amam e vão te amar pela vida inteira, mesmo que só em fantasia…

Afinal, a chuva continua caindo. A estrada continua nos chamando. O oceano continua com a mesma imensidão. O café com o mesmo gosto. O travesseiro com o mesmo cheiro. A mesma cama desarrumada…

O que muda com o tempo é a maneira como sentimos a vida e o mundo. Muda a cor do pensamento.

E porque caminhamos por tanto tempo? E porque procuramos tanto e tanta coisa? E porque nos fantasiamos de sonhos e realidades?

Pra achar o caminho de casa.

Acredito eu. Acredita você. Acreditamos nós.

h1

Novas histórias

Novembro 8, 2009

Novas histórias

Sabe aquele primeiro abrir e fechar de olhos de quando você emerge, depois de ficar muito tempo sem ar debaixo da água? Aquela sensação do primeiro trago de um cigarro num momento de stress?

Aquela velha história do suspiro de alívio quando a tortura tem fim, sabe?!

Sinto-me constantemente assim, com essa sensação de ter acabado de sair de um sufoco. Estranhamente letárgico, com movimentos excessivamente calmos, quando existem. Uma serenidade incomum, pelo menos pra mim, no momento de encarar meus problemas, que não são poucos…

Essa boa calma é resultado de todo um processo de transformação das coisas. Com o tempo mudei de água pra óleo, de óleo pra álcool, de álcool pra vinho. Hoje escolho ser vinho. Não sou mais um cego na sala de tortura. Escolhi tirar a venda que tapava meus olhos e escolhi não mais adentrar essa sala podre, suja e hipócrita. Escolhi o sorriso terno de olhos fechados e a bem-vinda calmaria. A boa calma.  É o livre arbítrio do cultivo. São os frutos que a gente colhe…

Frutos de compreensão do mundo que a gente colhe quando planta respeito. Acho que é isso mesmo… Tenho aprendido com os dias, meses e anos, a respeitar as escolhas e opiniões dos outros e, da mesma forma, a respeitar minhas próprias escolhas e opiniões.

E acho que hoje sou mais feliz por isso. Pelas escolhas, pela sinceridade e pelo respeito. Por respeitar os outros e por respeitar a mim mesmo.

Enfim. Só precisava falar isso. Aquela velha história do desabafo, sabe?!

Sem fim magistral, sem tom poético.

E sem ponto final, finalmente…

h1

Eu, o bom homem e a colombina

Outubro 23, 2009

eu o bom homem e a colombina

Ou “Jeff, Moska e Bethânia”.

Para ler ouvindo Glory Box, do Portishead.

Noite de riso, manhã de choro.

O bom homem, bêbado de doses, cigarros e prazeres, decide fugir do monge e da rotinha dos hábitos. Por uma noite, uma derradeira noite, merecia tais provocações da alma. Todos os dias moralmente “corretos”, os mesmos trabalhos repetitivos, as mesmas pequenas frustrações, as mesmas transas, as mesmas camisetas brancas, os mesmos óculos de grau. Era como uma música bela e calma, superficialmente simples, mas no fundo cheia de complexidades. Um Paulinho Moska, talvez.

Queria algo. Definitivamente, o bom homem queria algo. Não sei bem o que, mas queria.

Pensou um pouco, tomou o último trago de cerveja e foi. Despediu-se dos amigos, atravessou as portas do bar e dirigiu-se à casa das portas de vidro. Dirigiu-se ao lar de outrém para descansar a bebedeira e dormir o sono dos derrotados. Só para dormir, pensava. Pensei também, acho.

Conversamos um pouco, ainda. Sobre o sexo e suas familiaridades, sobre os incômodos e suas histórias bizarras… Até o momento em que ela apareceu.

Só de calcinha. Aliás, enrolada em uma colcha felpuda, de listras brancas e vermelhas.

Não, o tempo não parou. Não houve furor momentâneo, nem arrepio nos pêlos do braço. Era conhecida demais de nós dois. Atraente, bonita a seu modo, mas nada que causasse frisson. Não em nós dois, achava.

Estava com os olhos vermelhos de sono, o cabelo desgrenhado, os lábios secos e um pouco murchos, como os de uma criança que acabou de quebrar o brinquedo ganhado no natal. Era diferente dele, do bom homem. Parecia-se comigo. Uma colombina. Queria as fugacidades dos amores errados, as loucuras cotidianas, a procura constante por alguém que a fizesse feliz. Era constante nas inconstâncias. Era como uma música triste que deixa a gente alegre por dentro. Uma Maria Bethânia, talvez.

Conversamos um pouco, nós três. Não me recordo os assuntos. Banalidades políticas, creio eu. Íamos nesse embalo nos preparando para a tal madrugada de sono.

Vestimos pijamas, comemos alguma coisa e nos aprumamos em nossos respectivos cantos. Eu, na rede, eles, na cama. Não estranhei o movimento. Nunca estranho estes movimentos. Acho que naturalizo demais as coisas, mas, enfim… Coisas minhas. Não queria dormir, tinha que acordar cedo. Queria cores viva, nada que fosse desbotado. Coloquei Kill Bill e tentei ficar acordado até a hora de trabalhar. A última cena que me lembro é de Uma Thurman batendo a cabeça de um enfermeiro no vão da porta. Dormi sem perceber…

O que aconteceu depois pertence a um universo particular. Um círculo vicioso de pequenos detalhes dos quais prefiro me ater, mesmo porque só presencie as preliminares e os finalmentes. Presença de espírito, claro. Dormi feliz, acho.

Acordei com um burburinho. Tentei ser o máximo discreto possível. Não sei se consegui, mas, também, acho que isso não importa. O importante é o estranhamento. É a maneira como as pessoas lidam com o desejo.

Creio que ambos choravam. Tenho certeza que ambos choravam.  De arrependimento, possivelmente.

Achei engraçado. Enquanto o bom homem e a colombina choravam, eu sorria. Sorrisos claros de dia, assim como as lágrimas perdidas da noite. Inevitavelmente comecei a ouvir Jeff Buckley. O momento pedia, acho. Afinal, não é a primeira vez que sexo dá prazer e nem a primeira que faz chorar. Certamente não.

Conversamos pouco… Ainda enxugavam as lágrimas. Falaram de menos e, como quem come um prato pelas beiradas, pediram desculpas. Como sempre sorri, naturalizei a situação e disse a eles que essa era a coisa mais humana que podia existir. Fazer sexo, assim como as loucuras do amor e as extravagancias do desejo, são alguns dos fatores da equação que mais aprecio nas regras de três que a vida nos prega. Não sei se fui certo com as palavras e com os sorrisos em um momento triste.

Só sei que sonhei. Com pequenos sons ofegantes bem ao fundo, longínquos, sonhei que dirigia Marina Lima como garota de programa em um filme incendiário.

Enfim, uma noite como outra qualquer. Feita de sonhos meus e desejos de outrém.

Eu, o bom homem e a colombina temos algo em comum: somos boas músicas em um momento tempestuoso. Ritmos, compassos e letras bem diferentes. Ele, Moska. Ela, Bethânia. Eu, Jeff. Todos boas músicas numa noite de sonho e desejo.

Caixinhas de jóias lacradas de glória e despudor.

Abertas em segredo, bem baixinho, como um sussuro suado no pescoço.

Para não atrapalhar a Sra. Loucura.

Aquela, guardiã dos segredos carnais, dona das noites eternas…

h1

Rascunhos de um amor etílico…

Outubro 16, 2009

Jeff Buckley

ou “Quem tem medo do misterioso garoto branco?”

Para ler ouvindo Morning Theft, The sky is a landfill, Last Goodbye, Grace, So Real, Yard of blonde girls, Opened Once, Everybody here wants you, New Year’s Prayer, Witche’s Rave, Satisfied Mind, Lilac Wine, Hallelujah ou Lover, you should’ve come over. Ou todas de uma vez só…

My main musical influences? Love, anger, depression, joy and dreams……and zeppelin!

Um corpo sobre a água. Céu azul, brisa leve. Alguns pássaros planam. Temperatura estável. Um balão de ar, um zepelim direcionado, cruza os céus irradiando luzes mágicas, multicoloridas, ensurdecedoras. Cheio de amor, traz o último suspiro.

Desestabiliza tudo. Os pássaros não planam mais. O frio é mórbido. O céu enegrece, a brisa vira tufão. O corpo segue a correnteza calmamente. Agora é ele que irradia luz pela água turva do rio. Multicoloridas, mágicas, ensurdecedoras, loucas, agudas, arrepiantes…

Essa luz ainda pode ser vista até hoje, ouvida, até. É doce, terna e ao mesmo tempo agonizante. Forte por fora, instável por dentro. É o som que aqueles demônios que vivem dentro da gente fazem quando vestem carcaças de anjos: belos à primeira vista, corrosivos à segunda, mortais à terceira. É mais ou menos como aqueles amores fulgazes, senhores de tantas rugas: arrebatadores num primeiro momento, arrasadores num segundo, deprimentes num terceiro…

Mas ainda assim, quem não quer ter “anjos”, mesmo que disfarçados, e amores sórdidos, mesmo que acabem?!

É esse frisson dos desejos contraditórios que sinto hoje em dia quando ouço Jeff Buckley, cantor norte-americano que, mesmo sem ter nem saber (pois se encontrava morto quando o conheci), operou mudanças significativas em minha vida. Conheço-o desde os 15 anos de idade, das noites de Alto-Falante na TV Cultura. Desde então ficamos amigos. Assim, meio que sem querer querendo.

Penso que mudou muitas coisas na minha vida, primeiro de tudo, porque eu era o adolescente chato que pedia pras pessoas baixarem (não, eu não tinha internet) músicas estranhas que eu conhecia não-sei-de-onde. Tipo The Clash, Ella Fitzgerald e Jeff Buckley, que são meio desconhecidinhos numa cidade de 8 mil habitantes do interior paulista… Mas, enfim, o fato é que as músicas se tornam muitas vezes nossas vestimentas. E às vezes é melhor não extravazar demais na escolha das peças pra não causar a impressão errada. Ainda mais na adolescência, onde qualquer deslize é motivo de chacota. É como na alegoria dos demônios com carcaça de anjo… Você se torna o que as pessoas querem só pra ser melhor aceito numa rodinha de amigos ou num grupinho de pessoas especiais.

Mas o demônio ainda vive dentro de você. Os desejos contraditórios também.

Após quase um ano dessa amizade com Jeff, comecei a sair pras noitadas esfumaçadas da boate da minha pequena cidade. Parei de ouví-lo. Queria que as luzes fossem outras. Multicoloridas e sonoras de outra forma. Queria me tornar um anjinho sem asas, como tantos outros que conheci e que hoje são meus melhores amigos. Nos entendemos através dessas luzes esfumaçadas, enfim. E foi ótimo ter vivenciado todas essas pequenas loucuras de um mundo particular.

Mas eu sempre sentia que faltavam certas coisas, que antes existiam e que, até esse ponto da história, já não existiam mais. Sentia falta da morbidez dos momentos. Afinal, de depressivo-sozinho passei a playboy-rodeado-de-gente, num estalar de dedos. Queria de volta determinadas sensibilidades, que só conseguia ter em momentos de boa solidão, que se tornaram um tanto quanto raros.

Eu e Jeff só nos tornamos amigos novamente depois que entrei na universidade. Querendo ou não os espaços tem esse poder de mudar nossos ares. A fugacidade dos amores e os platonismos deram espaço para diversas luzes, inclusive as de Jeff, que sempre estiveram em minha vida, de uma forma ou de outra.

Foram as batidas itinerantes de “Grace“, a morbidez mágica de “So Real“, os arrepios na nuca de “Last Goodbye“, as esperanças amorosas gastas de “Lover, you should’ve come over“, a suavidade irrespirável de “Hallelujah“, as perdições noturnas de “Lilac Wine” e as reconfortantes verdades de “Satisfied Mind” que construíram meus momentos mais íntimos durante muito tempo.

Hoje são, em mesmo gênero, número e grau, os sonhos delirantes de “The sky is a landfill“, a baladinha dançante de “Witche’s Rave“, a confiança inabalável de “Yard of blonde girls“, a sensualidade deprimente de “Everybody here wants you“, as dores e delícias de “New Year’s Prayer“, o sopro descompassado de “Opened Once” e os sorrisos esperançosos desprendidos pela rua de “Morning Theft” que iluminam meu caminho para uma mente cada vez mais satisfeita.

Não são somente as músicas que me trazem à tona aquele frisson dos desejos contraditórios que tão subjetivamente tentei explicar inicialmente. É o sorriso sôfrego e o olhar indeciso, as mãos suaves sobre o violão e os olhos cerrados, a falta de palavras, o excesso de gestos estranhos e a boca trêmula que me fazem gostar da figura de Jeff Buckley. Foram e são aqueles gritos agudos e afinados que criaram esses laços entre minha vida e as músicas dele.

Jeff é meu suspiro prolongado… Aquele, do pé do ouvido. É um de meus delírios.  É um dos poucos demônios que preferiu, por livre e espontâneo arbítrio, extirpar a carapaça de anjo e mostrar as garras malévolas e suaves.

É, certamente, a trilha sonora do meu último adeus.

Não é a primeira vez que escrevo sobre artistas que curto, mas certamente é a mais tocante. Jeff foi meu primeiro delírio musicado, como disse anteriormente. E longe de mim dar o último adeus tão cedo como ele. Quero ainda curtir muitas das minhas primeiras paixões, como ele mesmo foi um dia. Em todos os sentidos…

Pra enfatizar e saber mais:

Site Oficial
Documentário (Amazing Grace: Jeff Buckley, 2004, Once and Future Productions)
Site Oficial do Documentário

Trailer de Amazing Grace

h1

23 Today

Setembro 8, 2009

foto

Para ler ouvindo Aimee Mann, Mary J. Blige, Madeleine Peyroux e Paul McCartney. Ou qualquer outra coisa bacana…

A lua está cheia, o céu de baunilha estrelado. A gata saiu pra dar um passeio e a fumaça do cigarro traça uma linha conjunta com a água que cai da torneira. As garrafas estão vazias, os pratos sujos e a consciência limpa.

Hoje faço festas.

Fiz festas ontem. E anteontem também. Aliás, faço festas sempre. Físicas, espirituais, surreais, insurretas. Algumas calmas, outras, a maioria confessa, descontroladas.

Mas hoje a festa é diferente. São 23 anos pra pensar em tudo: no que me aconteceu de bom, de ruim e de indiferente. Em tudo que está pra acontecer. Em todas as coisas que estão guardadas nas mãos de Deus. Em tudo o que deixou de acontecer… 

Hoje é dia de pensar no porvir das coisas do mundo. Do meu mundo.

E foi tudo tão rápido! Mais do que eu pensava… Um turbilhão descontrolado de vida seguiu derrubando velhos muros, pra formar e construir tudo que sou hoje.

Foi minha família. Foram meus pais e meus amigos. Foi aquela escola que eu odiava, aquela universidade que eu adorava, aquelas pessoas com as quais eu saía, aquelas com as quais eu dialogava. Foram os estudos, as bebedeiras, as militâncias, as conversas. Aquelas, de botas batidas…

Foram os problemas e as soluções. Foram os infernos pessoais e as pazes com o mundo. Foram as garrafas de vinho e os maços de cigarro. Foram todos os filmes que iluminaram meus dias. Foram todas aquelas manhãs de domingo. Foram todas aquelas tardes gastas de rir e trabalhar. Foram todas aquelas noites de conflito e reflexão. Foram todas as músicas que compuseram a trilha sonora dos meus momentos mais íntimos. E dos mais loucos também…

Sim, foram as loucuras! De todos os meus amores. De todos os meus conhecidos-desconhecidos. De todos os meus afetos e desafetos. De todos os amantes do círculo polar. De todos os degradados e malucos-beleza. De todos os solidários e solitários.  De todos os meus sinos e desatinos. De todos os sorrisos que desprendi da alma…

Foram, enfim, os carinhos. Os abraços. Os amores. As cores. Os açúcares. As confianças e os confidentes. Os sonhos e as utopias…

Foram todos esses que me construíram, me constroem e fazem parte de mim. Do meu corpo, da minha alma, da minha mente, do meu coração.  E é a todas essas pessoas, coisas e pensamentos que dedico cada sorriso e cada lágrima dos dias que passam e que estão por vir.

Hoje já é 23. Faltam alguns dias para o fim do mês.

E ainda preciso de alguém que me salve. E ainda preciso me salvar. E salvar alguém. Mas não vou pensar nisso por agora.  

Que venha o sol ou venha a chuva.

Continuo aqui, firme e convicto, fazendo festas.

Pois nos dias de hoje sou todo amor.

Sou todo amores.

Thiago Padovan, o Terra Roxa, chega aos 23 anos e espera viver outros 23 para reler tudo o que já escreveu nessa vida. É jornalista, amante e sonhador nas horas vagas. Diz que um dia vai chegar às estrelas, mas por enquanto não passa da cabeceira da cama, pois prefere se deliciar mais um pouco com os prazeres e felicidades da vida terrena…

h1

Das manhãs de domingo

Agosto 28, 2009

makes me wonder

Domingo de manhã. Dentro do carro. Nós dois.

Frio.

Indo, finalmente, ao fatídico encontro.

Procurei alguns CDs dentro do porta-luvas do carro. Queria algo feliz, bonito, mas nada muito “cheguei”, que pudesse nos deixar mais inquietos do que já estávamos.

Coloquei Maroon 5, pra quebrar um pouco o gelo.

Ele logo meteu o bedelho no botão vermelho e desligou o som.

Parei alguns instantes, observei o botão poucos segundos, sem acreditar que fosse capaz de tamanha falta de delicadeza… Deve ser o nervosismo, pensei.

Virei-me para a janela do carro e fiquei observando os bambuzais e as árvores à beira da estrada, descompassadas ao sinal do vento. Os pássaros eram os únicos que conseguiam planar…

Não suportava aquela melancolia impregnada nos cantos do carro. O ar pairava quente em minha cabeça, como mormaço. Tudo me sufocava. A presença, a passividade, a falta de diálogo… Podiam ser acanhados e monossilábicos, não me importava, pois ainda assim seria um tête-à-tête agradável, uma conversa banal pra deixar a cabeça da gente no lugar, pra nos fazer esquecer dos ares e dissabores da terra que se aproximava.

Não aguentei.

Liguei o som novamente.

E antes que tocasse o primeiro refrão da música, ele o fez novamente. Desligou-o. Com um pouco mais de severidade, perceptivelmente, pois, após apertar o botão, colocou as duas mãos firmes sobre o volante e olhou fixamente pra frente, sem piscar os olhos. Uma gota de suor escorreu da testa até o pescoço… Desafrochou a gola da camiseta e abriu os botões da blusa de frio… As ações sinalizavam os pensamentos: sabia que fazia  algo que me magoava e não queria olhar nos meus olhos.

- Sei que está nervoso, mas não precisa ser…

- Ser o que? Fala! O que?

- Tosco…

- Só não gosto da voz desse cara. Não quero escutar essa música.

- Pensei que gostasse… Afinal, foi a trilha sonora do nosso primeiro encontro… E hoje é dia de relembrar… De reforçar nossos laços… Não combinamos isso antes de sair?

Não se lembrava. Realmente não se lembrava da música que tocava quando se conheceram. Bem ele! Um virginiano sagaz, que dava importância meticulosa a detalhes cotidianos dos mais corriqueiros e imperceptíveis. O andar, o olhar, a voz alterada, as pequenas permissividades das pessoas… Nada surpreendia nas condições humanas, mas em tudo se podia botar algum reparo.

Esquecera-se do próprio amor. Talvez até mesmo do amor próprio.

Havia percebido há algum tempo que as preocupações tomavam o lugar das boas lembranças, mas não imaginava que o fizessem estacionar os sentimentos em local impróprio, a ponto de não se lembrar dos momentos místicos de seu relacionamento mais forte.

- É… Verdade, isso… Sunday morning, né?

Ufa!, pensei.

E pouco tempo depois estavam conversando intensamente sobre as noitadas, as viagens, os risos, os causos… Os sonhos compartilhados…

Até se esqueceram por alguns instantes do encontro que teriam logo mais, com o passado. Com a cidade e com as pessoas que pararam no tempo e pouco sabiam da história recente dos dois. Esses seres inertes de tempos atrás só especulavam sobre o rebuliço e a fuga. Nada mais.

E naquela manhã de domingo mais que propícia, perceberam, através da sonoridade da música e das palavras recordadas, que não temiam mais nada. Nem os fantasmas do passado, nem os perrengues do presente, nem as surpresas do futuro.

Eram tudo: os problemas, as soluções, as lembranças, os amigos, os livros de cabeceira, as bitucas de cigarro, as garrafas de vinho, as tatuagens nos braços, os blues das madrugadas, os abraços, os beijinhos e os carinhos sem ter fim.

Eram todo o amor que houver nessa vida. Até os ossos!

Eram as calmarias. Aquelas estranhas e lancinantes calmarias.

Das manhãs de domingo.