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café. cigarros. miçangas.

Outubro 19, 2009

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Com os olhos marejados e um sorriso estampado, saiu pelos grandes portões azuis do cemitério.

Logo na saída, avistou um pequeno ônibus amarelo, parecido com aqueles das escolas norte-americanas, e fez sinal para que parasse. Não sabia para onde ia… E talvez nem quisesse saber.

Aprumou a malinha vermelha de mão, ajeitou a blusa de frio e andou a passos largos, como quem está apressado ou com medo de perder a condução.

Adentrou as portas do ônibus e logo olhou para o motorista. Um homem negro, alto, de uniforme cor-de-rosa, com um pequeno broche de flor dourada pregado no bolso da camisa. Abaixo da flor estava escrito o nome da empresa, que leu com certa dificuldade:  Magnólia Transportes Ltda. Nunca tinha ouvido falar de tal empresa…

O motorista esboçou um leve sorriso, olhou bem para o rosto de Hilda e pediu para que ela entrasse depressa. Não perguntou o destino, nem pediu para que pagasse a passagem. Só pediu para ela entrar e se sentar na poltrona 23.

Não haviam muitos passageiros.

Avistou uma mulher de vestes vermelhas, sapatos pretos de salto e uma rosa branca encrustrada nos cabelos ruivos, que acenou afirmativamente com a cabeça enquanto Hilda passava pelo corredor. Viu também um homem velho, de olhos azuis, com um terno xadrez azulado, acompanhado de uma garotinha de vestido amarelo e cara de sapeca. Ambos acenaram com a cabeça quando a viram.

Estranhamente, de mãos dadas com a maior aventura de sua vida, cercada de desconhecidos que pareciam conhecê-la, Hilda tinha a sensação de estar em casa, segura. Não sentia o desamparo do destino e muito menos o pesar das rugas. Sentia-se acolhida e amada pelos olhares e sorrisos dos conhecidos-desconhecidos que acabara de conhecer. Sentiu-se bem. Feliz.

Chegou, finalmente, à poltrona 23. Os olhos estarrecidos por detrás dos óculos fundos de grau não conseguiam acreditar no que viam. Fechou-os rapidamente. Estava com medo de abrí-los de novo. A pequena mala vermelha caiu estremecida no chão, deixando os pertences de Hilda espalhados pelo corredor do ônibus.

O garoto de cabelos e olhos castanhos, barba por fazer e gestos calmos, que estava sentando na poltrona a lado da sua, parou de contemplar o horizonte, retirou a bolsa de couro cru cheia de penduricalhos do assento de Hilda e ajudou-a a recolher as roupas e vidros de perfume do chão.

- Aconteceu alguma coisa, meu bem? A senhora está passando mal?

Quando ouviu aquela voz suave, um pouco rouca por causa do fumo, a velha senhora pensou estar em um sonho, pensou ter ouvido a voz de seu amado. Não queria que aquele momento passasse. Nunca. Queria ficar ali, com cara de trouxa, estarrecida pela visão que acabara de ter…

Mas não. Abriu os olhos novamente, fitou o rapaz, que já havia arrumado toda sua mala e sentou-se. As pernas tremiam. Não conseguia olhar para o lado. Pensava no que falar e em como falar, mas não sabia. Sentia-se acanhada demais para falar qualquer coisa, qualquer bobagem que fosse. Foi de ímpeto.

- Acho que o conheço de algum lugar, menino. Você me lembra alguém muito querido. Por isso fiquei assim. Assustada. Estarrecida. Pensei que fosse outro alguém…

Fazia tipo. Sabia muito bem de onde o conhecia. Era o garoto esquisito que estava sentado na mesa ao lado da sua no posto de conveniência, com o bornal a tiracolo. Era o garoto do cigarro de filtro amarelo, sua conquista recente na lista de desejos, seu affair momentâneo…

- Sim. A senhora estava tomando um café expresso no posto de conveniência, sentada ao meu lado. Fiquei imaginado naquele dia o que se passava pela sua cabeça…

Hilda ruborizou. Não pensava que um rapaz tão jovem pudesse reparar nela e muito menos que ficasse imaginando o que se passava pela sua cabeça. Talvez tivessem os mesmos dilemas, as mesmos problemas. Talvez estivesse fazendo o mesmo que ela: remoendo o passado, ou melhor, fugindo dele…

- O que você faz nesse ônibus? Está indo pra onde? Ver a família? Aliás… Onde esse ônibus vai parar?!

- Não sei. Não tenho rumo certo e também não quis perguntar ao motorista. Acho que saí de casa pra procurar as metades que me faltam…

Os dois sorriram.

Passaram a tarde toda, lado a lado, conversando. Falaram sobre tudo: as peripécias da vida passada, as frustrações do momento presente e as vontades e desejos futuros. Encontraram-se numa estrada sem rumo, partindo para o tudo ou nada. Não sabiam de nada e nem queriam saber, pois perceberam que já sabiam de tudo que precisavam para viver…

Liberdade. Talvez os dois só quisessem um pouco de liberdade.

Mas ainda acho que essa não é a palavra certa para definir esse querer, pois o que esses dois desejam é tão grande e tão intenso, que nem a vida, nem os mortos e nem os caminhos tortos podem dizer.

A palavra certa para definir o que esses e tantos outros caminhantes sentem pode ainda não existir, mas, certamente, existe o caminho. E não é necessária tanta coragem para percorrê-lo, mas convicção para acreditar que encontrarão algo que os complete no decorrer dessa viagem. E que as metades que a gente procura, de vez em quando, podem estar onde a gente menos espera…

Numa estrada solitária, dentro de um ônibus amarelo.

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Junho 26, 2009

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Andou uns dois quarteirões até chegar ao ponto de ônibus. Sentou-se no banquinho verde de madeira da praça da matriz, logo em frente ao ponto.

Precisava pensar… Aliás, não precisava, mas queria pensar um pouco no que iria fazer, pra não cair na trama desordenada dos atos precipitados. Se bem que precisava de um pouco de desordem em sua vida.

Num assalto pegou a mala, a gata, que dormia de barriga pra cima, e subiu no primeiro ônibus que viu passar. Coincidentemente ia até saída da cidade. Logo que subiu o primeiro degrau, lembrou-se de algo que não poderia deixar de fazer: despedir-se.

Pensou em tudo que iria falar, em tudo que precisava desabafar. Em tudo que tinha sofrido, em todas as noites mal dormidas, em todas as lágrimas que havia derramado. Precisava pensar nisso tudo novamente, pra dar a última cartada, pra esquecer tudo de vez e viver uma nova vida.

Chegou, finalmente, à Alameda dos Anjos. Olhou de cima pra baixo a figueira frondosa, com suas raízes imponentes rasgando o concreto afora. Avistou logo as escrituras acima das abóbodas ogivais que contornavam o portão de grades azuis: “Nós que aqui estamos, por vós esperamos”.

Adentrou o cemitério segurando firme no peito a convicção que há muito não sentia. Andou por todo o caminho de ipês amarelos até chegar ao túmulo de Salvador. Apesar das margaridas mofadas e da cera de vela espalhada pelos cantos úmidos, dava ainda pra ver a foto envelhecida e a escritura com os dizeres “Tudo transformou enquanto viveu”.

Hilda tinha tanto o que dizer, tanta coisa entalada na garganta, tanto sentimento pulsando, escorrendo pelas veias… Mas não. Conteve-se.

- Você não me conheceu completamente. Talvez não fosse minha outra metade. Mas é certo que nos amamos. E muito… Isso é certo… Certíssimo…

Derramou uma lágrima só.

Voltou-se de costas ao túmulo no intuito de seguir seu novo caminho.

Um sopro de ar contido fez com que Hilda se arrepiasse. Parecia uma resposta de Salvador. Um acordo. Uma aprovação.

Sem querer deixou a caixa com a gata cair no chão. De súbito o animal, que dormia calmamente, correu assustado em direção a um beco cheio de entulhos próximo à saída do cemitério.

Hilda não se apavorou. Dirigiu-se ao beco e começou a chamar pela gata. Sentiu-se um pouco como Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo, mas sem desesperos. Ruborizou ao cogitar a possibilidade da chuva torrencial, do momento místico, do grande amor à espreita… Enquanto subia o som de Moon River num beijo apaixonado…

Desistiu da gata.

Deixou ali a caixinha de madeira com um recado: “Quem encontrar uma gata siamesa, de rabo cortado, com cara de fome, cheia de safadeza,  favor adotá-la.”

Antes de ir, resolveu deitar-se por alguns minutos ao lado de Salvador. Trocaram carícias de brincadeirinha, conversaram-se, amaram-se, sentiram-se pela última vez. Afinal, eram as últimas carícias de um casal feliz.

Nem cogitava Salvador que além de tudo que transformara em vida, havia tudo transformado após sua morte. E que enquanto as flores do ipê caíam, Hilda reviveu alguns bons anos. Pronta para viver os próximos.

Ao som de Moon River, fumando da piteira do tempo, deu-se conta de que aquele era certamente o último momento a dois.

O último adeus.

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Maio 5, 2009

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Chorou em demasia. Por alegria, por tristeza, por amor, por dor. Chorou em demasia por saudade!

Respirou fundo. Encheu os pulmões de coragem. Expirou as angústias. Limpou as lágrimas com o antebraço esquerdo e levantou abruptamente, como quem decide de ímpeto correr atrás de algo que deixou pra fazer de última hora.

Certa dos desejos que a corroíam e tentada a provar das delícias de novos cálices, pegou a malinha vermelha de cima do pequeno guarpa-roupas de duas portas…  Colocou nela cinco vestidos, algumas roupas de baixo, os saiotes, os vidros de perfume e o álbum de fotografias.

Pegou também a caixinha de madeira com grades de ferro e colocou a gata siamesa pra dentro, ainda dormente.

Finalizadas as arrumações, foi tomar a última chuveirada na casa que a abrigara durante 50 anos. Tirou toda a roupa, adentrou o box de plástico quebrado, ligou o chuveiro, bem quente. Abaixou a cabeça com se tomasse a primeira comunhão. Levantou-a lentamente, sentindo a água escorrer pela nuca, pela face, pelas rugas do corpo.

Tocou-se.

Sentiu os lábios, o pescoço, os seios, os poucos pêlos pubianos…

Empertigou-se de uma sensação orgásmica que há muito não sentia.

Arrepiou-se.

Sentiu uma frieza na testa. Os pêlos se arrepiaram.

Parou por aí. Tinha medo. De trair seus sentimentos pelo homem que amou durante toda a vida, apenas para satisfazer os desejos juvenis do dia anterior. Pensava no garoto do posto de conveniência. Na fumaça do cigarro. Imaginava-o nu enquanto se tocava. Era parecido com Salvador quando se conheceram. Até no jeito de fumar. Segurava o cigarro em um movimento de pinça com os dedos. Assoprava a fumaça de olhos fechados, com a cabeça pro céu, voltando-a para baixo quando a fumaça acabava de sair, abrindo os olhos lentamente, logo em seguida.

Não considerou justo trair a alma do amado. Não achou justo consigo mesma trair os desejos que sentia.

Simplesmente parou e saiu do banheiro. Nua e ainda molhada.

Secou-se no quarto, colocou o vestidinho azul, o colete de lã branco, os sapatinhos vermelhos… Perfumou-se com três borrifadas de seu melhor perfume francês.

Pegou a mala e a caixa de madeira da gata, passou tremendo pela porta envernizada, trancou-a, andou lentamente pelo corredor de piso cor-de-rosa, abriu o portão de grades verdes e saiu.

- Vai aonde nesse chiquetê, Dona Ida?!, perguntou a vizinha.

- Vou visitar uns parentes na roça, minha filha, respondeu.

Mal sabia a pobre vizinha que nunca mais veria a velha senhora de cabelos curtos e rostinho angelical de professora de primário.

Hilda estava mesmo de ida.

Rumo à terra azul, da cor de seu vestido. Terra onde os girassóis eram da cor dos cabelos de seu amado e as estrelas eram de mar, enternecidas pelo vento solar das três da manhã…

Leia ouvindo O girassol da cor de seu cabelo, do Clube da Esquina. Uma homenagem à nova vida de Dona Hilda…

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Outubro 28, 2008

O dia raiou.

Os sonhos da noite deram lugar aos desgastes do dia.

Como sempre, acordou às cinco e meia da manhã, preparou o café e comeu um pedaço de broa de milho com erva-doce.  Como sempre, o radinho a pilha estava ligado. Como sempre, a gata entrou miando pela porta entreaberta e, como sempre, Hilda encheu a cumbuca com leite.

Sentou-se na banqueta em frente ao pé de jabuticaba e apreciou os primeiros raios de sol da manhã. Começou a pensar nos filhos, que há tanto tempo não a visitavam. Pensou também em tudo que estava sentindo, principalmente nos últimos dois dias.

O ar sereno e as rugas de velhinha bondosa escondiam a aflição do pensamento. Na verdade, não sabia o que sentir. Queria fugir. Mas sabia, por experiência própria, que de nada adiantava ir para outro lugar, tentar uma nova vida. Tinha que fugir de si mesma. Encarnar outros personagens, colocar outras máscaras, vestir outras fantasias, talvez.

Mas, ainda assim, a cabeça quando deita no travesseiro, continua a vislumbrar o passado. Tudo retorna, tudo faz parte novamente. A viagem de fuga não se completa. Fica limitada às máscaras, às fantasias, aos personagens, pensou.

As tantas fugas e o pesar das rugas foram interrompidos por Cartola. O som do rádio passou pela porta da cozinha, percorreu o corredor de piso vermelho e vinha bater forte em sua mente, em sua face, em seu coração.

“Deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar, sorrir pra não chorar”.

E Hilda chorou.

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Setembro 23, 2008

Acordou abruptamente, às três da manhã, com as costas doendo. Pensou ter ouvido alguém, na verdade, um som bastante peculiar: Salvador usando o urinol durante a madrugada…

Sorriu sem perceber. Refletiu um pouco e logo soltou uma gargalhada. Como é que um barulho tão grotesco, que a incomodara tanto durante a vida toda podia lhe trazer tamanha nostalgia a essa hora da madrugada a ponto de fazê-la acordar?

Essas pequenas recordações eram realmente engraçadas para Hilda. A cada dia percebia uma nova resposta a uma antiga lembrança. Uma alegria, um sorriso em alguma tristeza. Era como um estímulo para declarar ao mundo sua saudade. E esse “declarar-se” era necessário, nem que fosse às paredes, aos móveis ou à gata. Uma forma de exacerbar as angústias, de extirpar alguns tumores.

Mas não era o bastante. Hilda necessitava o novo. Nada que por um assalto do passado se transformasse em alegria no presente. Nada disso! Precisava que a alegria da infância e que a rebeldia da juventude, somadas à garra da fase adulta, vertessem seu corpo senil a um novo caminho, a um novo processo.

Mas que caminhos suportaria uma senhora de 70 anos?! Quais fontes de saber ainda estariam abertas às suas mãos enrrugadas? E mais, teria ela forças para levantar as mãos até a boca e sorver todo aquele novo mundo que lhe entraria goela adentro?

O mundo pode ser cruel a novas perspectivas… Ainda mais para alguém que nasceu em um mundo tão diferente desse que vejo e sinto agora, pensou Hilda, enquanto se olhava fixamente no espelho do banheiro.

Interrompeu as sandices do coração. Colocou a camisola e deitou na cama, confortavelmente, na expectativa de que as dores nas costas passassem…

Mas… As costas não incomodavam mais. A cabeça doía. Na verdade, pesava. Só pesava.

Era a gata que miava. Era a azia do café. Eram as folhas de boldo que borbulhavam na chaleira. Era a fumaça de cigarro que rodopiava no ar. Era o som que vinha do urinol…

Era o tufão que abria a porta da frente, levando tudo que via, urrando à força de todos os ventos:

Cada ser tem sonhos à sua maneira. Vá logo! Pois daqui a pouco o dia vai querer raiar!

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Setembro 18, 2008

Seis da tarde. Os alto-falantes da igreja começam a tocar a triste Ave Maria. Hilda nem percebera que a azia havia passado.

Viu a siamesa, Bureca, pular o portão da casa. Era a única lembrança viva do passado que ainda continuava ao seu lado, morando sobre o mesmo teto, compartilhando as mesmas lembranças.

É, vagabunda, voltou da farra só pra comer, né?, falou sorrindo em voz alta quando viu os olhos azuis do animal quase em súplica.

Preparou o pão molhado no leite e colocou na cumbuca da gata, que logo afogou as mágoas da noite passada esbaldando-se no leite morno.

Hilda sempre gostou de gatos. De todos os animais domésticos que tinha conhecimento, achava os gatos os mais livres. Perambulavam pela noite sem ter nem querer, instintivamente. Marcavam o caminho na procura de outros gatos, companheiros pra todo tipo de artimanha e, ao seguirem os rastros no dia anterior, conseguiam retornar ao lugar de origem, onde uma bela cumbuca de pão com leite os esperava…

Quem dera fosse assim com os seres humanos, pensou. Mas não é que pra alguns isso funciona! O problema é que, com os humanos, existe o perigo da decepção, do sorriso que pode não existir em retribuição ao olhar de súplica…

Deitada em seu colo, pôde sentir o ronronar da gata. Era como um hino. Como um descanso para tanta liberdade. Dedicado a todos aqueles que foram deixados pra trás. Descompassado, feio, mas cheio de carinho.

Ainda ouvia a palavra e os cânticos da igreja no rádio a pilha, quando foi descansar as costas nas almofadas do sofá. Adormecia lentamente, mas podia ouvir a voz do locutor ao longe recitar o Salmo 77.

Clamei a Deus com a minha voz, a Deus levantei a minha voz, e ele inclinou para mim os ouvidos…

Hilda precisava não só de ouvidos, mas de mãos, pés, braços, vozes… Liberdade.

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Setembro 17, 2008

Perto da esquina da Rua Dom Pedro, sentiu que o café não batera muito bem.

Em frente à casa rosa-desbotado com portões de grades verdes, avistou os canteiros de rosas e o caminho vermelho de piso batido. Entrou pela portinhola, atravessou o caminho, olhou ao redor da varanda com quatro cadeiras, uma de frente pra outra, e tentou enfiar a chave na porta. Emperrada novamente.

Já tinha xingado uns três palavrões em italiano, quando resolveu chamar um dos meninos que jogava futebol na rua para ajudá-la.

Com certa facilidade, o garoto de oito anos abriu a porta de madeira envernizada. Antes, era o Salvador quem abria a porta. Sempre fazia aquela cara de quem comeu e não gostou, mas sempre abria. Quanta falta fazia a cara brava do seu gordinho!

Foi direto para o canteiro dos fundos, onde havia plantado o boldo. Pegou algumas folhinhas, colocou o velho avental branco, do qual nunca se separava, a não ser pra sair pra rua, e começou a fazer o chá.

As folhas macias, parecendo veludo, borbulhavam na água. Pareciam fazer o mesmo movimento da fumaça do cigarro de filtro amarelo que o rapaz, sentado na mesa ao lado da dela no posto de conveniência, fumava enquanto olhava pra xícara de café.

Logo pensou: Quanta sandice! A fumaça vai pra cima, as folhas vão de um lado pro outro.

Coou o chá, sentou com a xícara na varanda que dava pra rua e, enquanto observava os meninos jogando bola, cogitou a possibilidade de dar uns tragos no cachimbo, mas ainda estava com azia por causa do maldito expresso. E o trevo tinha acabado.

Ficou ali, quieta, sentada com as pernas arqueadas, tomando o chá de boldo.

Parecia esperar que alguém entrasse pela portinhola. Um dos filhos, uma das vizinhas, um dos moços que entregavam papéis com as promoções do supermercado. O pessoal da Folia de Reis. O Salvador.

- Hilda, pega minhas botas, por favor. Vou pescar hoje, com o Zé.

Há alguns anos já não ouvia essa frase.

Quanta vontade! Quanto desejo! Quanto pecado! Quanta lembrança!

Por enquanto, tudo passado…

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Setembro 17, 2008

Sentou para tomar um café. Comia aos beliscos. Olhava para o nada.

A única coisa à mesa do posto de conveniência era a pequena bolsinha laranja feita de miçangas coloridas.

O olhos mal apareciam ao fundo dos óculos de grau. Com aros grandes, pretos, de plástico.

Pegou a sombrinha dependurada na cadeira, pagou a conta e saiu.

O que pensava a velhinha miúda, de cabelo curtinho, com ar franzino de professora de primário?

Lembrei de The Great Gig In The Sky.

Talvez ela estivesse pensando nisso também…

“E eu não estou com medo de morrer, a qualquer hora pode acontecer, eu não me importo. Porque estaria com medo de morrer? Não há razão para isso, você tem que ir algum dia.”

“Eu nunca disse que estava com medo de morrer.”

Talvez não. Provavelmente não. Será?

Nunca vou saber. Não sei.

Só sei que quando ela saiu pela porta de vidro, percebi que estava na mesma posição que ela. Tomando um café, olhando pro nada. No lugar da pequena bolsinha, o maço de cigarros. No lugar da sombrinha, meu bornal.

Ela, preocupada com a chuva, eu, com todas as elucubrações disformes escritas em papéis, dentro do bornal.

O que será que ela pensava?

Como eu, no passado.