Com os olhos marejados e um sorriso estampado, saiu pelos grandes portões azuis do cemitério.
Logo na saída, avistou um pequeno ônibus amarelo, parecido com aqueles das escolas norte-americanas, e fez sinal para que parasse. Não sabia para onde ia… E talvez nem quisesse saber.
Aprumou a malinha vermelha de mão, ajeitou a blusa de frio e andou a passos largos, como quem está apressado ou com medo de perder a condução.
Adentrou as portas do ônibus e logo olhou para o motorista. Um homem negro, alto, de uniforme cor-de-rosa, com um pequeno broche de flor dourada pregado no bolso da camisa. Abaixo da flor estava escrito o nome da empresa, que leu com certa dificuldade: Magnólia Transportes Ltda. Nunca tinha ouvido falar de tal empresa…
O motorista esboçou um leve sorriso, olhou bem para o rosto de Hilda e pediu para que ela entrasse depressa. Não perguntou o destino, nem pediu para que pagasse a passagem. Só pediu para ela entrar e se sentar na poltrona 23.
Não haviam muitos passageiros.
Avistou uma mulher de vestes vermelhas, sapatos pretos de salto e uma rosa branca encrustrada nos cabelos ruivos, que acenou afirmativamente com a cabeça enquanto Hilda passava pelo corredor. Viu também um homem velho, de olhos azuis, com um terno xadrez azulado, acompanhado de uma garotinha de vestido amarelo e cara de sapeca. Ambos acenaram com a cabeça quando a viram.
Estranhamente, de mãos dadas com a maior aventura de sua vida, cercada de desconhecidos que pareciam conhecê-la, Hilda tinha a sensação de estar em casa, segura. Não sentia o desamparo do destino e muito menos o pesar das rugas. Sentia-se acolhida e amada pelos olhares e sorrisos dos conhecidos-desconhecidos que acabara de conhecer. Sentiu-se bem. Feliz.
Chegou, finalmente, à poltrona 23. Os olhos estarrecidos por detrás dos óculos fundos de grau não conseguiam acreditar no que viam. Fechou-os rapidamente. Estava com medo de abrí-los de novo. A pequena mala vermelha caiu estremecida no chão, deixando os pertences de Hilda espalhados pelo corredor do ônibus.
O garoto de cabelos e olhos castanhos, barba por fazer e gestos calmos, que estava sentando na poltrona a lado da sua, parou de contemplar o horizonte, retirou a bolsa de couro cru cheia de penduricalhos do assento de Hilda e ajudou-a a recolher as roupas e vidros de perfume do chão.
- Aconteceu alguma coisa, meu bem? A senhora está passando mal?
Quando ouviu aquela voz suave, um pouco rouca por causa do fumo, a velha senhora pensou estar em um sonho, pensou ter ouvido a voz de seu amado. Não queria que aquele momento passasse. Nunca. Queria ficar ali, com cara de trouxa, estarrecida pela visão que acabara de ter…
Mas não. Abriu os olhos novamente, fitou o rapaz, que já havia arrumado toda sua mala e sentou-se. As pernas tremiam. Não conseguia olhar para o lado. Pensava no que falar e em como falar, mas não sabia. Sentia-se acanhada demais para falar qualquer coisa, qualquer bobagem que fosse. Foi de ímpeto.
- Acho que o conheço de algum lugar, menino. Você me lembra alguém muito querido. Por isso fiquei assim. Assustada. Estarrecida. Pensei que fosse outro alguém…
Fazia tipo. Sabia muito bem de onde o conhecia. Era o garoto esquisito que estava sentado na mesa ao lado da sua no posto de conveniência, com o bornal a tiracolo. Era o garoto do cigarro de filtro amarelo, sua conquista recente na lista de desejos, seu affair momentâneo…
- Sim. A senhora estava tomando um café expresso no posto de conveniência, sentada ao meu lado. Fiquei imaginado naquele dia o que se passava pela sua cabeça…
Hilda ruborizou. Não pensava que um rapaz tão jovem pudesse reparar nela e muito menos que ficasse imaginando o que se passava pela sua cabeça. Talvez tivessem os mesmos dilemas, as mesmos problemas. Talvez estivesse fazendo o mesmo que ela: remoendo o passado, ou melhor, fugindo dele…
- O que você faz nesse ônibus? Está indo pra onde? Ver a família? Aliás… Onde esse ônibus vai parar?!
- Não sei. Não tenho rumo certo e também não quis perguntar ao motorista. Acho que saí de casa pra procurar as metades que me faltam…
Os dois sorriram.
Passaram a tarde toda, lado a lado, conversando. Falaram sobre tudo: as peripécias da vida passada, as frustrações do momento presente e as vontades e desejos futuros. Encontraram-se numa estrada sem rumo, partindo para o tudo ou nada. Não sabiam de nada e nem queriam saber, pois perceberam que já sabiam de tudo que precisavam para viver…
Liberdade. Talvez os dois só quisessem um pouco de liberdade.
Mas ainda acho que essa não é a palavra certa para definir esse querer, pois o que esses dois desejam é tão grande e tão intenso, que nem a vida, nem os mortos e nem os caminhos tortos podem dizer.
A palavra certa para definir o que esses e tantos outros caminhantes sentem pode ainda não existir, mas, certamente, existe o caminho. E não é necessária tanta coragem para percorrê-lo, mas convicção para acreditar que encontrarão algo que os complete no decorrer dessa viagem. E que as metades que a gente procura, de vez em quando, podem estar onde a gente menos espera…
Numa estrada solitária, dentro de um ônibus amarelo.










