Arquivo de Outubro, 2011

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Desamor em quatro atos

26 de Outubro de 2011

Para melhor abertura sensorial dos lobos parietais: Não existe amor em SP

Mantra urbano nº3

Me vem como palavra
Me sai como esperança
Furacões cruzados para vir
Braços cruzados, tumor ao sair
É fúria extirpada em dedos
É perder violento que se ganha
Sabe-se lá porque.

Ato III – Like cops at the scene of crime

Lugar: Quarto rabiscado
Pessoas: Nós dois e a solidão
Fundo musical: Love is a losing game

- Tô afim agora não, bicho.

- Falô, então… Tenho um cado de coisa que fazê da vida.

- Uai, vai não! Tá puto comigo, né? Vai não, deita aqui do meu lado.

Não se sabe a hora exata da manhã, mas se olharam com um pouco de assombro, falaram aos solavancos e, indecisos, caíram em tentação: se beijaram, se tocaram e se sentiram no dever moral de desvendar os mistérios pendentes da madrugada passada. Certamente sabiam que o correto era desaparecerem na penumbra do dia, sem deixarem rastros evidentes da noite passada. Mas num pequeno relance de olhar, resolveram ficar e acatar com as responsabilidades do crime cometido. Nessa porrada de pequenos delírios e incertezas, misturados de breves toques e afagos, adentraram aquele caminho estreito entre o amor e o sexo, sabendo que, no final dessas contas já prestadas tantas outras vezes, o que sobrava de mais valioso era, em si, aquele simbólico momento de intimidade. E mais nada.

Era, enfim, o gozo. O último suspiro das histórias de uma noite.

E assim, após alguns segundos orgásmicos, a história se repetia como em todo dramático enlace almodovariano: os olhares se desviavam com certa paixão, com certa fúria, com certo desconserto e os espaços se abriam ligeiros. Uma música de Elis tocava baixinho e o efeito de transição esbranquiçado terminava a cena. Pela manhã, a solidão entra na dança pra integrar um ménage e preencher a lacuna que previsivelmente faltava.

Estranhos estrangeiros e nada mais.

The sky is a landfill.

Sem céus para cair, sem rios para chorar, sem mágoas para entreter.

Todos poderiam morrer de rir. Tudo poderia ruir. Continuavam a se olhar inabaláveis, inoperantes, amatemáticos. E gozados, claro. Vezenquando olhando ofegantes para algum canto rabiscado do quarto, como se repudiassem o fato de terem, finalmente, acabado de trepar com pequena dose de amor. E com altas doses de microbiana, homeopática, nanotecnológica e patética idiotice, tentavam disfarçar qualquer sentimento que pudesse ter existido. Era como se tudo não passasse de nada e a vida só precisasse ser vivida de turbilhão em turbilhão, uma coisa por vez, com afago, sem apego.

Era o desassossego. O pai dos errôneos porques.

E talvez a vida fosse assim mesmo, pensaram. E talvez nada precisasse fazer tanto sentido, como se todo momento desconhecido parecesse conhecido. E talvez deixar-se morrer aos poucos. Intercursos do viver, saca? Afinal, tudo é tão redundante. Pois no momento que os suspiros findavam, que o gozo vinha e o prazer se dissipava, era também hora de rememorar todas as outras situações, todos os outros pequenos amores. Que se iam, que saíam pela primeira porta entreaberta, que pegavam o ônibus, o metrô, o avião e seguiam por aí, a procura de outros travesseiros. Por que agora seria diferente?!

E, por isso, viver era isso mesmo: agir sem se preocupar com o  último afago, o último apego, the last goodbye. Mas, sabidos, não era isso que queriam do fundo da alma. Existia aquela tristeza dos últimos momentos que não se findava ali, no calor daquele colchão e naquelas paredes rabiscadas. E, sem mais delongas, mais um pequeno amor se acabava, da noite pro dia.

Era o silêncio. A lágrima que seca sozinha e nunca cai.

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Orquídeas caídas

20 de Outubro de 2011

Ou “25 anos blues”.

Para ler ouvindo To Love Somebody, com a serenidade de Nina Simone e a fúria de Janis Joplin.

Dialogue a trois:

- Navegar é preciso. Viver não é preciso.
- “Precisar” em que sentido: exatidão ou necessidade?
- Exatidão.
- É preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a morte.
- Exatidão ou necessidade?
- Necessidade.
- Vou olhar os caminhos. O que tiver mais coração, eu sigo.
- Não tem verbo “precisar”.
- Mas é exato e necessário.

Esse ano não teve texto ou palavra ou metonímia ou onomatopeia de alegria nem de tristeza. Silêncio em forma de refrigerantes sem gás e salgadinhos de festa. Paro de conversar e olho para o quase jardim de inverno com certa melancolia. Uma orquídea seca cai do galho, leve como leve pluma muito leve pousa. Acompanho estático todo o seu movimento calmo e ondulado até o gramado. Penso logo de cara no tipo de movimento que a flor realiza enquanto a gravidade, o vento e o atrito agem sobre suas pétalas. Estarrecido por pensar primeiro na física das pétalas ao invés da beleza subjetiva do momento, falo alto, em sinal de auto-censura travestida de descaso:

- Flores mortas não fedem nem cheiram.

A maioria ali, indiferente a qualquer crítica ou auto-crítica, continua a falar alto enquanto as orquídeas secas caem com o vento. E numa espiral de beleza e silêncio e loucura começo a refletir não mais sobre as noções físicas, mas sobre o tempo metafórico das pétalas.

Talvez essa melancolia seja só reflexo da Lua na casa 4 em instrospecção com o Sol na casa 12. Ou o fim do ciclo revolutivo de Mercúrio. Ou o novo ano astral que se inicia. Tudo junto, sei lá. Ou talvez seja só uma pequena ponta de indiferença mesmo, uma tristezinha velada, uma pequena alegria que não faz muito sentido, talvez nada muito astrológico, nada tão visão divina. Mas, de certa forma, preciso que assim seja: alto astral altas transas lindas canções, para não pensar na física das pétalas e de todas as outras coisas. Não preciso movimentos físicos matemáticos químicos  por agora. Preciso místicas. Exatas e necessárias.

Mas são tempos de correria, sem dúvida. Muita coisa im-por-tan-te pra fazer, muita pe-dra pra carregar, muito la-bi-rin-to pra percorrer! Falta cabeça pra pensar no que está acontecendo, avaliar-se e refletir sobre a pétala que cai, sobre o tempo que se leva. E se for parar pra pensar bem, há tanta coisa nova e bonita pra ser sonhada nesse ano do escorpião, de grandes realizações. Há tanto deserto pra percorrer, floresta pra desbravar, mar pra navegar!

E a melancolia, talvez, resida aí mesmo, em todas essas grandes e escorpianas realizações. São aprendizados, certamente. Burocráticos e duros, trazem dores de cabeça inevitáveis, cansaços de fundas olheiras, aborrecimentos físicos, mas nem por isso são menos interessantes ou necessários ou contextualizados ou propícios. E mesmo assim, mesmo sabendo da necessidade de tudo isso, ando precisado de algo mais. De me render a certos devaneios. De mais paciência para reencontrar a pureza nas almas de luta. De misticismos esotéricos que alucinem o marasmo dos dias. De gritos incontidos, de goles de vida, de choros cheios de olhos, de nuvens que escondam as luas mais bonitas, assim como a caixa que guarda o carneirinho do pequeno príncipe.

- Preciso de doações prazerosas de corpo e alma, por Jah!, grito em silêncio enquanto olho o jardim.

A flor seca finalmente caiu.

Depois que ela desfaleceu no gramado, penso nessas contradições do querer e do viver a todo tempo, como se meu mapa astral me perseguisse, como se um espelho me levasse me refletisse me guiasse por tudo que é lugar. E é quando estou com a cabeça pesada, lisérgica de tanto pensar nisso tudo, que saio por aí. Como leve pluma muito leve, pouso de madrugada em madrugada em qualquer balada estranha e multicolorida do centro.

Da sacada de um prédio antigo, olhos fechados, ergo a cabeça para o alto e vejo aos poucos a imensidão da lua cheia. Olho para baixo e vejo a calçada molhada e suja. Vejo algo reluzente gotejar em uma poça d’água. Meio zonzo, cogito ir até lá pegar essas gotas de luz, penso em cair levemente como a orquídea do quase jardim de inverno, pois já é quase inverno e tempo seco e vento e movimento e bêbado não fico pensando em todas as coisas que me incomodam, mas em não faça assim, não faça nada por mim, não vá pensando que eu sou seu, uma música bonita na voz do Ney. E nesse momento já não me censuro mais pelos primeiros pensamentos. A melancolia me parece mais leve também. Sinto o vento, o tempo e os movimentos como se orquídeas caídas pudessem voar…

Olho para os lados e vejo você de relance na luz negra. Duas caveiras multicoloridas olham para nós. Muita gente se olha com estranheza. Algumas pessoas me olham com estranheza. Já não olho mais para as gotas de luz. Já não vejo o chão. Só vejo seus olhos meio desavisados. Não sei ao certo o que você vê. E olhando serenamente você ali ao longe, recito baixinho:

- Te daria essa lua se você quisesse, se respondesse aos meus apelos. Não faça assim, não faça nada por mim, não vá… Pois hoje olhando a chuva pela janela do ônibus, percebi que já me encontrei há tempos e não preciso de vaidades, identidades, sofrimentos. Preciso seus olhos sobre os meus. Preciso seus sorrisos amarelos. Preciso tuas mãos no meu rosto. Preciso não precisar as coisas.

Como mantra internalizado, esqueço cada pessoa à minha volta. Você me olha também, sem assombros. Com precisão de esquecimento, para não precisar mais os dias deixados para trás, com precisão de estar atento e forte, para não ter tempo de temer a morte, sigo instintivo, sem pensar demais nos poréns. Após dois minutos de dança no escuro, te peço um beijo. Você brinca e diz sim com um sorriso. E o que me sai dessas entrelinhas, sem texto ou palavra ou metonímia ou onomatopeia de alegria ou tristeza, é um dos beijos mais bonitos, calmo e demorado como a orquídea que cai no gramado.

- Somos orquídeas caídas, falo baixinho.

- O que disse?, você me pergunta.

- Que gostei de você, respondo calmamente.

- Como? Não te ouvi…, você me responde sorrindo.

- Nada não. Talvez a gente nem se veja amanhã ou depois. A gente perde muito tempo na vida. A cada palavra que sai a gente morre um pouco. Fica comigo essa noite…, falo com os olhos.

- E não te arrependerás! É isso?!, você me diz gargalhando.

- Isso. E não te arrependerás, tipo Nelson Gonçalves, gargalho junto.

Acho bonito nosso diálogo a três, nós dois e a mística das pequenas coisas,  mesmo sabendo que o desencontro e o desassossego seriam inevitáveis. Místicas não duram para sempre. Nós também não. Afinal, uma noite foi o que pedi e uma noite foi o que tive. Por isso mesmo não quis saber nada: nem nome, nem telefone, nem endereço.

- Tenho receios de me aventurar demais por você, por seus cachos e olhos e pálpebras e arranjos e afagos e quereres e escombros e esquinas eteceteras, resmungo embriagado enquanto nos despedimos.

Um último beijo rápido e profundo e bonito e te dou as costas pelas ruas do centro e nunca olho para trás. Fujo com o olhar fixo num ponto qualquer dum sol qualquer que raia que cega que tira a cor das coisas que deixa tudo branco.

Serenidade, apesar de tudo. Certa fúria comedida pelas palavras desmedidas, pela loucura crua das conversas, pelos vitupérios da embriaguez, mas ainda assim detalhes tão pequenos…

Parece que nascemos para fugir querendo ficar. E olhamos para pontos fixos que remontam um mesmo lugar qualquer, talvez por medo de ficarmos cegos de amor pelo mundo divino maravilhoso que nos cerca. Em noites como essa a melancolia parece não existir: estranhamente é a escuridão que me abre os olhos. Tristeza vezenquando serena vezenquando furiosa que retorna pelas manhãs, quando a claridade volta a me cegar. Talvez, por isso tudo, por desejo de contrariar as coisas estabelecidas, preciso te rever agora. Exato e necessário.

Fato que são 25 anos de flores secas e noites serenas e fugas cegas e manhãs de domingo. Quem sabe não te reencontro em algum jardim por aí?

Afinal, somos orquídeas caídas.

Cegos de quase inverno.

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Desamor em quatro atos

18 de Outubro de 2011

Para melhor abertura visual do lobo occipital: Jorge da Capadócia

Mantra urbano nº2

Me vem como dedos
Me sai como braços
Palavras cruzadas para vir
Esperanças cruzadas ao sair
É furacão violento que se ganha para se perder
É tumor extirpado em fúria
Sabe-se lá de onde.

Ato II – Like sex on fire

Lugar: Apartamento 01
Pessoas: Nós dois e o sofá
Fundo musical: Sex on fire

- Espera um cado. Todo mundo dormir.

- Vamo lá. Devagarinho por enquanto. Pódisê?!

Às 4h30 da madruga, eram breves. Os toques, os afagos, digo. Nada contidos, só  breves. Mecânicos, de certa forma, como se todo corpo fosse igual, como se todo sexo fosse comum, sem nada de tão extraordinário. E, diga-se de passagem, hajam copos sujos, corpos suados e transas noturnas pra tantas histórias mundanas! Gente antiga essa… Na arte da piranhagem, dizem por aí as velhas e boas línguas.

E ainda assim, nessa noite que era mais uma, transavam perceber determinadas subjetividades do corpo físico, pequenos resquícios de alma que pairavam em fina camada acima do arrepio da pele. Sentidos que viviam naquela mão derrapada por detrás do pescoço, que sussurravam gemidos ao pé do ouvido, que se deixavam desfalecer por dentre as partes quentes dos corpos em êxtase.

Eram os olhos. As semicerradas pálpebras.

Às 5h, quando o mundo parecia dormir, o sofá verde de dois lugares ao canto esquerdo da sala sofreu pequenos abalos sísmicos. Tira mão daqui, bota lá, curva aqui, desdobra acolá. Os pequenos quadros de Toulouse-Lautrec emoldurados em latão pareciam olhar a cena e conversar euforicamente entre si. As paredes brancas ardiam em ondas multicoloridas que se propagavam concêntricas pelo ambiente.  E, enquanto isso, o inevitável cansaço tomava notas e prestava contas da transação que ocorria; o sono começava a reinar absoluto sobre a tentativa de desvendar quaisquer dos mistérios gozosos.

Era a preguiça. A mãe suprema dos vagabundos.

Os braços se envolveram naturalmente. As mãos permaneceram dadas. E numa daquelas cenas clichê de filme adolescente, permaneceram abraçados como dois corpos adormecidos na superfície lunar, dois amantes do círculo polar, dois perdidos numa noite suja.

Era o carinho. O espinho que não se vê em cada flor.

Atos de desamor em releitura: Número 1

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Desamor em quatro atos

11 de Outubro de 2011

Para melhor abertura mística do lobo temporal: Ainda bem, de Marisa Monte

Mantra urbano nº1

Me vem como furacão
Me sai como tumor
Dedos cruzados para vir
Braços cruzados ao sair
É palavra violenta extirpada em fúria
É esperança que se perde para se ganhar
Sabe-se lá o que.

Ato I – Like a bomb before explosion

Lugar: Inferninho do Centro
Pessoas: Nós dois e o resto
Fundo musical: I found a boy, de Adele

- Porra! Puta vontade de tomar um campari!

- Bora? Partiu balada?!

Sincronia verbo-temporal. Poucas palavras para um caminho curto: pequeno trajeto, grande silêncio, algumas baforadas.

Em dois quarteirões, uma fotografia de Verger formicada numa porta de madeira indicou a entrada de um inferninho qualquer do centro. Pouco corpo pra muita entidade, pensaram. Parecia que a família toda da banda havia se enfurnado no bar para acompanhar o grandioso evento. Só eles e nós. Às 3h da madruga, hora do diabo.

Anyway…

O campari desceu. O sorriso saiu. A conversa rolou. A música tocou. Os pés se movimentaram numa pegada meio Thalma de Freitas com Robert Johnson, Elza Soares com B. B. King, Elis Regina com James Brown. Um passo triste meio alegre, alegre meio triste, que não combinava muito com as caras de tacho refletidas nas paredes do lugar. As luzes vermelhas e verdes do espaço é que refletiam e combinavam bem com os olhares desavisados, com a movimentação frenética dos pés, com a tristeza comedida dos sorrisos. E isso acabava, de certa forma, por compor o todo da cenografia, o enquadramento insuspeito da cena. Porém, sabiam todos ali, fato, que eram aqueles movimentos carnalmente compassados, compreendidos em todo o seu intento sexual, com direito a sorriso de olho fechado e bebida de virada.

Era a dança. O maldito e já conhecido jogo.

Próximo à escadaria vermelha, num fumódromo ao ar livre, a fumaça dos cigarros traçou aquela linha contínua, conjunta, solta devagarinho… E não faria mais nada além de sorrir, beber, conversar, dançar. Não queria, talvez, mais nada além de sorrir, beber, conversar, dançar. Não vivia, possivelmente, mais nada além de sorrir, beber, conversar, dançar. Papo vai, papo vem, pausa seguida de profunda respiração, movimento para levar o cigarro à boca.

Não fosse esse suspiro.

Pois foi num desses intervalos suspirados, desses pequenos momentos de falta de palavrório, que aconteceu.

Era o beijo. O abençoado inesperado.

E dessa forma meio cinema boca do lixo, às incertas 4h da manhã, que a fotografia de Verger estampada na porta sorriu. Os poucos pássaros noturnos levaram os agouros da fumaça e arrastaram a cinza batida. O cheiro de cravo masala tocou fundo um stand by me e o olfato respondeu um sonoro and I’ll stand by you. Os corações disparatados acataram algumas dívidas com o tempo passado.

E, claro como a luz do dia que viria, o copo vermelho vazio indicou os rumos do desassossego.

Era o sorriso. O de canto de boca.

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