Arquivo de Outubro, 2009

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Eu, o bom homem e a colombina

Outubro 23, 2009

eu o bom homem e a colombina

Ou “Jeff, Moska e Bethânia”.

Para ler ouvindo Glory Box, do Portishead.

Noite de riso, manhã de choro.

O bom homem, bêbado de doses, cigarros e prazeres, decide fugir do monge e da rotinha dos hábitos. Por uma noite, uma derradeira noite, merecia tais provocações da alma. Todos os dias moralmente “corretos”, os mesmos trabalhos repetitivos, as mesmas pequenas frustrações, as mesmas transas, as mesmas camisetas brancas, os mesmos óculos de grau. Era como uma música bela e calma, superficialmente simples, mas no fundo cheia de complexidades. Um Paulinho Moska, talvez.

Queria algo. Definitivamente, o bom homem queria algo. Não sei bem o que, mas queria.

Pensou um pouco, tomou o último trago de cerveja e foi. Despediu-se dos amigos, atravessou as portas do bar e dirigiu-se à casa das portas de vidro. Dirigiu-se ao lar de outrém para descansar a bebedeira e dormir o sono dos derrotados. Só para dormir, pensava. Pensei também, acho.

Conversamos um pouco, ainda. Sobre o sexo e suas familiaridades, sobre os incômodos e suas histórias bizarras… Até o momento em que ela apareceu.

Só de calcinha. Aliás, enrolada em uma colcha felpuda, de listras brancas e vermelhas.

Não, o tempo não parou. Não houve furor momentâneo, nem arrepio nos pêlos do braço. Era conhecida demais de nós dois. Atraente, bonita a seu modo, mas nada que causasse frisson. Não em nós dois, achava.

Estava com os olhos vermelhos de sono, o cabelo desgrenhado, os lábios secos e um pouco murchos, como os de uma criança que acabou de quebrar o brinquedo ganhado no natal. Era diferente dele, do bom homem. Parecia-se comigo. Uma colombina. Queria as fugacidades dos amores errados, as loucuras cotidianas, a procura constante por alguém que a fizesse feliz. Era constante nas inconstâncias. Era como uma música triste que deixa a gente alegre por dentro. Uma Maria Bethânia, talvez.

Conversamos um pouco, nós três. Não me recordo os assuntos. Banalidades políticas, creio eu. Íamos nesse embalo nos preparando para a tal madrugada de sono.

Vestimos pijamas, comemos alguma coisa e nos aprumamos em nossos respectivos cantos. Eu, na rede, eles, na cama. Não estranhei o movimento. Nunca estranho estes movimentos. Acho que naturalizo demais as coisas, mas, enfim… Coisas minhas. Não queria dormir, tinha que acordar cedo. Queria cores viva, nada que fosse desbotado. Coloquei Kill Bill e tentei ficar acordado até a hora de trabalhar. A última cena que me lembro é de Uma Thurman batendo a cabeça de um enfermeiro no vão da porta. Dormi sem perceber…

O que aconteceu depois pertence a um universo particular. Um círculo vicioso de pequenos detalhes dos quais prefiro me ater, mesmo porque só presencie as preliminares e os finalmentes. Presença de espírito, claro. Dormi feliz, acho.

Acordei com um burburinho. Tentei ser o máximo discreto possível. Não sei se consegui, mas, também, acho que isso não importa. O importante é o estranhamento. É a maneira como as pessoas lidam com o desejo.

Creio que ambos choravam. Tenho certeza que ambos choravam.  De arrependimento, possivelmente.

Achei engraçado. Enquanto o bom homem e a colombina choravam, eu sorria. Sorrisos claros de dia, assim como as lágrimas perdidas da noite. Inevitavelmente comecei a ouvir Jeff Buckley. O momento pedia, acho. Afinal, não é a primeira vez que sexo dá prazer e nem a primeira que faz chorar. Certamente não.

Conversamos pouco… Ainda enxugavam as lágrimas. Falaram de menos e, como quem come um prato pelas beiradas, pediram desculpas. Como sempre sorri, naturalizei a situação e disse a eles que essa era a coisa mais humana que podia existir. Fazer sexo, assim como as loucuras do amor e as extravagancias do desejo, são alguns dos fatores da equação que mais aprecio nas regras de três que a vida nos prega. Não sei se fui certo com as palavras e com os sorrisos em um momento triste.

Só sei que sonhei. Com pequenos sons ofegantes bem ao fundo, longínquos, sonhei que dirigia Marina Lima como garota de programa em um filme incendiário.

Enfim, uma noite como outra qualquer. Feita de sonhos meus e desejos de outrém.

Eu, o bom homem e a colombina temos algo em comum: somos boas músicas em um momento tempestuoso. Ritmos, compassos e letras bem diferentes. Ele, Moska. Ela, Bethânia. Eu, Jeff. Todos boas músicas numa noite de sonho e desejo.

Caixinhas de jóias lacradas de glória e despudor.

Abertas em segredo, bem baixinho, como um sussuro suado no pescoço.

Para não atrapalhar a Sra. Loucura.

Aquela, guardiã dos segredos carnais, dona das noites eternas…

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café. cigarros. miçangas.

Outubro 19, 2009

senhora-cafe

Com os olhos marejados e um sorriso estampado, saiu pelos grandes portões azuis do cemitério.

Logo na saída, avistou um pequeno ônibus amarelo, parecido com aqueles das escolas norte-americanas, e fez sinal para que parasse. Não sabia para onde ia… E talvez nem quisesse saber.

Aprumou a malinha vermelha de mão, ajeitou a blusa de frio e andou a passos largos, como quem está apressado ou com medo de perder a condução.

Adentrou as portas do ônibus e logo olhou para o motorista. Um homem negro, alto, de uniforme cor-de-rosa, com um pequeno broche de flor dourada pregado no bolso da camisa. Abaixo da flor estava escrito o nome da empresa, que leu com certa dificuldade:  Magnólia Transportes Ltda. Nunca tinha ouvido falar de tal empresa…

O motorista esboçou um leve sorriso, olhou bem para o rosto de Hilda e pediu para que ela entrasse depressa. Não perguntou o destino, nem pediu para que pagasse a passagem. Só pediu para ela entrar e se sentar na poltrona 23.

Não haviam muitos passageiros.

Avistou uma mulher de vestes vermelhas, sapatos pretos de salto e uma rosa branca encrustrada nos cabelos ruivos, que acenou afirmativamente com a cabeça enquanto Hilda passava pelo corredor. Viu também um homem velho, de olhos azuis, com um terno xadrez azulado, acompanhado de uma garotinha de vestido amarelo e cara de sapeca. Ambos acenaram com a cabeça quando a viram.

Estranhamente, de mãos dadas com a maior aventura de sua vida, cercada de desconhecidos que pareciam conhecê-la, Hilda tinha a sensação de estar em casa, segura. Não sentia o desamparo do destino e muito menos o pesar das rugas. Sentia-se acolhida e amada pelos olhares e sorrisos dos conhecidos-desconhecidos que acabara de conhecer. Sentiu-se bem. Feliz.

Chegou, finalmente, à poltrona 23. Os olhos estarrecidos por detrás dos óculos fundos de grau não conseguiam acreditar no que viam. Fechou-os rapidamente. Estava com medo de abrí-los de novo. A pequena mala vermelha caiu estremecida no chão, deixando os pertences de Hilda espalhados pelo corredor do ônibus.

O garoto de cabelos e olhos castanhos, barba por fazer e gestos calmos, que estava sentando na poltrona a lado da sua, parou de contemplar o horizonte, retirou a bolsa de couro cru cheia de penduricalhos do assento de Hilda e ajudou-a a recolher as roupas e vidros de perfume do chão.

- Aconteceu alguma coisa, meu bem? A senhora está passando mal?

Quando ouviu aquela voz suave, um pouco rouca por causa do fumo, a velha senhora pensou estar em um sonho, pensou ter ouvido a voz de seu amado. Não queria que aquele momento passasse. Nunca. Queria ficar ali, com cara de trouxa, estarrecida pela visão que acabara de ter…

Mas não. Abriu os olhos novamente, fitou o rapaz, que já havia arrumado toda sua mala e sentou-se. As pernas tremiam. Não conseguia olhar para o lado. Pensava no que falar e em como falar, mas não sabia. Sentia-se acanhada demais para falar qualquer coisa, qualquer bobagem que fosse. Foi de ímpeto.

- Acho que o conheço de algum lugar, menino. Você me lembra alguém muito querido. Por isso fiquei assim. Assustada. Estarrecida. Pensei que fosse outro alguém…

Fazia tipo. Sabia muito bem de onde o conhecia. Era o garoto esquisito que estava sentado na mesa ao lado da sua no posto de conveniência, com o bornal a tiracolo. Era o garoto do cigarro de filtro amarelo, sua conquista recente na lista de desejos, seu affair momentâneo…

- Sim. A senhora estava tomando um café expresso no posto de conveniência, sentada ao meu lado. Fiquei imaginado naquele dia o que se passava pela sua cabeça…

Hilda ruborizou. Não pensava que um rapaz tão jovem pudesse reparar nela e muito menos que ficasse imaginando o que se passava pela sua cabeça. Talvez tivessem os mesmos dilemas, as mesmos problemas. Talvez estivesse fazendo o mesmo que ela: remoendo o passado, ou melhor, fugindo dele…

- O que você faz nesse ônibus? Está indo pra onde? Ver a família? Aliás… Onde esse ônibus vai parar?!

- Não sei. Não tenho rumo certo e também não quis perguntar ao motorista. Acho que saí de casa pra procurar as metades que me faltam…

Os dois sorriram.

Passaram a tarde toda, lado a lado, conversando. Falaram sobre tudo: as peripécias da vida passada, as frustrações do momento presente e as vontades e desejos futuros. Encontraram-se numa estrada sem rumo, partindo para o tudo ou nada. Não sabiam de nada e nem queriam saber, pois perceberam que já sabiam de tudo que precisavam para viver…

Liberdade. Talvez os dois só quisessem um pouco de liberdade.

Mas ainda acho que essa não é a palavra certa para definir esse querer, pois o que esses dois desejam é tão grande e tão intenso, que nem a vida, nem os mortos e nem os caminhos tortos podem dizer.

A palavra certa para definir o que esses e tantos outros caminhantes sentem pode ainda não existir, mas, certamente, existe o caminho. E não é necessária tanta coragem para percorrê-lo, mas convicção para acreditar que encontrarão algo que os complete no decorrer dessa viagem. E que as metades que a gente procura, de vez em quando, podem estar onde a gente menos espera…

Numa estrada solitária, dentro de um ônibus amarelo.

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Rascunhos de um amor etílico…

Outubro 16, 2009

Jeff Buckley

ou “Quem tem medo do misterioso garoto branco?”

Para ler ouvindo Morning Theft, The sky is a landfill, Last Goodbye, Grace, So Real, Yard of blonde girls, Opened Once, Everybody here wants you, New Year’s Prayer, Witche’s Rave, Satisfied Mind, Lilac Wine, Hallelujah ou Lover, you should’ve come over. Ou todas de uma vez só…

My main musical influences? Love, anger, depression, joy and dreams……and zeppelin!

Um corpo sobre a água. Céu azul, brisa leve. Alguns pássaros planam. Temperatura estável. Um balão de ar, um zepelim direcionado, cruza os céus irradiando luzes mágicas, multicoloridas, ensurdecedoras. Cheio de amor, traz o último suspiro.

Desestabiliza tudo. Os pássaros não planam mais. O frio é mórbido. O céu enegrece, a brisa vira tufão. O corpo segue a correnteza calmamente. Agora é ele que irradia luz pela água turva do rio. Multicoloridas, mágicas, ensurdecedoras, loucas, agudas, arrepiantes…

Essa luz ainda pode ser vista até hoje, ouvida, até. É doce, terna e ao mesmo tempo agonizante. Forte por fora, instável por dentro. É o som que aqueles demônios que vivem dentro da gente fazem quando vestem carcaças de anjos: belos à primeira vista, corrosivos à segunda, mortais à terceira. É mais ou menos como aqueles amores fulgazes, senhores de tantas rugas: arrebatadores num primeiro momento, arrasadores num segundo, deprimentes num terceiro…

Mas ainda assim, quem não quer ter “anjos”, mesmo que disfarçados, e amores sórdidos, mesmo que acabem?!

É esse frisson dos desejos contraditórios que sinto hoje em dia quando ouço Jeff Buckley, cantor norte-americano que, mesmo sem ter nem saber (pois se encontrava morto quando o conheci), operou mudanças significativas em minha vida. Conheço-o desde os 15 anos de idade, das noites de Alto-Falante na TV Cultura. Desde então ficamos amigos. Assim, meio que sem querer querendo.

Penso que mudou muitas coisas na minha vida, primeiro de tudo, porque eu era o adolescente chato que pedia pras pessoas baixarem (não, eu não tinha internet) músicas estranhas que eu conhecia não-sei-de-onde. Tipo The Clash, Ella Fitzgerald e Jeff Buckley, que são meio desconhecidinhos numa cidade de 8 mil habitantes do interior paulista… Mas, enfim, o fato é que as músicas se tornam muitas vezes nossas vestimentas. E às vezes é melhor não extravazar demais na escolha das peças pra não causar a impressão errada. Ainda mais na adolescência, onde qualquer deslize é motivo de chacota. É como na alegoria dos demônios com carcaça de anjo… Você se torna o que as pessoas querem só pra ser melhor aceito numa rodinha de amigos ou num grupinho de pessoas especiais.

Mas o demônio ainda vive dentro de você. Os desejos contraditórios também.

Após quase um ano dessa amizade com Jeff, comecei a sair pras noitadas esfumaçadas da boate da minha pequena cidade. Parei de ouví-lo. Queria que as luzes fossem outras. Multicoloridas e sonoras de outra forma. Queria me tornar um anjinho sem asas, como tantos outros que conheci e que hoje são meus melhores amigos. Nos entendemos através dessas luzes esfumaçadas, enfim. E foi ótimo ter vivenciado todas essas pequenas loucuras de um mundo particular.

Mas eu sempre sentia que faltavam certas coisas, que antes existiam e que, até esse ponto da história, já não existiam mais. Sentia falta da morbidez dos momentos. Afinal, de depressivo-sozinho passei a playboy-rodeado-de-gente, num estalar de dedos. Queria de volta determinadas sensibilidades, que só conseguia ter em momentos de boa solidão, que se tornaram um tanto quanto raros.

Eu e Jeff só nos tornamos amigos novamente depois que entrei na universidade. Querendo ou não os espaços tem esse poder de mudar nossos ares. A fugacidade dos amores e os platonismos deram espaço para diversas luzes, inclusive as de Jeff, que sempre estiveram em minha vida, de uma forma ou de outra.

Foram as batidas itinerantes de “Grace“, a morbidez mágica de “So Real“, os arrepios na nuca de “Last Goodbye“, as esperanças amorosas gastas de “Lover, you should’ve come over“, a suavidade irrespirável de “Hallelujah“, as perdições noturnas de “Lilac Wine” e as reconfortantes verdades de “Satisfied Mind” que construíram meus momentos mais íntimos durante muito tempo.

Hoje são, em mesmo gênero, número e grau, os sonhos delirantes de “The sky is a landfill“, a baladinha dançante de “Witche’s Rave“, a confiança inabalável de “Yard of blonde girls“, a sensualidade deprimente de “Everybody here wants you“, as dores e delícias de “New Year’s Prayer“, o sopro descompassado de “Opened Once” e os sorrisos esperançosos desprendidos pela rua de “Morning Theft” que iluminam meu caminho para uma mente cada vez mais satisfeita.

Não são somente as músicas que me trazem à tona aquele frisson dos desejos contraditórios que tão subjetivamente tentei explicar inicialmente. É o sorriso sôfrego e o olhar indeciso, as mãos suaves sobre o violão e os olhos cerrados, a falta de palavras, o excesso de gestos estranhos e a boca trêmula que me fazem gostar da figura de Jeff Buckley. Foram e são aqueles gritos agudos e afinados que criaram esses laços entre minha vida e as músicas dele.

Jeff é meu suspiro prolongado… Aquele, do pé do ouvido. É um de meus delírios.  É um dos poucos demônios que preferiu, por livre e espontâneo arbítrio, extirpar a carapaça de anjo e mostrar as garras malévolas e suaves.

É, certamente, a trilha sonora do meu último adeus.

Não é a primeira vez que escrevo sobre artistas que curto, mas certamente é a mais tocante. Jeff foi meu primeiro delírio musicado, como disse anteriormente. E longe de mim dar o último adeus tão cedo como ele. Quero ainda curtir muitas das minhas primeiras paixões, como ele mesmo foi um dia. Em todos os sentidos…

Pra enfatizar e saber mais:

Site Oficial
Documentário (Amazing Grace: Jeff Buckley, 2004, Once and Future Productions)
Site Oficial do Documentário

Trailer de Amazing Grace