Ou “Jeff, Moska e Bethânia”.
Para ler ouvindo Glory Box, do Portishead.
Noite de riso, manhã de choro.
O bom homem, bêbado de doses, cigarros e prazeres, decide fugir do monge e da rotinha dos hábitos. Por uma noite, uma derradeira noite, merecia tais provocações da alma. Todos os dias moralmente “corretos”, os mesmos trabalhos repetitivos, as mesmas pequenas frustrações, as mesmas transas, as mesmas camisetas brancas, os mesmos óculos de grau. Era como uma música bela e calma, superficialmente simples, mas no fundo cheia de complexidades. Um Paulinho Moska, talvez.
Queria algo. Definitivamente, o bom homem queria algo. Não sei bem o que, mas queria.
Pensou um pouco, tomou o último trago de cerveja e foi. Despediu-se dos amigos, atravessou as portas do bar e dirigiu-se à casa das portas de vidro. Dirigiu-se ao lar de outrém para descansar a bebedeira e dormir o sono dos derrotados. Só para dormir, pensava. Pensei também, acho.
Conversamos um pouco, ainda. Sobre o sexo e suas familiaridades, sobre os incômodos e suas histórias bizarras… Até o momento em que ela apareceu.
Só de calcinha. Aliás, enrolada em uma colcha felpuda, de listras brancas e vermelhas.
Não, o tempo não parou. Não houve furor momentâneo, nem arrepio nos pêlos do braço. Era conhecida demais de nós dois. Atraente, bonita a seu modo, mas nada que causasse frisson. Não em nós dois, achava.
Estava com os olhos vermelhos de sono, o cabelo desgrenhado, os lábios secos e um pouco murchos, como os de uma criança que acabou de quebrar o brinquedo ganhado no natal. Era diferente dele, do bom homem. Parecia-se comigo. Uma colombina. Queria as fugacidades dos amores errados, as loucuras cotidianas, a procura constante por alguém que a fizesse feliz. Era constante nas inconstâncias. Era como uma música triste que deixa a gente alegre por dentro. Uma Maria Bethânia, talvez.
Conversamos um pouco, nós três. Não me recordo os assuntos. Banalidades políticas, creio eu. Íamos nesse embalo nos preparando para a tal madrugada de sono.
Vestimos pijamas, comemos alguma coisa e nos aprumamos em nossos respectivos cantos. Eu, na rede, eles, na cama. Não estranhei o movimento. Nunca estranho estes movimentos. Acho que naturalizo demais as coisas, mas, enfim… Coisas minhas. Não queria dormir, tinha que acordar cedo. Queria cores viva, nada que fosse desbotado. Coloquei Kill Bill e tentei ficar acordado até a hora de trabalhar. A última cena que me lembro é de Uma Thurman batendo a cabeça de um enfermeiro no vão da porta. Dormi sem perceber…
O que aconteceu depois pertence a um universo particular. Um círculo vicioso de pequenos detalhes dos quais prefiro me ater, mesmo porque só presencie as preliminares e os finalmentes. Presença de espírito, claro. Dormi feliz, acho.
Acordei com um burburinho. Tentei ser o máximo discreto possível. Não sei se consegui, mas, também, acho que isso não importa. O importante é o estranhamento. É a maneira como as pessoas lidam com o desejo.
Creio que ambos choravam. Tenho certeza que ambos choravam. De arrependimento, possivelmente.
Achei engraçado. Enquanto o bom homem e a colombina choravam, eu sorria. Sorrisos claros de dia, assim como as lágrimas perdidas da noite. Inevitavelmente comecei a ouvir Jeff Buckley. O momento pedia, acho. Afinal, não é a primeira vez que sexo dá prazer e nem a primeira que faz chorar. Certamente não.
Conversamos pouco… Ainda enxugavam as lágrimas. Falaram de menos e, como quem come um prato pelas beiradas, pediram desculpas. Como sempre sorri, naturalizei a situação e disse a eles que essa era a coisa mais humana que podia existir. Fazer sexo, assim como as loucuras do amor e as extravagancias do desejo, são alguns dos fatores da equação que mais aprecio nas regras de três que a vida nos prega. Não sei se fui certo com as palavras e com os sorrisos em um momento triste.
Só sei que sonhei. Com pequenos sons ofegantes bem ao fundo, longínquos, sonhei que dirigia Marina Lima como garota de programa em um filme incendiário.
Enfim, uma noite como outra qualquer. Feita de sonhos meus e desejos de outrém.
Eu, o bom homem e a colombina temos algo em comum: somos boas músicas em um momento tempestuoso. Ritmos, compassos e letras bem diferentes. Ele, Moska. Ela, Bethânia. Eu, Jeff. Todos boas músicas numa noite de sonho e desejo.
Caixinhas de jóias lacradas de glória e despudor.
Abertas em segredo, bem baixinho, como um sussuro suado no pescoço.
Para não atrapalhar a Sra. Loucura.
Aquela, guardiã dos segredos carnais, dona das noites eternas…





