Da série “Recordar é viver!”
Não esperava muito de uma noite enfadonha de terça-feira. Resolvi passar na locadora para ver as novidades, mas, de sobressalto, acabei locando um filme bem antigo.
Digamos que tinha uma capa pouco convidativa. Claro, pouco convidativa aos olhos da explosão colorida de efeitos sobrenaturais que a atual cinegrafia tenta passar aos espectadores através das capas dos filmes. Da mesmo que aqueles roteiros dos quais escorrem ladrões, mocinhos, beldades e tantos outros atores de fama internacional, que acabam tomando a cena de tal forma que a história acaba se perdendo, tendo pouca importância.
O fato é que não esperava assistir a um filme que trouxesse uma atmosfera tão carregada de cores, sentidos, emotividade e, acima de tudo, uma maneira tão única de ver e expressar a mística do “fazer cinema com paixão”.
Julieta dos Espíritos (Giulietta degli Spiriti, Itália/França, 1965) conta a história de uma mulher que, ao desconfiar que o marido a traia, começa a ser acometida por visões.
Mas não pensem que se tratam de visões com espíritos malignos ou com aquelas aparições fantasmagoricamente toscas. Esse contato com o (sur)real, com um outro mundo de significados, leva Julieta (Giulietta Masina) a uma jornada de novas descobertas que a fazem despertar para a vida.
Despertar para sensações nunca antes sentidas. Despertar para aquilo que realmente traz unicidade e valor ao “ser vivente”, para tudo aquilo que realmente importa quando nos deparamos com as nossas reais necessidade e desejos.
Peço desde já desculpas a qualquer leitor que tenha chegado ao final deste texto, mas é meio difícil ser claro, conciso e jornalisticamente objetivo quando, pela primeira vez, assisti a uma obra-prima tão cheia de cor e esplendor, do mestre atemporal Federico Fellini.
Gozei!
É até bom salientar que o filme concorreu ao Oscar nas categorias “Direção de Arte” e Fotografia”, além de ganhar o prêmio Globo de Ouro de “Melhor Filme Estrangeiro”. Aliás… Não precisa de nada disso não… É Fellini!
O que vale mesmo salientar é que no texto original, pro site “Dentro do Balaio” que a gente montou no curso de comunicação da UFV em 2007, eu não escrevi a palavra “Gozei!”… Ainda era um jornalistinha meio retraidinho com as palavras. E com o sentido delas… Chato, né?!

