Arquivo de Junho, 2009

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café. cigarros. miçangas.

Junho 26, 2009

senhora café

Andou uns dois quarteirões até chegar ao ponto de ônibus. Sentou-se no banquinho verde de madeira da praça da matriz, logo em frente ao ponto.

Precisava pensar… Aliás, não precisava, mas queria pensar um pouco no que iria fazer, pra não cair na trama desordenada dos atos precipitados. Se bem que precisava de um pouco de desordem em sua vida.

Num assalto pegou a mala, a gata, que dormia de barriga pra cima, e subiu no primeiro ônibus que viu passar. Coincidentemente ia até saída da cidade. Logo que subiu o primeiro degrau, lembrou-se de algo que não poderia deixar de fazer: despedir-se.

Pensou em tudo que iria falar, em tudo que precisava desabafar. Em tudo que tinha sofrido, em todas as noites mal dormidas, em todas as lágrimas que havia derramado. Precisava pensar nisso tudo novamente, pra dar a última cartada, pra esquecer tudo de vez e viver uma nova vida.

Chegou, finalmente, à Alameda dos Anjos. Olhou de cima pra baixo a figueira frondosa, com suas raízes imponentes rasgando o concreto afora. Avistou logo as escrituras acima das abóbodas ogivais que contornavam o portão de grades azuis: “Nós que aqui estamos, por vós esperamos”.

Adentrou o cemitério segurando firme no peito a convicção que há muito não sentia. Andou por todo o caminho de ipês amarelos até chegar ao túmulo de Salvador. Apesar das margaridas mofadas e da cera de vela espalhada pelos cantos úmidos, dava ainda pra ver a foto envelhecida e a escritura com os dizeres “Tudo transformou enquanto viveu”.

Hilda tinha tanto o que dizer, tanta coisa entalada na garganta, tanto sentimento pulsando, escorrendo pelas veias… Mas não. Conteve-se.

- Você não me conheceu completamente. Talvez não fosse minha outra metade. Mas é certo que nos amamos. E muito… Isso é certo… Certíssimo…

Derramou uma lágrima só.

Voltou-se de costas ao túmulo no intuito de seguir seu novo caminho.

Um sopro de ar contido fez com que Hilda se arrepiasse. Parecia uma resposta de Salvador. Um acordo. Uma aprovação.

Sem querer deixou a caixa com a gata cair no chão. De súbito o animal, que dormia calmamente, correu assustado em direção a um beco cheio de entulhos próximo à saída do cemitério.

Hilda não se apavorou. Dirigiu-se ao beco e começou a chamar pela gata. Sentiu-se um pouco como Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo, mas sem desesperos. Ruborizou ao cogitar a possibilidade da chuva torrencial, do momento místico, do grande amor à espreita… Enquanto subia o som de Moon River num beijo apaixonado…

Desistiu da gata.

Deixou ali a caixinha de madeira com um recado: “Quem encontrar uma gata siamesa, de rabo cortado, com cara de fome, cheia de safadeza,  favor adotá-la.”

Antes de ir, resolveu deitar-se por alguns minutos ao lado de Salvador. Trocaram carícias de brincadeirinha, conversaram-se, amaram-se, sentiram-se pela última vez. Afinal, eram as últimas carícias de um casal feliz.

Nem cogitava Salvador que além de tudo que transformara em vida, havia tudo transformado após sua morte. E que enquanto as flores do ipê caíam, Hilda reviveu alguns bons anos. Pronta para viver os próximos.

Ao som de Moon River, fumando da piteira do tempo, deu-se conta de que aquele era certamente o último momento a dois.

O último adeus.

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A alguém conhecido-desconhecido

Junho 12, 2009

conhecido-desconhecido

Corre calma, chama de pavio. Corre calma… Tua hora inda há de chegar. Just pray for something good…

Para ler ouvindo Yael Naim.

Saí de casa tarde, pra beber e fumar alguma coisa.

Mentira.

Procurava alguém… Conhecido-desconhecido. Não sei bem…

Passei pelos bares e não vi nada, nem ninguém. Andei pelas ruas escuras de chuva… Passei pelo puteiro, pela lanchonte, pelos postos de conveniência. Não, não consegui comprar um cartão telefônico. Queria tanto ligar pra alguém, não sei quem.

Mentira.

Eu sabia muito bem pra quem queria ligar, mas não tinha o número. Nem sabia se deveria…

Voltei pelo mesmo caminho, esperando que algum conhecido-desconhecido estivesse sentado na porta de casa. Esperando por mim, com uma garrafa de vinho e um sorriso estampado.

Só quando cheguei lá me lembrei que coisas assim não acontecem.

Sinto que estou por fora, quando uma grande bagunça acontece por dentro. Vivendo pra ver tudo queimar e virar cinza.

Nada. Não é nada disso que quero mais.

Pois ao final de cada noite, sinto que perdi a noção da hora. E que, sozinho, joguei tudo fora.

Ninguém, afinal, me diz quando ei de partir.

Muito menos quando ei de chegar…

Lá.

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Não volte, Lucía!

Junho 12, 2009

Lucía

Na noite-tédio de sexta, liguei a TV na tentativa de cair no sono. Assisti Jô Soares, vi umas duas ou três entrevistas de não sei quem e acabei percebendo o quão o nome dele é estranho… Jô de quê?! João? José? Joaquim? Bem… de qualquer forma é um nome de sonoridade feia…

Depois assisti o Som Brasil, vi Aline Calixto, uma cantora que começou em Viçosa, cantando agora com Martinho da Vila. Fiquei um tanto quanto nostálgico… Nossa! O tempo passou e eu nem vi… Parece que foi ontem que cheguei de ressaca do Leão depois de uma noite de Beba do Samba.

Depois disso, ainda sem sono algum e com uma pequena euforia nostálgica dos tempos passados, assisti o Inter Cine, vi um filme horroroso sobre vampiros e lobisomens. Um massaroque desembolado em que uma vampira se apaixona por um ser humano que vira lobisomem e depois vira um vampirosomem, que é uma coisa que nem os seres humanos, nem os vampiros e nem os lobisomens sabem direito o que é… Só se sabe, o que era de se esperar, que eles ficam juntos no final. A vampira e o vampirosomem. Mas, de qualquer forma, bom ou ruim, assisti o filme todo sem titubear.

Foi assim, com os olhos marejados de sono e com uma pequena esperança de conseguir dormir, que conheci Lucía.

Uma mulher interessante, bonita, sofisticada… Grande escritora de livros infantis, que estava prestes a viajar pro Rio de Janeiro com o marido. Nada anormal, até o momento em que o suposto marido desaparece no aeroporto em meio às bagagens.

As coisas ficam ainda mais estranhas quando Lucía percebe que aquela história que contava não era sua. Pelo menos não completamente: era escritora, mas não era famosa; não era tão sofisticada quanto aparentava inicialmente, mas não deixava de ser interessante.

Pois bem… Seu marido desapareceu misteriosamente. O que fazer?

Bem… O primeiro passo é falar com a polícia sobre o desaparecimento. Isso, se os sequestradores não tivessem ligado antes pedindo um resgate de 20 milhões!

Mas de onde Lucía, uma escritora falida, com um marido falido, iria tirar 20 milhões?!

Claro! Da conta sigilosa que o marido mantinha, com 20 milhões de dólares.

Bem… É aí, na  verdade, que começa a história de Lucía, quando ela conhece seus vizinhos: um senhor, veterano de guerra, e um jovem músico, que tentam ajudá-la a descobrir onde está o marido e porque ele teria 20 milhões de dólares em sua conta.

Mas não é o desenrolar e o desfecho dessa história que fizeram com que eu me interessasse por Lucía, mas seu desprendimento do real. Mesmo em meio a toda merda que era sua vida, e depois, quanto tudo se tornou uma merda maior ainda, ela tinha aquela capacidade que poucos tem de vislumbrar novas possibilidades… De criar novos mundos, novos amores e novas Lucías.

Gosto de imaginá-la no vestido de festa vermelho, com taças de champanhe na mão, esperando seu amor juvenil bater à porta.

Apesar da vida nem sempre ser como a gente espera ou gostaria que fosse, não volte, Lucía!

Continuemos sonhando…

O seu (e o meu) desejo são os rastros que ficaram do dia.

E nunca acordamos desse sonho.

E nunca dormimos…

Aos olhos de uma mulher (Lucía, Lucía ou La hija del canibal, 2003, Antonio Serrano)