Andou uns dois quarteirões até chegar ao ponto de ônibus. Sentou-se no banquinho verde de madeira da praça da matriz, logo em frente ao ponto.
Precisava pensar… Aliás, não precisava, mas queria pensar um pouco no que iria fazer, pra não cair na trama desordenada dos atos precipitados. Se bem que precisava de um pouco de desordem em sua vida.
Num assalto pegou a mala, a gata, que dormia de barriga pra cima, e subiu no primeiro ônibus que viu passar. Coincidentemente ia até saída da cidade. Logo que subiu o primeiro degrau, lembrou-se de algo que não poderia deixar de fazer: despedir-se.
Pensou em tudo que iria falar, em tudo que precisava desabafar. Em tudo que tinha sofrido, em todas as noites mal dormidas, em todas as lágrimas que havia derramado. Precisava pensar nisso tudo novamente, pra dar a última cartada, pra esquecer tudo de vez e viver uma nova vida.
Chegou, finalmente, à Alameda dos Anjos. Olhou de cima pra baixo a figueira frondosa, com suas raízes imponentes rasgando o concreto afora. Avistou logo as escrituras acima das abóbodas ogivais que contornavam o portão de grades azuis: “Nós que aqui estamos, por vós esperamos”.
Adentrou o cemitério segurando firme no peito a convicção que há muito não sentia. Andou por todo o caminho de ipês amarelos até chegar ao túmulo de Salvador. Apesar das margaridas mofadas e da cera de vela espalhada pelos cantos úmidos, dava ainda pra ver a foto envelhecida e a escritura com os dizeres “Tudo transformou enquanto viveu”.
Hilda tinha tanto o que dizer, tanta coisa entalada na garganta, tanto sentimento pulsando, escorrendo pelas veias… Mas não. Conteve-se.
- Você não me conheceu completamente. Talvez não fosse minha outra metade. Mas é certo que nos amamos. E muito… Isso é certo… Certíssimo…
Derramou uma lágrima só.
Voltou-se de costas ao túmulo no intuito de seguir seu novo caminho.
Um sopro de ar contido fez com que Hilda se arrepiasse. Parecia uma resposta de Salvador. Um acordo. Uma aprovação.
Sem querer deixou a caixa com a gata cair no chão. De súbito o animal, que dormia calmamente, correu assustado em direção a um beco cheio de entulhos próximo à saída do cemitério.
Hilda não se apavorou. Dirigiu-se ao beco e começou a chamar pela gata. Sentiu-se um pouco como Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo, mas sem desesperos. Ruborizou ao cogitar a possibilidade da chuva torrencial, do momento místico, do grande amor à espreita… Enquanto subia o som de Moon River num beijo apaixonado…
Desistiu da gata.
Deixou ali a caixinha de madeira com um recado: “Quem encontrar uma gata siamesa, de rabo cortado, com cara de fome, cheia de safadeza, favor adotá-la.”
Antes de ir, resolveu deitar-se por alguns minutos ao lado de Salvador. Trocaram carícias de brincadeirinha, conversaram-se, amaram-se, sentiram-se pela última vez. Afinal, eram as últimas carícias de um casal feliz.
Nem cogitava Salvador que além de tudo que transformara em vida, havia tudo transformado após sua morte. E que enquanto as flores do ipê caíam, Hilda reviveu alguns bons anos. Pronta para viver os próximos.
Ao som de Moon River, fumando da piteira do tempo, deu-se conta de que aquele era certamente o último momento a dois.
O último adeus.





