Arquivo de Maio, 2009

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Just let the sun

Maio 27, 2009

Just let the sun

You take it easy
You walk on your own
Look for the sunshine you’ll find your way home

Just let the sun
Shine on your face

- Vocês são iguais a ela… Aquela degradada, débil… Ficam buscando essas formas alternativas pra ver as coisas!

- Ser diferente é ser alternativo? Se for, é isso mesmo. Não tem como. Vai ficar tudo do jeito que está.

- Vocês viram onde ela foi parar agora, né? Com todas essas alternatividades… Vocês viram onde ela está com suas loucuras e desvarios? Tá lá, a sete palmos! Aquela vadia! Nos deixou pelo mundo…

- Não há mais espaço pras suas normatividades em nossa vida. Chega de hipocrisia. Amar não mata ninguém. E ela morreu muito feliz, se quer saber. Pediu que eu lhe desse um beijo e um abraço de despedidas. E disse que espera lá do céu, ou do inferno, que você ainda possa ser feliz. Assim, como ela procurou ser.

- Eu quero mais é que ela queime. E que vocês mudem! E vejam que tudo isso é passageiro! Que na vida só nos resta seguir.

E ela queimou.

Na verdade, todos queimaram. Por dentro, por fora, de raiva, de prazer…

E o mundo inteiro mudou.

Na verdade, pra pior. Só eles, e alguns outros, foram felizes de verdade.

Pois tiveram coragem pra deixarem de ser passageiros e tomaram a boléia do trem desgovernado.

Perceberam a tempo que a vida não é só seguir.

Pero seguir luchando.

Y poniendo el cuerpo…

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Blues da madrugada

Maio 25, 2009

blues

Para ler ouvindo You don’t know what love is.

Desceu pela primeira vez naquela estação.

Era o início da nova rotina casa-trabalho, trabalho-casa.

Cabeça baixa, taciturno, atravessou a estação como quem se encontra perdido e assustado no meio de um mar de gente. Mas não havia quase ninguém no pátio central da estação. Não naquele horário. Alguns travecos debochados, algumas putas cansadas, dois ou três cafetões tirando o último sarro do dia…

Não, não tinha medo dos degradados e degradadas da madrugada. Era mais um que chafurdava. Mais em pensamento que em ação, mas ainda assim chafurdava.

Espantou-se por alguns instantes com a desgraça alheia. Depois sorriu da própria desgraça. Um sorriso meio amarelado, ainda de cabeça baixa. Mas era um sorriso, sem dúvida.

Foi aí, nesse momento-preguiça-de-viver, que ouviu a música que mudaria sua vida. Caiu como uma estrela do céu. Iluminou-o.

Um blues.

Parou um instante no meio do pátio, levantou a cabeça para ver daonde vinha a voz e o sax.

Encantou-se. Pelos lábios que cantavam com tanta veemência, com tanta dor.

Percebeu de imediato que aqueles lábios haviam sido deixados. De imediato, percebeu também que queria-os pra si.

Tentou trocar um olhar, um sorriso amarelo, mas não conseguiu. Os olhos dos belos lábios estavam fechados, chorosos…

Com o tempo, os passos pelo pátio da estação foram ficando um pouco mais alegres. Todo dia um blues diferente. Todo dia os mesmos lábios. Todo dia os mesmos encantos e as mesmas dores de amor. Nenhum olhar, nenhum sorriso. Praticamente as mesmas reações iniciais.

Um santo dia, uma terça, às três da madrugada, passava mais uma vez pela estação, cabisbaixo e taciturno.

Foi quando a música parou e ouviu um grito, um chamamento.

- Ei, ainda são três horas! Você só passa às quatro!

Sentiu um arrepio gelado, visceral, mas gostoso. Sentiu que era pra ele que aqueles lábios se dirigiam.

- Esqueceu que o horário de verão acabou?

Pensou um pouco, sorriu. Bendito horário.

- Acho que perdemos a noção da hora…

Até pegar o ônibus pro trabalho ficaram conversando. Tomaram um pingado, comeram um pão de queijo. A tristeza dos meses se fora para ambos. Não viam a hora do partir. Queriam os desvarios e as travessuras das noites eternas. Sentiram-se como partes soltas no mundo recém-encontradas.

Deixaram o passado e foram verdadeiros. Fizeram as perguntas e deram as respostas. E, juntos, jogaram tudo fora. Agora estão aqui, após tanto tempo, perto de mim, esperando juntos o trem na estação. Ambos chorosos.

- Estou te deixando pela última vez. Você acha que me ama, mas não… Você não me ama. Até aprender a amar, você tem que perder.

Só escutei, com o sax na mão. Não ousei interferir, pois eram os mesmos encantos e a mesma dor dos amores e dos dias passados no pátio da estação.

Foi-se… Os belos lábios ficaram sozinhos novamente, após tanta espera, após tanta procura, após tanto blues.

Mal sabiam esses lábios que o maior parceiro, o maior amor, estava logo ao lado. Com o sax na mão. Na espera, na escuta.

De tempos em tempos acordo com uma puta vontade de gritar, de declarar meu amor e minha saudade.

Ontem, e só por ontem, acordei pra ir até a velha estação.

Pensei nos amores que nunca tive, nas respostas que nunca dei, nos blues que nunca toquei, em todas as vidas e histórias que presenciei sem presenciar, sem ter e nem tocar da maneira que queria.

E hoje, e hipocritamente só hoje, não sei porque acordei bêbado e fumado.

Com o intuito de amar. Na esperança de também ser amado.

Pelos lábios, pelos ouvidos, pelos olhos…

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Livro de Cabeceira

Maio 6, 2009

Φ Capítulo 1 Φ

- 4ª Página – Soneto de Desanuviar -

Tudo mudou.
Nada mais está no lugar que estava antes.
Uma nova vida desabrocha na rua apinhada de bares, amores e boemias…

A xícara, o cinzeiro, os livros, os chapéus, os filmes, as fotos, a colcha, o quadro de avisos,
Até os amigos, os desafetos, os encontros e os desencontros,
Tudo e todos em seus novos lugares.

Agora acordo com preocupações a menos e responsabilidades a mais,
Principalmente comigo mesmo, com minha alma, com meus amores…

Realmente,
Valeu a pena ganhar o dia fazendo rimas de ontem,
Pois estou mais seguro de cantar as prosas de hoje,
Cogitando escrever os livros do amanhã.

Mas, agora…
E só agora…
Meu pensamento tem a cor do seu cabelo.

Espero.

Mas não sentado. E nem de braços cruzados.
Sou todo amor, sou todo afeto.

- Listas -

Cinco Vontades:

- Abraçar minha família e meus amigos.
- Sair pra beber e sambar.
- Comer um pote de Nutella.
- Beber vinho assistindo filme.
- Traaaaaaaaaaaansar!

Cinco Músicas:

- Girassol da cor de seu cabelo – Clube da Esquina (letra)
- Mercy – Duffy (letra)
- Segue o seco – Marisa Monte (letra)
- Cherry – Amy Winehouse (letra)
- Lover, you should’ve come over – Jeff Buckley (letra)

Cinco Filmes:

- Chicago – Rob Marshall (torrent / wikipedia)
- Hair – Milos Forman (torrent / wikipedia)
- Kill Bill – Quentin Tarantino (torrent / wikipedia)
- Closer – Mike Nichols  (torrent / wikipedia)
- A liberdade é azul – Krzysztof Kieslowski (torrent / wikipedia)

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Filosofias de um cagão…

Maio 5, 2009

cagao

Acordei cedo. Quase não dormi a noite toda.

Estava com o c* na mão.

Lavei o rosto meio assustado, limpei bem a boca com a escova de dentes, passei o fio dental, anti-séptico bucal, gargarejo. Ainda assim a gengiva sangrava sem ter nem saber.

Deu aquele frio na espinhela. Um medo da porra de ser coisa séria.

Fui quieto pra caminhonete pra não deixar transparecer o nervosismo. E fiquei quieto quase a viagem toda, só pensando em que daria aquela visita ao médico.

Tudo passou rápido demais. A estrada, os motel, a escola onde estudei, a praça onde sentava pra ler… Quando vi já estava na sala de espera do otorrinolaringologista.

Não sei porque tinha tanta criança naquele consultório! Pelo amor de Jah Rastafarah! Hoje em dia não se pode ter um momento de drama na vida sem barulhos incômodos de pessoas felizes?! Ainda por cima eram pessoas felizes  que seguravam bebês rechonchudos, remelentos e risonhos!

Minha mãe conhecia uma das mães felizes. Conversou, conversou, conversou e nem me viu ser chamado pelo médico.

Andei meio troncho pelo corredor, como quem faz gracinha em momento sério pra descontrair com o próprio destino.

Sentei na cadeira e, quando dei por mim, estava frente a frente a um senhor de cabelos brancos, cara de nordestino e óculos preto fundo de garrafa. Quase gargalhei enquanto estendia a mão pra cumprimentá-lo.

Repentinamente me esqueci de tudo que me afligia. Passados dois minutos de perguntas corriqueiras, o nordestino cego de cabelos brancos diagnosticou rinite, amidalite, desvio de septo, gengivite intermediária e cistos glandulares. Nada que não pudesse ser tratado com facilidade, segundo ele.

Receitou uns quatro remédios, escovação correta, enxaguatório bucal constante. E aqueles conselhos de sempre.

Saí da sala tão risonho quanto as mães com as crianças a tiracolo.

Engraçado como dez minutos acabaram com uma preocupação de quatro meses. Engraçado como o medo de não pertencer mais a este mundo faz a gente mudar nossas concepções em relação à vida que levamos.

Depois de dez minutos no consultório das mais pessoas risonhas e fofas do mundo, decidi ser mais sincero comigo mesmo, mais saudável e um pouco menos medroso.

Já se passaram duas semanas desde então e acho que ainda não cumpri com nada do que me auto-prometi. Mas, de tudo, penso que valeu a pena passar por tudo isso, pois já escrevi esse texto, tomei uma dose maravilhosa de cachaça pra agradecer o santo e acabei gastando toda a filosofia de buteco que tinha armazenada só pra repensar com mais sinceridade e carinho por onde andava minha vida.

No mais, me sinto mais leve.

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café. cigarros. miçangas.

Maio 5, 2009

senhora-cafe

Chorou em demasia. Por alegria, por tristeza, por amor, por dor. Chorou em demasia por saudade!

Respirou fundo. Encheu os pulmões de coragem. Expirou as angústias. Limpou as lágrimas com o antebraço esquerdo e levantou abruptamente, como quem decide de ímpeto correr atrás de algo que deixou pra fazer de última hora.

Certa dos desejos que a corroíam e tentada a provar das delícias de novos cálices, pegou a malinha vermelha de cima do pequeno guarpa-roupas de duas portas…  Colocou nela cinco vestidos, algumas roupas de baixo, os saiotes, os vidros de perfume e o álbum de fotografias.

Pegou também a caixinha de madeira com grades de ferro e colocou a gata siamesa pra dentro, ainda dormente.

Finalizadas as arrumações, foi tomar a última chuveirada na casa que a abrigara durante 50 anos. Tirou toda a roupa, adentrou o box de plástico quebrado, ligou o chuveiro, bem quente. Abaixou a cabeça com se tomasse a primeira comunhão. Levantou-a lentamente, sentindo a água escorrer pela nuca, pela face, pelas rugas do corpo.

Tocou-se.

Sentiu os lábios, o pescoço, os seios, os poucos pêlos pubianos…

Empertigou-se de uma sensação orgásmica que há muito não sentia.

Arrepiou-se.

Sentiu uma frieza na testa. Os pêlos se arrepiaram.

Parou por aí. Tinha medo. De trair seus sentimentos pelo homem que amou durante toda a vida, apenas para satisfazer os desejos juvenis do dia anterior. Pensava no garoto do posto de conveniência. Na fumaça do cigarro. Imaginava-o nu enquanto se tocava. Era parecido com Salvador quando se conheceram. Até no jeito de fumar. Segurava o cigarro em um movimento de pinça com os dedos. Assoprava a fumaça de olhos fechados, com a cabeça pro céu, voltando-a para baixo quando a fumaça acabava de sair, abrindo os olhos lentamente, logo em seguida.

Não considerou justo trair a alma do amado. Não achou justo consigo mesma trair os desejos que sentia.

Simplesmente parou e saiu do banheiro. Nua e ainda molhada.

Secou-se no quarto, colocou o vestidinho azul, o colete de lã branco, os sapatinhos vermelhos… Perfumou-se com três borrifadas de seu melhor perfume francês.

Pegou a mala e a caixa de madeira da gata, passou tremendo pela porta envernizada, trancou-a, andou lentamente pelo corredor de piso cor-de-rosa, abriu o portão de grades verdes e saiu.

- Vai aonde nesse chiquetê, Dona Ida?!, perguntou a vizinha.

- Vou visitar uns parentes na roça, minha filha, respondeu.

Mal sabia a pobre vizinha que nunca mais veria a velha senhora de cabelos curtos e rostinho angelical de professora de primário.

Hilda estava mesmo de ida.

Rumo à terra azul, da cor de seu vestido. Terra onde os girassóis eram da cor dos cabelos de seu amado e as estrelas eram de mar, enternecidas pelo vento solar das três da manhã…

Leia ouvindo O girassol da cor de seu cabelo, do Clube da Esquina. Uma homenagem à nova vida de Dona Hilda…