Arquivo de Abril, 2009

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Conversa de desamor

Abril 25, 2009

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Para ler ouvindo Jeff Buckley.

Olhando pela porta vi a chuva cair sobre as casas, sobre os pratos, sobre as roupas, sobre a rua toda, sobre todo o caminho. Um certeiro, outro matreiro.

- Por que não podemos transpor esse muro?

- Você não me conhece bem.

- Deixa conhecer…

Cara fechada. Olhos baixos. Lábios de reprovação. Nada feito. Sintomático…

- Algumas vezes um homem não pode suportar o peso em suas costas.

- Podemos carregar juntos.

- Pra que, se você sabe que não tem ninguém na vida?

- Tem a mim…

Cabeça em movimento negativo. Olhos entreabertos direcionados pra cima. Sinal de cansaço. Preguiça mental. Insuficiente…

- Meu reino por um beijo, todo meu sangue pela delicadeza de seu sorriso.

- Isso nunca vai dar certo. Você não vê? Somos di-fe-ren-tes!

- E a diferença não edifica? Me proponho a tentar… E você?

De pé. Na casa. Na porta. Na rua. No caminho. Em tantos caminhos. Longe.

Muito jovem pra seguir em frente com um amor, muito velho pra quebrar o muro e correr. Muito fraco pra carregar o peso que acumulou, muito cego pra ver a cagada que fez.

Então eu espero por você. E queimo. Por fora, por dentro, pela porta, pela casa, por toda a rua, por todo o caminho.

Louco por amor, sem ter como alimentá-lo.

Mas talvez não seja tão tarde. Como diria Jeff, Lover, you should’ve come over…


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Água de aguardar

Abril 8, 2009

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Queria ser como um bom vinho… Saboreado, apreciado, servido em ocasiões especiais. Claro que, vez ou outra seria cuspido por enólogos em degustações finas. A cuspidinha é até charmosa! A depender, claramente, da boca de quem degusta.

Às vezes me sinto como a cachaça mais vagabunda de um bar copo sujo… Quente, àspero, venenoso. Servido como narcótico a uma boca cansada de beber. Isso nada tem de charmoso. Na verdade, é um tanto quanto angustiante, independente da boca que entorna o líquido que desce rasgando goela abaixo.

Poderia até ser como água… Pra ser benzida por pecar, pra derramar do copo quando desfalecer, pra matar a sede quando ofegar, pra vaporizar e sumir quando necessário. Pra subir pro céu, pras nuvens, transformar-se em gota de chuva e voltar à terra. Novo. Renovado.

Mas sou mais ou menos como água empossada. No esquecimento dos pneus, nas pegadas cheias de lama, nos xaxins e vasos de plantas. Devo ter larvas de um mosquito transmissor, prontas pra eclodir.

Acho, na verdade, que por enquanto sou água de aguardar. Onda me levar. Semente de mar. Grão de navegar.