
Para ler ouvindo Is you is or Is you ain’t my baby, de Anita O’Day. (Não tem? Youtube! Vá ouvindo daí que eu ouço daqui…).
Passava sempre apressado pelas ruas, pra lá, pra cá, por todo lugar, não sabia ao certo pra onde ou por onde olhar, só sabia da esquina da sorveteria: o momento mais esperado da caminhada do trabalho pra casa, da casa pro trabalho.
Sempre avistava pessoas interessantes com aquela destreza sensível e aquela possibilidade aventureira, apesar de um tanto quanto remota (devido ao formato enviesado das paredes do estabelecimento gelado), de ser notado dando aquela olhadinha mais maliciosa pras partes que mais cabiam ser olhadas nas pessoas interessantes. Isso, de uma forma ou de outra, o alegrava: flertar silenciosamente com seres humanos estranhos ao seu universo de relações.
Era mais ou menos assim: avistava da esquina as pessoas que vinham pela calçada da sorveteria; se visse alguém interessante vindo, espera um pouco para atravessar a rua, andava um pouco mais devagar até chegar à calçada paralela e, através das paredes enviesadas da sorveteria, olhava pra alguma parte bonita ou engraçada do corpo de alguém.
Geralmente os alvos do assédio não reparavam na malícia de seu olhar matreiro. Aliás, não sabia se havia sido flagrado alguma vez. Nunca tinha olhado nos olhos de ninguém. Afinal, tem tanta parte do corpo interessante pra se olhar! Quem, em sã consciência, ficaria olhando pra olho? Pra peito, bunda, coxa, braço, boca era uma coisa. Joelho, pé, cotovelo, unha do dedão, podia ser até engraçado. Mas olho? Não tinha graça nenhuma!
Mas era isso que acabava achando engraçado: a falta de pureza e o excesso de malícia. Uma malícia um tanto quanto inocente nos dias de hoje, mas ainda assim uma malícia considerável. Toda ela concentrada na mente, pois nunca havia falado pra ninguém sobre suas olhadelas sacanas pela calçada da rua direita.
Pensava às vezes se as pessoas faziam a mesma coisa. Criar estratagemas pra observar o próximo. Aliás, as partes do próximo! Ainda por cima, próximos que nem tão próximos eram. Um monte de desconhecidos que se aproximavam do ponto estratégico, coordenado, calculado, fisicamente aprovado e comprovado pela noção óptica do olhar vouyer. Só isso. Nada mais.
Pensava nisso enquanto andava pela rua. Distraído feito uma porta… Parou instintivo na esquina, mas se esqueceu de olhar pros lados. Quase foi atropelado. Sorte ter percebido o carro à tempo e se jogado pra cima da calçada da outra rua, em frente à sorveteria.
Foi acodido por alguém, que pegou em seu braço, um tanto quanto deslocado. Antes de gritar um Ai!, olhou pra ver quem era. Dessa vez não teve como. Olhou nos olhos da boa alma.
Apaixonou-se momentaneamente.
Depois disso, deixou as olhadinhas de lado. Não precisava de outras pernas, bundas, coxas, peitos, braços, joelhos, pés e unhas do dedão. Encontrava-se em estado mórbido de paixão arrebatadora e nada podia ser melhor que vislumbrar todos os dias, após o trabalho, aqueles olhos castanhos que o fitavam de longe, esperando por ele na esquina da sorveteria.
A paixão um dia acabou entre os dois, como tantas outras que vieram depois e depois e depois e depois e depois e depois. Mas aprendeu algo importante: os olhares nem sempre trazem as sensações que desejamos, mas podem nos trazer desejos conhecidos e desconhecidos. Tudo um tanto quanto inusitado, no final das contas.
Cafona isso, né?
Riu sozinho enquanto tomava o cabernet, fumava o cigarro de palha e refletia sobre isso tudo. Acompanhado por todos os olhares que passaram por aquele quarto. A maioria de alegria. Graças a Deus!
Por fim, agradeceu não somente à Deus, mas também à maldita sorveteria, que fez com que um cético dissesse eu te amo pela primeira vez na vida.
Deu uma puta duma gargalhada!
- Sorveteria filha-de-uma-puta-mal-paga. Mas entre, entre, vá entrando. Veja e participe. Sorveteria Vouyer à disposição.
Adendo pós-texto: veja também a versão do desenho Tom e Jerry pra música Is you is or Is you ain’t my baby. Tom todo piriguete pra cima da gatinha branca! Não tem muito haver, mas é um saudosismo bacana mesmo assim…