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Alerta Azul

Outubro 30, 2008

Ruas cheias de bêbados, putas, mendigos e merda, exalando suor, sujeira e fumaça dos becos escuros, umedecidos, lotados de lixo, poeira e desencanto. Na cidade esquecida por Deus e tomada por Marias Madalenas, eu andava em direção à casa amarela, de olhos redondos e boca de espanto, em forma de U invertido. Procurava por aquela alma perdida. Não que ela quisesse ser encontrada, pois nada-nem-ninguém-no-mundo podia prever ou sentir o que ela, a tal alma perdida, queria. Aliás, nem ela podia.

De todos os loucos possíveis de se encontrar pelo caminho, acabei encontrando Berenice, que logo começou a falar, falar, falar, falar e não parava mais. Sabe o que aconteceu com a Marina? Foi espancada pelo namorado no fim-de-semana. Meniiiiiino! Na hora que vi ela com aquele monte de marca pelo corpo fiquei loooooouca, totalmente de-sa-cre-di-tá-daaa! E o Marcinho? Viu ele na festa da semana passada? Tava nos mó amasso com aquela vadia da vizinha do Léo! O pobre coitado deve ter ficado a-ba-la-dís-si-mooo! Eu também ficaria, na situação dele. Tadinho do Lé…

A voz de Berenice foi ficando mais e mais distante, entrava por um ouvido saía pelo outro, eu só concordava com a cabeça pra não chatear a Berê, senão ela me chatearia ainda mais, brigando comigo com aquela voz estridente. E a essa hora da madrugada! Deu uma vontadezinha de desistir dessa procura maldita, desse desencontro inusitado. Mas não… Precisava encontrar, nem que fosse pra brigar um pouco, sair batendo as galochas e fazer as pazes lá pelo meio-dia, quando acordássemos. Estava preocupado. Fazia tempo que não dava uma bola fora como essa. Sair assim, no meio da madrugada, sem ter nem saber, ficando a mercê dos velhos e novos malucos que perambulam por aí. Não, não podia uma coisa dessas. Sem ao menos me avisar! Tudo bem que eu estava dormindo, mas num tem esse direito não, puta-que-pariu.

Sem perceber passei perto de uma casa velha, com aquelas paredes cheias daqueles arbustos feios grudados. De súbito parei. Deu vontade de parar, ué, fazer o que?, dei aquela olhadinha disguei pra lá,  pra cá, pra dentro da casa… Parecia abandonada. Vi que o portão estava aberto e entrei. Tinha até esquecido de Berenice, que já estava quase a um quarteirão na frente, falando freneticamente com um outro cara. Devia estar tão maluco quanto ela. Mas, então, entrei na casa.

Subi umas escadinhas de cimento avermelhado de cera e logo cheguei a uma sacada com o piso todo quebrado. As paredes estavam encobertas de leve por um musgo comum em lugares com inflitrações. Na varanda tinha algumas imagens de paisagens pintadas, emolduradas com uns pedaços descascados de madeira envernizada. Diferente…

Saí logo dali, pois aquela casa velha estava começando a me dar arrepios na espinhela. Cruz-credo! Nem sei porque fui entrar nesse buraco de merda! Foi aí que aconteceu…

Uma borboleta passou na frente dos meus olhos, posou bem na pontinha do meu nariz e saiu voando em direção ao portão de ferro enferrujado. Gelei! Era um alerta. Um alerta azul, que deixou um rastro de luz azul no fundo da alma. Saí correndo.

Corri, corri, corri, corri, corri, atravessei uns quinze, vinte quarteirões correndo, cheguei em casa ofegante, suado, sujo, todo porco. Não acreditei quando vi. Estava ali!

- Como pode? Te procurei feito um idiota pela rua! Tava preocupado, caralho! Merda! Porra! Vai-tomá-no-seu-cu!

- Calma! Só fui comprar cigarro no bar aqui em frente, deixei até um bilhete na porta da geladeira, voltei, e você não tava mais aqui. Eu é que fiquei mal, seu bosta! E vê se pára de me xingar que eu já falei que não fujo mais. Tenho palavra.

No mais, o que restou daquela noite, foi um bom alerta. E umas ofensas que terminaram em beijos, abraços  e amassos.

À Kamilla, que mesmo sendo “má companhia”, me apresentou Caio Fernando Abreu.

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