Arquivos para Outubro 28th, 2008

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Aqui, lá, em todo lugar…

Outubro 28, 2008

Antes-antes-antes de ontem queria dançar. Coloquei a camiseta verde, o casaco cinza, o jeans preto, o tênis laranja e fui pra São Paulo. Escutei Madonna, Boy George, Mama Cass, Amy e tudo mais que queria, devia e podia.

Antes-antes de ontem queria enlouquecer. Coloquei a camiseta branca, o colete marrom, o jeans amarrotado, o all-star verde e fui pra Inglaterra. Escutei Pink Floyd, Beatles, Stones, Led, Doors e tudo mais que queria, devia e podia.

Antes de ontem queria sambar. Coloquei o panamá, a camisa xadrez, o jeans rasgado, as sandálias trançadas de couro e fui pro Rio de Janeiro. Escutei Jorge Ben, Simoninha, Chico, Clara, a Velha Guarda e tudo mais que queria, devia e podia.

Ontem queria o blues. Coloquei a bata indiana, o terno xadrez azulado, o jeans novo, os sapatos de couro de pelica e fui pro puteiro mais próximo, na França. Sentei sozinho na mesinha redonda, pedi o doze anos, fumei um cigarro. Escutei Dinah, Ella, Billie, Cephas, Wiggins, Medeski, Martin, Wood e tudo mais que queria, devia e podia.

Ontem queria me acalmar. Coloquei a camiseta de eleição, a calça de moletom e fiquei em casa. Tomei um copo d’água em frente ao computador, enquanto escrevia alguma coisa. Escutei Elis. Pensei trabalhos. Recordei amigos. Vislumbrei possibilidades. Caí no sono…

E acabou que ainda não escutei tudo que queria, devia e podia.

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café. cigarros. miçangas.

Outubro 28, 2008

O dia raiou.

Os sonhos da noite deram lugar aos desgastes do dia.

Como sempre, acordou às cinco e meia da manhã, preparou o café e comeu um pedaço de broa de milho com erva-doce.  Como sempre, o radinho a pilha estava ligado. Como sempre, a gata entrou miando pela porta entreaberta e, como sempre, Hilda encheu a cumbuca com leite.

Sentou-se na banqueta em frente ao pé de jabuticaba e apreciou os primeiros raios de sol da manhã. Começou a pensar nos filhos, que há tanto tempo não a visitavam. Pensou também em tudo que estava sentindo, principalmente nos últimos dois dias.

O ar sereno e as rugas de velhinha bondosa escondiam a aflição do pensamento. Na verdade, não sabia o que sentir. Queria fugir. Mas sabia, por experiência própria, que de nada adiantava ir para outro lugar, tentar uma nova vida. Tinha que fugir de si mesma. Encarnar outros personagens, colocar outras máscaras, vestir outras fantasias, talvez.

Mas, ainda assim, a cabeça quando deita no travesseiro, continua a vislumbrar o passado. Tudo retorna, tudo faz parte novamente. A viagem de fuga não se completa. Fica limitada às máscaras, às fantasias, aos personagens, pensou.

As tantas fugas e o pesar das rugas foram interrompidos por Cartola. O som do rádio passou pela porta da cozinha, percorreu o corredor de piso vermelho e vinha bater forte em sua mente, em sua face, em seu coração.

“Deixe-me ir, preciso andar, vou por aí a procurar, sorrir pra não chorar”.

E Hilda chorou.