Venho da água suja, que vem do mar, que cai da torneira, que vai pro ralo, que entra no copo, que passa pela garganta, que mata a sede, que purifica a alma, que vem do céu… A água, a alma, a lama, a calma!
Venho daquele bloquinho de notas malacabado, quem vem do bolso de qualquer um, que corre por mãos alheias, que serve de rascunho aos livros de cabeceira, que escreve e reescreve as páginas do desencanto. Jogado em algum canto, que o John e a Yoko cantam, caçam, catam e jogam fora de novo.
Venho das imagens envelhecidas em celulóide, que rodam nos filmes de Fellini, que correm pelas cores de Almodóvar, que vislumbram a rosa púrpura do Cairo, que cobiçam a dor e a delícia dos moradores de Belleville, que devoram os campos de morangos silvestres, que vivem eternamente na efemeridade dos olhos de Bergman, que picham os muros com Banksy, que correm pelos canteiros de flores da Art Nouveau, que sentem o arrepio da tela branca que se incendeia ao calor dos olhares no escuro. Rolos de vida perdidos em um galpão abandonado.
Venho dos sorrisos de transeuntes desconhecidos, que andam desordenadamente pela rua, que conversam sobre a disposição cotidiana das coisas do mundo, que debocham da própria existência com a fuga do real, que procuram nas interfaces mundanas a formação do caráter tradicional, que pescam o olhar mais malicioso do flerte, que bebem do vinho seco e fumam do paiol de carapiá toda a essência da noite. Buscando nela a luminosidade do dia.
As pequenas coisas, assim como eu, vem e vão. Estreitam o vão da porta e escorrem pela parede, mas não são em vão.
Afinal, cada passo tem sua importância e seu significado. E cada carta jogada, por mais errada que seja, tem sua esperança guardada, seu arrepio na espinha, seu pingo de beleza.

