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Desencontros

Setembro 14, 2008

Andava pelo centro da cidade, pelo lado esquerdo do calçadão. Com o tempo meio fechado, tirei os óculos escuros. Decidi fumar um cigarro na praça pública.

Faces e mais faces se aproximavam… Afastando-se lentamente. Senhores apressados, senhoras indo trabalhar, jovens exercitando a rebeldia, hippies vendendo penduricalhos. Todos desajustados como eu. Todos sujeitos às mesmices da pós-modernidade.

Tudo calmo, até quando ouvi algo saindo do fone de ouvido: “You know the sun is in your eyes”.

Quase que misticamente o céu se abriu e as nuvens deram lugar ao todo poderoso astro. Concretizara-se a frase. O sol bateu, os olhos ofuscaram a luz. Senti um leve arrepio, que fez com que os pêlos do braço ficassem ouriçados.

Logo pensei: “Será que o restante se concretizará também? Alguma escolha? Alguma voz para seguir?”

Acreditei com alguma esperança que, após contornar a esquina que dava para a praça, encontraria um grande amor. Porque? Porque pensei logo em encontrar um grande amor? Poderia ter pensado em alguém que me desse um emprego melhor ou em alguém que há muito não via, mas não.

Cada passo até a esquina se arrastava como um peso preso aos pés. Era o medo. De não encontrar nada, nem ninguém. Mesmo assim continuava caminhando. Queria saber onde essa pretensão me levaria.

Quando cheguei, não me lembro do que ou de quem eu vi. Acho que vislumbrei tantas possibilidades de encontros, que acabei me esquecendo de perceber quem apareceu logo de cara na esquina.

Depois de comprar o maço de cigarros, sentei num banco da praça, próximo a uma árvore que acabara de ser podada. Comecei a pensar em todas as pessoas que gostaria de encontrar naquela esquina. Fui rememorando algumas possibilidades e trazendo à tona muitos alguéns que atravessaram meu caminho e fizeram alguma diferença durante a jornada. Só esses pensamentos me renderam três cigarros e meia hora de reflexão.

E por mais que o restante da música não tenha se concretizado da maneira como eu havia cogitado, penso que esse foi um daqueles bons momentos da vida. Mostrou-me que, mesmo no meio de tanta gente, tantas caras e bocas, tanta correria, tanta pós-modernidade, é possível ter uma pequena epifania. Uma pequena parcela de sonho. Um pequeno vislumbre do que a vida pode ser.

Depois disso, parece que acordei e voltei a ser o mesmo.

Mas a história ficou.

E isso é que é bonito. E engraçado. E bom.

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