Arquivo de Setembro, 2008

h1

café. cigarros. miçangas.

Setembro 23, 2008

Acordou abruptamente, às três da manhã, com as costas doendo. Pensou ter ouvido alguém, na verdade, um som bastante peculiar: Salvador usando o urinol durante a madrugada…

Sorriu sem perceber. Refletiu um pouco e logo soltou uma gargalhada. Como é que um barulho tão grotesco, que a incomodara tanto durante a vida toda podia lhe trazer tamanha nostalgia a essa hora da madrugada a ponto de fazê-la acordar?

Essas pequenas recordações eram realmente engraçadas para Hilda. A cada dia percebia uma nova resposta a uma antiga lembrança. Uma alegria, um sorriso em alguma tristeza. Era como um estímulo para declarar ao mundo sua saudade. E esse “declarar-se” era necessário, nem que fosse às paredes, aos móveis ou à gata. Uma forma de exacerbar as angústias, de extirpar alguns tumores.

Mas não era o bastante. Hilda necessitava o novo. Nada que por um assalto do passado se transformasse em alegria no presente. Nada disso! Precisava que a alegria da infância e que a rebeldia da juventude, somadas à garra da fase adulta, vertessem seu corpo senil a um novo caminho, a um novo processo.

Mas que caminhos suportaria uma senhora de 70 anos?! Quais fontes de saber ainda estariam abertas às suas mãos enrrugadas? E mais, teria ela forças para levantar as mãos até a boca e sorver todo aquele novo mundo que lhe entraria goela adentro?

O mundo pode ser cruel a novas perspectivas… Ainda mais para alguém que nasceu em um mundo tão diferente desse que vejo e sinto agora, pensou Hilda, enquanto se olhava fixamente no espelho do banheiro.

Interrompeu as sandices do coração. Colocou a camisola e deitou na cama, confortavelmente, na expectativa de que as dores nas costas passassem…

Mas… As costas não incomodavam mais. A cabeça doía. Na verdade, pesava. Só pesava.

Era a gata que miava. Era a azia do café. Eram as folhas de boldo que borbulhavam na chaleira. Era a fumaça de cigarro que rodopiava no ar. Era o som que vinha do urinol…

Era o tufão que abria a porta da frente, levando tudo que via, urrando à força de todos os ventos:

Cada ser tem sonhos à sua maneira. Vá logo! Pois daqui a pouco o dia vai querer raiar!

h1

Vejam como ela cai…

Setembro 22, 2008

Confusa, chora feito um bebê que acaba de nascer.

Ela ainda canta as músicas que tocaram sua juventude.

Recorda trechos dos livros que envolveram suas tardes numa mística tão particular.

Observa as fotografias em preto e branco que remontam seu passado, contando-o bem baixinho ao pé do ouvido do presente, para que o futuro, bisbilhoteiro, não possa ouvir.

As bicicletas correndo pela rua, os meninos com estilingues, as meninas com bonecas de pano.

O sabor da infância. O desapego do real. As coincidências, os acasos, os milagres…

Tudo tinha tanta importância! Era cada gesto, cada olhar, cada corrida, cada partida, cada uma daquelas tardes gastas “vagabundeando” pela rua.

Agora, nada mais tinha conexão com a vida que levava a bela bailarina. Os encantos eram outros. Os prazeres, tão oníricos quanto as reais vontades.

Num mundo onde tudo afeta e tudo faz parte, ela só queria as mesmas coisas que desejava quando tinha 12 anos. Dançar ao som do seu próprio rock n’ roll.

Cuidado para não cair em cena! Se quiser, pode segurar minha mão e vamos seguindo. Como Elton John…

Hold me closer tiny dancer.

h1

café. cigarros. miçangas.

Setembro 18, 2008

Seis da tarde. Os alto-falantes da igreja começam a tocar a triste Ave Maria. Hilda nem percebera que a azia havia passado.

Viu a siamesa, Bureca, pular o portão da casa. Era a única lembrança viva do passado que ainda continuava ao seu lado, morando sobre o mesmo teto, compartilhando as mesmas lembranças.

É, vagabunda, voltou da farra só pra comer, né?, falou sorrindo em voz alta quando viu os olhos azuis do animal quase em súplica.

Preparou o pão molhado no leite e colocou na cumbuca da gata, que logo afogou as mágoas da noite passada esbaldando-se no leite morno.

Hilda sempre gostou de gatos. De todos os animais domésticos que tinha conhecimento, achava os gatos os mais livres. Perambulavam pela noite sem ter nem querer, instintivamente. Marcavam o caminho na procura de outros gatos, companheiros pra todo tipo de artimanha e, ao seguirem os rastros no dia anterior, conseguiam retornar ao lugar de origem, onde uma bela cumbuca de pão com leite os esperava…

Quem dera fosse assim com os seres humanos, pensou. Mas não é que pra alguns isso funciona! O problema é que, com os humanos, existe o perigo da decepção, do sorriso que pode não existir em retribuição ao olhar de súplica…

Deitada em seu colo, pôde sentir o ronronar da gata. Era como um hino. Como um descanso para tanta liberdade. Dedicado a todos aqueles que foram deixados pra trás. Descompassado, feio, mas cheio de carinho.

Ainda ouvia a palavra e os cânticos da igreja no rádio a pilha, quando foi descansar as costas nas almofadas do sofá. Adormecia lentamente, mas podia ouvir a voz do locutor ao longe recitar o Salmo 77.

Clamei a Deus com a minha voz, a Deus levantei a minha voz, e ele inclinou para mim os ouvidos…

Hilda precisava não só de ouvidos, mas de mãos, pés, braços, vozes… Liberdade.

h1

Um homem e sua missão

Setembro 17, 2008

- Precisa de permissão?

- Pra fazer o que?

- Não pra fazer, mas pra ser.

- Como assim? Ser? Ser o que?

- O que se quiser ser!

- Acho que não precisa de permissão nenhuma pra isso, não. Por que, o que gostaria de ser?

- Um astro do rock. Como Jim, David, Lou, Mick, John, Paul, Raul… Sei lá!

- Mas aí precisa ter dom.

- Quem permite que a gente tenha dom? Quero poder ter um igual pra mim.

- Dom não se pede, menino. Você nasce com ele. E quem são esses caras que você falou?

- Não importa, quero um dom!

- Pra que quer tanto ser um astro do rock? Tem tanta coisa boa pra se fazer da vida! Só gente maluca se aventura por essa vida de artista.

Mal sabia o pai que o filho tinha se tornado um maluco beleza muito antes de ter tais vislumbres. Coitado! O garoto queria ser e o fazer por fazer não o satisfazia. Aliás, não satisfazia, não satisfaz e nem deve satisfazer ninguém.

Mas deixa pra lá. Coisas de menino novo.

h1

café. cigarros. miçangas.

Setembro 17, 2008

Perto da esquina da Rua Dom Pedro, sentiu que o café não batera muito bem.

Em frente à casa rosa-desbotado com portões de grades verdes, avistou os canteiros de rosas e o caminho vermelho de piso batido. Entrou pela portinhola, atravessou o caminho, olhou ao redor da varanda com quatro cadeiras, uma de frente pra outra, e tentou enfiar a chave na porta. Emperrada novamente.

Já tinha xingado uns três palavrões em italiano, quando resolveu chamar um dos meninos que jogava futebol na rua para ajudá-la.

Com certa facilidade, o garoto de oito anos abriu a porta de madeira envernizada. Antes, era o Salvador quem abria a porta. Sempre fazia aquela cara de quem comeu e não gostou, mas sempre abria. Quanta falta fazia a cara brava do seu gordinho!

Foi direto para o canteiro dos fundos, onde havia plantado o boldo. Pegou algumas folhinhas, colocou o velho avental branco, do qual nunca se separava, a não ser pra sair pra rua, e começou a fazer o chá.

As folhas macias, parecendo veludo, borbulhavam na água. Pareciam fazer o mesmo movimento da fumaça do cigarro de filtro amarelo que o rapaz, sentado na mesa ao lado da dela no posto de conveniência, fumava enquanto olhava pra xícara de café.

Logo pensou: Quanta sandice! A fumaça vai pra cima, as folhas vão de um lado pro outro.

Coou o chá, sentou com a xícara na varanda que dava pra rua e, enquanto observava os meninos jogando bola, cogitou a possibilidade de dar uns tragos no cachimbo, mas ainda estava com azia por causa do maldito expresso. E o trevo tinha acabado.

Ficou ali, quieta, sentada com as pernas arqueadas, tomando o chá de boldo.

Parecia esperar que alguém entrasse pela portinhola. Um dos filhos, uma das vizinhas, um dos moços que entregavam papéis com as promoções do supermercado. O pessoal da Folia de Reis. O Salvador.

- Hilda, pega minhas botas, por favor. Vou pescar hoje, com o Zé.

Há alguns anos já não ouvia essa frase.

Quanta vontade! Quanto desejo! Quanto pecado! Quanta lembrança!

Por enquanto, tudo passado…

h1

café. cigarros. miçangas.

Setembro 17, 2008

Sentou para tomar um café. Comia aos beliscos. Olhava para o nada.

A única coisa à mesa do posto de conveniência era a pequena bolsinha laranja feita de miçangas coloridas.

O olhos mal apareciam ao fundo dos óculos de grau. Com aros grandes, pretos, de plástico.

Pegou a sombrinha dependurada na cadeira, pagou a conta e saiu.

O que pensava a velhinha miúda, de cabelo curtinho, com ar franzino de professora de primário?

Lembrei de The Great Gig In The Sky.

Talvez ela estivesse pensando nisso também…

“E eu não estou com medo de morrer, a qualquer hora pode acontecer, eu não me importo. Porque estaria com medo de morrer? Não há razão para isso, você tem que ir algum dia.”

“Eu nunca disse que estava com medo de morrer.”

Talvez não. Provavelmente não. Será?

Nunca vou saber. Não sei.

Só sei que quando ela saiu pela porta de vidro, percebi que estava na mesma posição que ela. Tomando um café, olhando pro nada. No lugar da pequena bolsinha, o maço de cigarros. No lugar da sombrinha, meu bornal.

Ela, preocupada com a chuva, eu, com todas as elucubrações disformes escritas em papéis, dentro do bornal.

O que será que ela pensava?

Como eu, no passado.

h1

Por terras planas

Setembro 15, 2008

A chuva cai duramente. Chega a queimar.

Respire. Sinta. Ame. Liberte. Vai! Atravessa o muro. Entra pela porta e vai!

Os lugares estão postos à mesa. As bocas famintas. Todos que tocaram sua vida de alguma forma estão em seus devidos lugares, apreciando os  belos tomates cozidos em pratos de porcelana ao centro do tablado. Basta saber se irão simplesmente comê-los,  ou se irão alvejá-los indiscriminadamente. Afinal, o prato principal está por vir. Mas para que esperar? Ataquemos com voracidade! A vida está aí, garoto. Take a walk on the wild side!

Mas, um porém. É sabido que, para sermos livres, devemos deixar pra trás uma pequena parte de nós mesmos.

Para Hedwig Robinson essa prerrogativa é bastante verdadeira. Deixou a pátria, a mãe, o membro sexual masculino e uma trilha de Gummy Bears pelo caminho. Levou consigo os sonhos, as dúvidas e a vontade de amar… O novo lar, a pequena cidadezinha de Junction City, no Kansas, demonstrara-se demasiadamente cruel para o afeminado jovenzinho franzino da velha Berlim Oriental.

Wicked Little Town

Mas o que Hedwig procurava de tão importante para deixar tudo pra trás? Para que se arriscar do outro lado do muro? Que ânsia é essa de experimentar o lado selvagem da vida? Vontade profana de provar o gosto do poder?

Não são necessárias respostas. Importantes são os questionamentos.

Acho que é um pouco disso que John Cameron Mitchel, diretor de Hedwig and The Angry Inch (2001), procurava. Questinamentos. Sobre o amor, sobre o sexo, sobre a vida que se leva e aquela que se busca. Questionamentos sobre aquilo que realmente vale a pena. Mas o que é que ainda vale a pena hoje em dia?

Encontrar-se… Para Hedwig vale a pena o “encontrar-se”. Não apenas para se auto-afirmar perante todos aqueles que passaram por sua vida, nem para simplesmente dar um basta às mãos que alvejaram os tomates outrora, mas para ser livre.

Mas o que significa “liberdade” na sociedade em que vivemos?! Poder ir e vir? Poder expressar-se?

Como diria Clarice Lispector, liberdade é pouco, o que eu desejo ainda não tem nome.

E, ao que parece, para Hedwig esse sentimento é tão grandioso, tão forte e tão pesado, que não há possibilidade de verbalizá-lo. Muito menos descrevê-lo com exatidão, sem rodeios linguísticos ou expressões fadadas à subjetividade poética. É como andar por uma Terra plana, onde podemos ver o que nos espera no horizonte. É como olhar para as nuvens feitas de fogo, onde os astros dançam à volúpia do infinito. É como olhar para trás e perceber que não se está sozinho no mundo.

The Origin Of Love

Mas a Terra é redonda, as relações verticais, o horizonte não tem fim, o céu é feito de um gás rarefeito. A chamas apagaram-se. Resta-nos a procura. Resta-nos a sorte. O amor. Resta-nos encontrar esse amor, que está perdido pela imensidão das coisas. Perdido pela grandiosidade da fúria divina.

Encontrar o amor! Vejam o tamanho clichê a que nos atiramos aqui, senhoras e senhores!

Esse encontro com o amor não seria uma forma de nos encontrarmos também? Encontrar nossa outra metade? Encontrar maneiras de completar aquilo que se encontra vazio?

Não sei responder, pois assim como tantos/as outros/as Hedwigs que vagam pela Terra, ainda não encontrei nada. Nem sei se vou encontrar. Só sei que, se essa é a nossa possibilidade de brilhar, como a mais alta das estrelas, sigo tentando, por mais doloroso que isso possa ser.

Midnight Radio

No mais, encerro aqui a transmissão da meia-noite. E espero encontrar a saída do beco. In your arms tonight.

Dedico à Talita, ao Raul, à Bel, ao Fred, à Thaís, à Djani, à Fabi, à Kamila e a todos que tocaram minha alma e mudaram meu caminho… Um brinde. Independente de onde estiverem, terão sempre um lugar à minha mesa. E no meu coração.

∞ Mais informações sobre o filme:

Hedwig and The Angry Inch pela Wikipedia
Site Oficial de Hedwig and The Angry Inch
Notas da Produção de Hedwig pelo Web Cine

∞ Para baixar o filme:

Torrent do Hedwig and The Angry Inch pelo Isohunt

∞ Para baixar a trilha sonora:

Trilha Sonora de Hedwig and The Angry Inch pelo Rapidshare

h1

Preparando o caminho do senhor…

Setembro 14, 2008

Horário mais apropriado não há. Cinco da manhã. Insônia.

Essa hora me lembra a primeira vez que assisti o musical Godspell (1973), numa sessão um tanto quanto inusitada do Corujão.

Nunca pensei que uma releitura contemporânea do Evangelho de Matheus pudesse me emocionar tanto. Mas foi assim, com a vontade do Todo Poderoso, que Stephen Schwartz e John-Michael Tebelak, diretores do filme, conseguiram trazer à minha mente “fechada” até então ao cristianismo, elementos de tanta beleza e carinho.

Já havia ouvido diversas vezes, tanto nos encontros do catecismo quanto nos da crisma, que “Jesus é amor” e que “Deus é vida”, mas nunca nenhum professor-devoto conseguiu me fazer acreditar nessas frases com a vivacidade necessária para abraçar a bondade cristã e,  então, torna-me minimamente um católico apostólico romano não-praticante, como muitos que existem por aí.

Essa relação de amor e ódio com o catolicismo perdurou durante todo minha infância e adolescência. Não conseguia (e creio que ainda não consiga) compartilhar vivências embebidas de um sentido religioso dentro de um templo fechado, com tanta gente alheia à palavra, mas interessada na estética, no modo de vestir, no modo de andar, de falar, de orar e de amar do próximo. Estigmas da pequena cidadezinha onde vivi até meus 17 anos. Estigmas de tantos outros templos de madeira e pedra, ornados em mármore, com belos vitrais e imagens perfeitas de santos que muitos conhecem, mas poucos sabem os feitos e milagres.

Essa relação com o espaço me encanta no musical, pois todo o trajeto de Jesus, as parábolas, os ensinamentos, são trabalhados nas ruas de Nova Iorque, através do teatro, da música, do gesto, do olhar… Elementos que faziam falta nas aulas de catecismo e crisma.

All for the best

Não há como passar despercebida a relação entre Jesus Cristo, o salvador, e Judas Iscariotes, o traidor, no decorrer do filme. O contraste e, muitas vezes, a inversão de valores de uma figura religiosa para a outra são latentes, ao mesmo tempo que nos mostra tanta vida e tanta pureza, que acaba tornando os personagens da história mais humanos.

Humanos no sentido de que, por mais da divindade, existe ali, tanto em Jesus quanto em Judas (assim como em todos os outros personagens), um coração que bate, uma mente que vive a contradição do dia-a-dia, corpos que coexistem e sabem que cada um tem sua tarefa no mundo, que cada um tem uma cruz particular, e até mesmo íntima, a carregar. E que o trajeto, para ambas as partes, é doloroso, sendo você o salvador ou o traidor da história.

By my side

Sentir toda essa vida, toda essa idéia de caminho a ser seguido e, principalmente, sentir que Deus é um cara solidário e cheio de amor, que pode nos aceitar como somos, apesar de todos os nossos problemas, são outros elementos que faltaram à minha formação religiosa.

Mas não vou me lamentar por não ter seguido as pegadas na areia. Contento-me em acreditar que uma força maior (podemos chamar de Deus, tá bom?!) nos ajuda a seguir os belos e dolorosos caminhos da vida e que Jesus era um cara bacana, mas, acima de tudo, era um ser humano.

No mais, vou seguindo sem uma religião predestinada. Não sei se me aguardam as portas do céu ou os portais do inferno. Prefiro não pensar muito nisso. É duro demais. Cartesiano demais. Binário em demasia.

Por enquanto, vou carregando algumas cruzes. Seguindo o caminho. Day by day.

Day by day

∞ Mais informações sobre o filme:

Godspell pela Wikipedia

∞ Para baixar o filme:

Torrent do Godspell no Mininova

∞ Para baixar trilha sonora:

Trilha Sonora de Godspell no 4shared

h1

Ode ao aonde

Setembro 14, 2008

(tudo começa com uma baforada de cigarro)

Sou aquele desajeitado.

Não, desajeitado não… Desajustado!

Erro mais que acerto, acerto mais que erro… Por fim (pausa seguida de suspiro) acabo acertando com os erros e errando com os acertos.

Fui pra ala, minha escola desfilou e o carnaval, enfim, terminou… Foram dias de glória nesse lugar!

A quarta-feira de cinzas começa sorrateira, e ao mesmo tempo feliz, por mais que represente uma determinada e bem delimitada ruptura com a ala das loucuras juvenis, com a escola onde aprendi a ser quem sou e com o carnaval mais transformador de minha vida…

(pausa prolongada por mais algumas baforadas…)

Agora quero outras alas, escolas e carnavais… Espero mais avenidas, pra com meus companheiros/as poder desfilar a vida…

E não só viver da contemplação das coisas, nem da mediocridade daqueles que não aceitam com o mínimo de permeabilidade a existência do próximo… Mas vivenciar a diferença ao lado desse próximo, construindo-me na contradição das coisas humanas.

(cai a primeira lágrima)

Me proponho a entender a beleza da vida… Que, para mim, enquanto desajustado que sou, é representada na luta diária, vinda do suor da face, da olheira do mulambo, do passo ritmado da morena, do mais belo altar de moscas bicheiras…

Por isso me proponho à permeabilidade… Pra Viver! Pra Escandalizar! Pra Carnavalizar! Pra aprender com o outro! Pra Lutar!

Simples… Complicado… Mas a vida segue (e continuará seguindo) sendo sinônimo de luta…

(caem outras lágrimas, que continuarão caindo… por tristeza, por felicidade, por carinho, por fim… por saudade…)

h1

Desencontros

Setembro 14, 2008

Andava pelo centro da cidade, pelo lado esquerdo do calçadão. Com o tempo meio fechado, tirei os óculos escuros. Decidi fumar um cigarro na praça pública.

Faces e mais faces se aproximavam… Afastando-se lentamente. Senhores apressados, senhoras indo trabalhar, jovens exercitando a rebeldia, hippies vendendo penduricalhos. Todos desajustados como eu. Todos sujeitos às mesmices da pós-modernidade.

Tudo calmo, até quando ouvi algo saindo do fone de ouvido: “You know the sun is in your eyes”.

Quase que misticamente o céu se abriu e as nuvens deram lugar ao todo poderoso astro. Concretizara-se a frase. O sol bateu, os olhos ofuscaram a luz. Senti um leve arrepio, que fez com que os pêlos do braço ficassem ouriçados.

Logo pensei: “Será que o restante se concretizará também? Alguma escolha? Alguma voz para seguir?”

Acreditei com alguma esperança que, após contornar a esquina que dava para a praça, encontraria um grande amor. Porque? Porque pensei logo em encontrar um grande amor? Poderia ter pensado em alguém que me desse um emprego melhor ou em alguém que há muito não via, mas não.

Cada passo até a esquina se arrastava como um peso preso aos pés. Era o medo. De não encontrar nada, nem ninguém. Mesmo assim continuava caminhando. Queria saber onde essa pretensão me levaria.

Quando cheguei, não me lembro do que ou de quem eu vi. Acho que vislumbrei tantas possibilidades de encontros, que acabei me esquecendo de perceber quem apareceu logo de cara na esquina.

Depois de comprar o maço de cigarros, sentei num banco da praça, próximo a uma árvore que acabara de ser podada. Comecei a pensar em todas as pessoas que gostaria de encontrar naquela esquina. Fui rememorando algumas possibilidades e trazendo à tona muitos alguéns que atravessaram meu caminho e fizeram alguma diferença durante a jornada. Só esses pensamentos me renderam três cigarros e meia hora de reflexão.

E por mais que o restante da música não tenha se concretizado da maneira como eu havia cogitado, penso que esse foi um daqueles bons momentos da vida. Mostrou-me que, mesmo no meio de tanta gente, tantas caras e bocas, tanta correria, tanta pós-modernidade, é possível ter uma pequena epifania. Uma pequena parcela de sonho. Um pequeno vislumbre do que a vida pode ser.

Depois disso, parece que acordei e voltei a ser o mesmo.

Mas a história ficou.

E isso é que é bonito. E engraçado. E bom.