Acordou abruptamente, às três da manhã, com as costas doendo. Pensou ter ouvido alguém, na verdade, um som bastante peculiar: Salvador usando o urinol durante a madrugada…
Sorriu sem perceber. Refletiu um pouco e logo soltou uma gargalhada. Como é que um barulho tão grotesco, que a incomodara tanto durante a vida toda podia lhe trazer tamanha nostalgia a essa hora da madrugada a ponto de fazê-la acordar?
Essas pequenas recordações eram realmente engraçadas para Hilda. A cada dia percebia uma nova resposta a uma antiga lembrança. Uma alegria, um sorriso em alguma tristeza. Era como um estímulo para declarar ao mundo sua saudade. E esse “declarar-se” era necessário, nem que fosse às paredes, aos móveis ou à gata. Uma forma de exacerbar as angústias, de extirpar alguns tumores.
Mas não era o bastante. Hilda necessitava o novo. Nada que por um assalto do passado se transformasse em alegria no presente. Nada disso! Precisava que a alegria da infância e que a rebeldia da juventude, somadas à garra da fase adulta, vertessem seu corpo senil a um novo caminho, a um novo processo.
Mas que caminhos suportaria uma senhora de 70 anos?! Quais fontes de saber ainda estariam abertas às suas mãos enrrugadas? E mais, teria ela forças para levantar as mãos até a boca e sorver todo aquele novo mundo que lhe entraria goela adentro?
O mundo pode ser cruel a novas perspectivas… Ainda mais para alguém que nasceu em um mundo tão diferente desse que vejo e sinto agora, pensou Hilda, enquanto se olhava fixamente no espelho do banheiro.
Interrompeu as sandices do coração. Colocou a camisola e deitou na cama, confortavelmente, na expectativa de que as dores nas costas passassem…
Mas… As costas não incomodavam mais. A cabeça doía. Na verdade, pesava. Só pesava.
Era a gata que miava. Era a azia do café. Eram as folhas de boldo que borbulhavam na chaleira. Era a fumaça de cigarro que rodopiava no ar. Era o som que vinha do urinol…
Era o tufão que abria a porta da frente, levando tudo que via, urrando à força de todos os ventos:
Cada ser tem sonhos à sua maneira. Vá logo! Pois daqui a pouco o dia vai querer raiar!












