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Novas histórias

Novembro 8, 2009

Novas histórias

Sabe aquele primeiro abrir e fechar de olhos de quando você emerge, depois de ficar muito tempo sem ar debaixo da água? Aquela sensação do primeiro trago de um cigarro num momento de stress?

Aquela velha história do suspiro de alívio quando a tortura tem fim, sabe?!

Sinto-me constantemente assim, com essa sensação de ter acabado de sair de um sufoco. Estranhamente letárgico, com movimentos excessivamente calmos, quando existem. Uma serenidade incomum, pelo menos pra mim, no momento de encarar meus problemas, que não são poucos…

Essa boa calma é resultado de todo um processo de transformação das coisas. Com o tempo mudei de água pra óleo, de óleo pra álcool, de álcool pra vinho. Hoje escolho ser vinho. Não sou mais um cego na sala de tortura. Escolhi tirar a venda que tapava meus olhos e escolhi não mais adentrar essa sala podre, suja e hipócrita. Escolhi o sorriso terno de olhos fechados e a bem-vinda calmaria. A boa calma.  É o livre arbítrio do cultivo. São os frutos que a gente colhe…

Frutos de compreensão do mundo que a gente colhe quando planta respeito. Acho que é isso mesmo… Tenho aprendido com os dias, meses e anos, a respeitar as escolhas e opiniões dos outros e, da mesma forma, a respeitar minhas próprias escolhas e opiniões.

E acho que hoje sou mais feliz por isso. Pelas escolhas, pela sinceridade e pelo respeito. Por respeitar os outros e por respeitar a mim mesmo.

Enfim. Só precisava falar isso. Aquela velha história do desabafo, sabe?!

Sem fim magistral, sem tom poético.

E sem ponto final, finalmente…

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Eu, o bom homem e a colombina

Outubro 23, 2009

eu o bom homem e a colombina

Ou “Jeff, Moska e Bethânia”.

Para ler ouvindo Glory Box, do Portishead.

Noite de riso, manhã de choro.

O bom homem, bêbado de doses, cigarros e prazeres, decide fugir do monge e da rotinha dos hábitos. Por uma noite, uma derradeira noite, merecia tais provocações da alma. Todos os dias moralmente “corretos”, os mesmos trabalhos repetitivos, as mesmas pequenas frustrações, as mesmas transas, as mesmas camisetas brancas, os mesmos óculos de grau. Era como uma música bela e calma, superficialmente simples, mas no fundo cheia de complexidades. Um Paulinho Moska, talvez.

Queria algo. Definitivamente, o bom homem queria algo. Não sei bem o que, mas queria.

Pensou um pouco, tomou o último trago de cerveja e foi. Despediu-se dos amigos, atravessou as portas do bar e dirigiu-se à casa das portas de vidro. Dirigiu-se ao lar de outrém para descansar a bebedeira e dormir o sono dos derrotados. Só para dormir, pensava. Pensei também, acho.

Conversamos um pouco, ainda. Sobre o sexo e suas familiaridades, sobre os incômodos e suas histórias bizarras… Até o momento em que ela apareceu.

Só de calcinha. Aliás, enrolada em uma colcha felpuda, de listras brancas e vermelhas.

Não, o tempo não parou. Não houve furor momentâneo, nem arrepio nos pêlos do braço. Era conhecida demais de nós dois. Atraente, bonita a seu modo, mas nada que causasse frisson. Não em nós dois, achava.

Estava com os olhos vermelhos de sono, o cabelo desgrenhado, os lábios secos e um pouco murchos, como os de uma criança que acabou de quebrar o brinquedo ganhado no natal. Era diferente dele, do bom homem. Parecia-se comigo. Uma colombina. Queria as fugacidades dos amores errados, as loucuras cotidianas, a procura constante por alguém que a fizesse feliz. Era constante nas inconstâncias. Era como uma música triste que deixa a gente alegre por dentro. Uma Maria Bethânia, talvez.

Conversamos um pouco, nós três. Não me recordo os assuntos. Banalidades políticas, creio eu. Íamos nesse embalo nos preparando para a tal madrugada de sono.

Vestimos pijamas, comemos alguma coisa e nos aprumamos em nossos respectivos cantos. Eu, na rede, eles, na cama. Não estranhei o movimento. Nunca estranho estes movimentos. Acho que naturalizo demais as coisas, mas, enfim… Coisas minhas. Não queria dormir, tinha que acordar cedo. Queria cores viva, nada que fosse desbotado. Coloquei Kill Bill e tentei ficar acordado até a hora de trabalhar. A última cena que me lembro é de Uma Thurman batendo a cabeça de um enfermeiro no vão da porta. Dormi sem perceber…

O que aconteceu depois pertence a um universo particular. Um círculo vicioso de pequenos detalhes dos quais prefiro me ater, mesmo porque só presencie as preliminares e os finalmentes. Presença de espírito, claro. Dormi feliz, acho.

Acordei com um burburinho. Tentei ser o máximo discreto possível. Não sei se consegui, mas, também, acho que isso não importa. O importante é o estranhamento. É a maneira como as pessoas lidam com o desejo.

Creio que ambos choravam. Tenho certeza que ambos choravam.  De arrependimento, possivelmente.

Achei engraçado. Enquanto o bom homem e a colombina choravam, eu sorria. Sorrisos claros de dia, assim como as lágrimas perdidas da noite. Inevitavelmente comecei a ouvir Jeff Buckley. O momento pedia, acho. Afinal, não é a primeira vez que sexo dá prazer e nem a primeira que faz chorar. Certamente não.

Conversamos pouco… Ainda enxugavam as lágrimas. Falaram de menos e, como quem come um prato pelas beiradas, pediram desculpas. Como sempre sorri, naturalizei a situação e disse a eles que essa era a coisa mais humana que podia existir. Fazer sexo, assim como as loucuras do amor e as extravagancias do desejo, são alguns dos fatores da equação que mais aprecio nas regras de três que a vida nos prega. Não sei se fui certo com as palavras e com os sorrisos em um momento triste.

Só sei que sonhei. Com pequenos sons ofegantes bem ao fundo, longínquos, sonhei que dirigia Marina Lima como garota de programa em um filme incendiário.

Enfim, uma noite como outra qualquer. Feita de sonhos meus e desejos de outrém.

Eu, o bom homem e a colombina temos algo em comum: somos boas músicas em um momento tempestuoso. Ritmos, compassos e letras bem diferentes. Ele, Moska. Ela, Bethânia. Eu, Jeff. Todos boas músicas numa noite de sonho e desejo.

Caixinhas de jóias lacradas de glória e despudor.

Abertas em segredo, bem baixinho, como um sussuro suado no pescoço.

Para não atrapalhar a Sra. Loucura.

Aquela, guardiã dos segredos carnais, dona das noites eternas…

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café. cigarros. miçangas.

Outubro 19, 2009

senhora-cafe

Com os olhos marejados e um sorriso estampado, saiu pelos grandes portões azuis do cemitério.

Logo na saída, avistou um pequeno ônibus amarelo, parecido com aqueles das escolas norte-americanas, e fez sinal para que parasse. Não sabia para onde ia… E talvez nem quisesse saber.

Aprumou a malinha vermelha de mão, ajeitou a blusa de frio e andou a passos largos, como quem está apressado ou com medo de perder a condução.

Adentrou as portas do ônibus e logo olhou para o motorista. Um homem negro, alto, de uniforme cor-de-rosa, com um pequeno broche de flor dourada pregado no bolso da camisa. Abaixo da flor estava escrito o nome da empresa, que leu com certa dificuldade:  Magnólia Transportes Ltda. Nunca tinha ouvido falar de tal empresa…

O motorista esboçou um leve sorriso, olhou bem para o rosto de Hilda e pediu para que ela entrasse depressa. Não perguntou o destino, nem pediu para que pagasse a passagem. Só pediu para ela entrar e se sentar na poltrona 23.

Não haviam muitos passageiros.

Avistou uma mulher de vestes vermelhas, sapatos pretos de salto e uma rosa branca encrustrada nos cabelos ruivos, que acenou afirmativamente com a cabeça enquanto Hilda passava pelo corredor. Viu também um homem velho, de olhos azuis, com um terno xadrez azulado, acompanhado de uma garotinha de vestido amarelo e cara de sapeca. Ambos acenaram com a cabeça quando a viram.

Estranhamente, de mãos dadas com a maior aventura de sua vida, cercada de desconhecidos que pareciam conhecê-la, Hilda tinha a sensação de estar em casa, segura. Não sentia o desamparo do destino e muito menos o pesar das rugas. Sentia-se acolhida e amada pelos olhares e sorrisos dos conhecidos-desconhecidos que acabara de conhecer. Sentiu-se bem. Feliz.

Chegou, finalmente, à poltrona 23. Os olhos estarrecidos por detrás dos óculos fundos de grau não conseguiam acreditar no que viam. Fechou-os rapidamente. Estava com medo de abrí-los de novo. A pequena mala vermelha caiu estremecida no chão, deixando os pertences de Hilda espalhados pelo corredor do ônibus.

O garoto de cabelos e olhos castanhos, barba por fazer e gestos calmos, que estava sentando na poltrona a lado da sua, parou de contemplar o horizonte, retirou a bolsa de couro cru cheia de penduricalhos do assento de Hilda e ajudou-a a recolher as roupas e vidros de perfume do chão.

- Aconteceu alguma coisa, meu bem? A senhora está passando mal?

Quando ouviu aquela voz suave, um pouco rouca por causa do fumo, a velha senhora pensou estar em um sonho, pensou ter ouvido a voz de seu amado. Não queria que aquele momento passasse. Nunca. Queria ficar ali, com cara de trouxa, estarrecida pela visão que acabara de ter…

Mas não. Abriu os olhos novamente, fitou o rapaz, que já havia arrumado toda sua mala e sentou-se. As pernas tremiam. Não conseguia olhar para o lado. Pensava no que falar e em como falar, mas não sabia. Sentia-se acanhada demais para falar qualquer coisa, qualquer bobagem que fosse. Foi de ímpeto.

- Acho que o conheço de algum lugar, menino. Você me lembra alguém muito querido. Por isso fiquei assim. Assustada. Estarrecida. Pensei que fosse outro alguém…

Fazia tipo. Sabia muito bem de onde o conhecia. Era o garoto esquisito que estava sentado na mesa ao lado da sua no posto de conveniência, com o bornal a tiracolo. Era o garoto do cigarro de filtro amarelo, sua conquista recente na lista de desejos, seu affair momentâneo…

- Sim. A senhora estava tomando um café expresso no posto de conveniência, sentada ao meu lado. Fiquei imaginado naquele dia o que se passava pela sua cabeça…

Hilda ruborizou. Não pensava que um rapaz tão jovem pudesse reparar nela e muito menos que ficasse imaginando o que se passava pela sua cabeça. Talvez tivessem os mesmos dilemas, as mesmos problemas. Talvez estivesse fazendo o mesmo que ela: remoendo o passado, ou melhor, fugindo dele…

- O que você faz nesse ônibus? Está indo pra onde? Ver a família? Aliás… Onde esse ônibus vai parar?!

- Não sei. Não tenho rumo certo e também não quis perguntar ao motorista. Acho que saí de casa pra procurar as metades que me faltam…

Os dois sorriram.

Passaram a tarde toda, lado a lado, conversando. Falaram sobre tudo: as peripécias da vida passada, as frustrações do momento presente e as vontades e desejos futuros. Encontraram-se numa estrada sem rumo, partindo para o tudo ou nada. Não sabiam de nada e nem queriam saber, pois perceberam que já sabiam de tudo que precisavam para viver…

Liberdade. Talvez os dois só quisessem um pouco de liberdade.

Mas ainda acho que essa não é a palavra certa para definir esse querer, pois o que esses dois desejam é tão grande e tão intenso, que nem a vida, nem os mortos e nem os caminhos tortos podem dizer.

A palavra certa para definir o que esses e tantos outros caminhantes sentem pode ainda não existir, mas, certamente, existe o caminho. E não é necessária tanta coragem para percorrê-lo, mas convicção para acreditar que encontrarão algo que os complete no decorrer dessa viagem. E que as metades que a gente procura, de vez em quando, podem estar onde a gente menos espera…

Numa estrada solitária, dentro de um ônibus amarelo.

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Rascunhos de um amor etílico…

Outubro 16, 2009

Jeff Buckley

ou “Quem tem medo do misterioso garoto branco?”

Para ler ouvindo Morning Theft, The sky is a landfill, Last Goodbye, Grace, So Real, Yard of blonde girls, Opened Once, Everybody here wants you, New Year’s Prayer, Witche’s Rave, Satisfied Mind, Lilac Wine, Hallelujah ou Lover, you should’ve come over. Ou todas de uma vez só…

My main musical influences? Love, anger, depression, joy and dreams……and zeppelin!

Um corpo sobre a água. Céu azul, brisa leve. Alguns pássaros planam. Temperatura estável. Um balão de ar, um zepelim direcionado, cruza os céus irradiando luzes mágicas, multicoloridas, ensurdecedoras. Cheio de amor, traz o último suspiro.

Desestabiliza tudo. Os pássaros não planam mais. O frio é mórbido. O céu enegrece, a brisa vira tufão. O corpo segue a correnteza calmamente. Agora é ele que irradia luz pela água turva do rio. Multicoloridas, mágicas, ensurdecedoras, loucas, agudas, arrepiantes…

Essa luz ainda pode ser vista até hoje, ouvida, até. É doce, terna e ao mesmo tempo agonizante. Forte por fora, instável por dentro. É o som que aqueles demônios que vivem dentro da gente fazem quando vestem carcaças de anjos: belos à primeira vista, corrosivos à segunda, mortais à terceira. É mais ou menos como aqueles amores fulgazes, senhores de tantas rugas: arrebatadores num primeiro momento, arrasadores num segundo, deprimentes num terceiro…

Mas ainda assim, quem não quer ter “anjos”, mesmo que disfarçados, e amores sórdidos, mesmo que acabem?!

É esse frisson dos desejos contraditórios que sinto hoje em dia quando ouço Jeff Buckley, cantor norte-americano que, mesmo sem ter nem saber (pois se encontrava morto quando o conheci), operou mudanças significativas em minha vida. Conheço-o desde os 15 anos de idade, das noites de Alto-Falante na TV Cultura. Desde então ficamos amigos. Assim, meio que sem querer querendo.

Penso que mudou muitas coisas na minha vida, primeiro de tudo, porque eu era o adolescente chato que pedia pras pessoas baixarem (não, eu não tinha internet) músicas estranhas que eu conhecia não-sei-de-onde. Tipo The Clash, Ella Fitzgerald e Jeff Buckley, que são meio desconhecidinhos numa cidade de 8 mil habitantes do interior paulista… Mas, enfim, o fato é que as músicas se tornam muitas vezes nossas vestimentas. E às vezes é melhor não extravazar demais na escolha das peças pra não causar a impressão errada. Ainda mais na adolescência, onde qualquer deslize é motivo de chacota. É como na alegoria dos demônios com carcaça de anjo… Você se torna o que as pessoas querem só pra ser melhor aceito numa rodinha de amigos ou num grupinho de pessoas especiais.

Mas o demônio ainda vive dentro de você. Os desejos contraditórios também.

Após quase um ano dessa amizade com Jeff, comecei a sair pras noitadas esfumaçadas da boate da minha pequena cidade. Parei de ouví-lo. Queria que as luzes fossem outras. Multicoloridas e sonoras de outra forma. Queria me tornar um anjinho sem asas, como tantos outros que conheci e que hoje são meus melhores amigos. Nos entendemos através dessas luzes esfumaçadas, enfim. E foi ótimo ter vivenciado todas essas pequenas loucuras de um mundo particular.

Mas eu sempre sentia que faltavam certas coisas, que antes existiam e que, até esse ponto da história, já não existiam mais. Sentia falta da morbidez dos momentos. Afinal, de depressivo-sozinho passei a playboy-rodeado-de-gente, num estalar de dedos. Queria de volta determinadas sensibilidades, que só conseguia ter em momentos de boa solidão, que se tornaram um tanto quanto raros.

Eu e Jeff só nos tornamos amigos novamente depois que entrei na universidade. Querendo ou não os espaços tem esse poder de mudar nossos ares. A fugacidade dos amores e os platonismos deram espaço para diversas luzes, inclusive as de Jeff, que sempre estiveram em minha vida, de uma forma ou de outra.

Foram as batidas itinerantes de “Grace“, a morbidez mágica de “So Real“, os arrepios na nuca de “Last Goodbye“, as esperanças amorosas gastas de “Lover, you should’ve come over“, a suavidade irrespirável de “Hallelujah“, as perdições noturnas de “Lilac Wine” e as reconfortantes verdades de “Satisfied Mind” que construíram meus momentos mais íntimos durante muito tempo.

Hoje são, em mesmo gênero, número e grau, os sonhos delirantes de “The sky is a landfill“, a baladinha dançante de “Witche’s Rave“, a confiança inabalável de “Yard of blonde girls“, a sensualidade deprimente de “Everybody here wants you“, as dores e delícias de “New Year’s Prayer“, o sopro descompassado de “Opened Once” e os sorrisos esperançosos desprendidos pela rua de “Morning Theft” que iluminam meu caminho para uma mente cada vez mais satisfeita.

Não são somente as músicas que me trazem à tona aquele frisson dos desejos contraditórios que tão subjetivamente tentei explicar inicialmente. É o sorriso sôfrego e o olhar indeciso, as mãos suaves sobre o violão e os olhos cerrados, a falta de palavras, o excesso de gestos estranhos e a boca trêmula que me fazem gostar da figura de Jeff Buckley. Foram e são aqueles gritos agudos e afinados que criaram esses laços entre minha vida e as músicas dele.

Jeff é meu suspiro prolongado… Aquele, do pé do ouvido. É um de meus delírios.  É um dos poucos demônios que preferiu, por livre e espontâneo arbítrio, extirpar a carapaça de anjo e mostrar as garras malévolas e suaves.

É, certamente, a trilha sonora do meu último adeus.

Não é a primeira vez que escrevo sobre artistas que curto, mas certamente é a mais tocante. Jeff foi meu primeiro delírio musicado, como disse anteriormente. E longe de mim dar o último adeus tão cedo como ele. Quero ainda curtir muitas das minhas primeiras paixões, como ele mesmo foi um dia. Em todos os sentidos…

Pra enfatizar e saber mais:

Site Oficial
Documentário (Amazing Grace: Jeff Buckley, 2004, Once and Future Productions)
Site Oficial do Documentário

Trailer de Amazing Grace

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23 Today

Setembro 8, 2009

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Para ler ouvindo Aimee Mann, Mary J. Blige, Madeleine Peyroux e Paul McCartney. Ou qualquer outra coisa bacana…

A lua está cheia, o céu de baunilha estrelado. A gata saiu pra dar um passeio e a fumaça do cigarro traça uma linha conjunta com a água que cai da torneira. As garrafas estão vazias, os pratos sujos e a consciência limpa.

Hoje faço festas.

Fiz festas ontem. E anteontem também. Aliás, faço festas sempre. Físicas, espirituais, surreais, insurretas. Algumas calmas, outras, a maioria confessa, descontroladas.

Mas hoje a festa é diferente. São 23 anos pra pensar em tudo: no que me aconteceu de bom, de ruim e de indiferente. Em tudo que está pra acontecer. Em todas as coisas que estão guardadas nas mãos de Deus. Em tudo o que deixou de acontecer… 

Hoje é dia de pensar no porvir das coisas do mundo. Do meu mundo.

E foi tudo tão rápido! Mais do que eu pensava… Um turbilhão descontrolado de vida seguiu derrubando velhos muros, pra formar e construir tudo que sou hoje.

Foi minha família. Foram meus pais e meus amigos. Foi aquela escola que eu odiava, aquela universidade que eu adorava, aquelas pessoas com as quais eu saía, aquelas com as quais eu dialogava. Foram os estudos, as bebedeiras, as militâncias, as conversas. Aquelas, de botas batidas…

Foram os problemas e as soluções. Foram os infernos pessoais e as pazes com o mundo. Foram as garrafas de vinho e os maços de cigarro. Foram todos os filmes que iluminaram meus dias. Foram todas aquelas manhãs de domingo. Foram todas aquelas tardes gastas de rir e trabalhar. Foram todas aquelas noites de conflito e reflexão. Foram todas as músicas que compuseram a trilha sonora dos meus momentos mais íntimos. E dos mais loucos também…

Sim, foram as loucuras! De todos os meus amores. De todos os meus conhecidos-desconhecidos. De todos os meus afetos e desafetos. De todos os amantes do círculo polar. De todos os degradados e malucos-beleza. De todos os solidários e solitários.  De todos os meus sinos e desatinos. De todos os sorrisos que desprendi da alma…

Foram, enfim, os carinhos. Os abraços. Os amores. As cores. Os açúcares. As confianças e os confidentes. Os sonhos e as utopias…

Foram todos esses que me construíram, me constroem e fazem parte de mim. Do meu corpo, da minha alma, da minha mente, do meu coração.  E é a todas essas pessoas, coisas e pensamentos que dedico cada sorriso e cada lágrima dos dias que passam e que estão por vir.

Hoje já é 23. Faltam alguns dias para o fim do mês.

E ainda preciso de alguém que me salve. E ainda preciso me salvar. E salvar alguém. Mas não vou pensar nisso por agora.  

Que venha o sol ou venha a chuva.

Continuo aqui, firme e convicto, fazendo festas.

Pois nos dias de hoje sou todo amor.

Sou todo amores.

Thiago Padovan, o Terra Roxa, chega aos 23 anos e espera viver outros 23 para reler tudo o que já escreveu nessa vida. É jornalista, amante e sonhador nas horas vagas. Diz que um dia vai chegar às estrelas, mas por enquanto não passa da cabeceira da cama, pois prefere se deliciar mais um pouco com os prazeres e felicidades da vida terrena…

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Livro de Cabeceira

Setembro 1, 2009

Livro de Cabeceira 2

Φ Capítulo 2 Φ

- 5ª Página – Doce Soneto -

Realmente, tudo mudou.

Nada de xícara, cinzeiro, livros, chapéus, filmes, fotos, colcha ou quadro de avisos,
Os amigos, os desafetos, os encontros, os desencontros,
Hoje não tenho nada…
Absolutamente nada pra falar sobre eles, nem pra eles.

Só os tenho em minha vida, como lições apreendidas.
São minhas flores astrais, meus espinhos alados.
Meus vermes que nunca findam em passear na lua cheia.
Pra sempre meus cantores…

Agora sei. Nunca acabam.
As sensações, não tem onde caiba.
Tudo alto-astral, altas transas, lindas canções.
As experiências vividas à pouco têm a cor do azeviche, a cor da luz do sol.
E avanço através desses grossos portões, como um doce bárbaro.

Pois é…
Agora vejo.
Sou mais amor e mais afeto,
Em cada fagulha do dia que vai.

Ainda posso não passar do teto do quarto,
Quiçá da cabeceira da cama.
Mas alguma hora alcanço…
O céu, o amanhã, o tempo,  a fala.

No mais,
Não adianta nem me abandonar, fingir que não sabe nada.
Afinal, mistério sempre há de pintar por aqui.

E eu te amo, minha flor.
Minha doce loucura.
Serei pra sempre o teu cantor.

- Listas -

Cinco Vontades:

- Beijar.
- Beber.
- Transar.
- Cantar.
- Amar…

Cinco Músicas:

- Esotérico – Doces Bárbaros (letra / youtube)
- Deixa eu dizer – Claudia (letra / youtube)
- Three O’Clock Blues – Eric Clapton & B.B. King (letra / youtube)
- Dream a Little Dream of Me – Mama Cass (letra / youtube)
- Come Rain or Come Shine – Dinah Washington (letra / youtube)

Cinco Filmes:

- Angels in America – Mike Nichols (torrent / wikipedia)
- Bagdad Cafe – Percy Adlon (torrent / wikipedia)
- My Own Private Idaho – Gus Van Sant (torrent / wikipedia)
- Secretária – Steven Shainberg (torrent / wikipedia)
- Dogville – Lars von Trier (torrent / wikipedia)

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Das manhãs de domingo

Agosto 28, 2009

makes me wonder

Domingo de manhã. Dentro do carro. Nós dois.

Frio.

Indo, finalmente, ao fatídico encontro.

Procurei alguns CDs dentro do porta-luvas do carro. Queria algo feliz, bonito, mas nada muito “cheguei”, que pudesse nos deixar mais inquietos do que já estávamos.

Coloquei Maroon 5, pra quebrar um pouco o gelo.

Ele logo meteu o bedelho no botão vermelho e desligou o som.

Parei alguns instantes, observei o botão poucos segundos, sem acreditar que fosse capaz de tamanha falta de delicadeza… Deve ser o nervosismo, pensei.

Virei-me para a janela do carro e fiquei observando os bambuzais e as árvores à beira da estrada, descompassadas ao sinal do vento. Os pássaros eram os únicos que conseguiam planar…

Não suportava aquela melancolia impregnada nos cantos do carro. O ar pairava quente em minha cabeça, como mormaço. Tudo me sufocava. A presença, a passividade, a falta de diálogo… Podiam ser acanhados e monossilábicos, não me importava, pois ainda assim seria um tête-à-tête agradável, uma conversa banal pra deixar a cabeça da gente no lugar, pra nos fazer esquecer dos ares e dissabores da terra que se aproximava.

Não aguentei.

Liguei o som novamente.

E antes que tocasse o primeiro refrão da música, ele o fez novamente. Desligou-o. Com um pouco mais de severidade, perceptivelmente, pois, após apertar o botão, colocou as duas mãos firmes sobre o volante e olhou fixamente pra frente, sem piscar os olhos. Uma gota de suor escorreu da testa até o pescoço… Desafrochou a gola da camiseta e abriu os botões da blusa de frio… As ações sinalizavam os pensamentos: sabia que fazia  algo que me magoava e não queria olhar nos meus olhos.

- Sei que está nervoso, mas não precisa ser…

- Ser o que? Fala! O que?

- Tosco…

- Só não gosto da voz desse cara. Não quero escutar essa música.

- Pensei que gostasse… Afinal, foi a trilha sonora do nosso primeiro encontro… E hoje é dia de relembrar… De reforçar nossos laços… Não combinamos isso antes de sair?

Não se lembrava. Realmente não se lembrava da música que tocava quando se conheceram. Bem ele! Um virginiano sagaz, que dava importância meticulosa a detalhes cotidianos dos mais corriqueiros e imperceptíveis. O andar, o olhar, a voz alterada, as pequenas permissividades das pessoas… Nada surpreendia nas condições humanas, mas em tudo se podia botar algum reparo.

Esquecera-se do próprio amor. Talvez até mesmo do amor próprio.

Havia percebido há algum tempo que as preocupações tomavam o lugar das boas lembranças, mas não imaginava que o fizessem estacionar os sentimentos em local impróprio, a ponto de não se lembrar dos momentos místicos de seu relacionamento mais forte.

- É… Verdade, isso… Sunday morning, né?

Ufa!, pensei.

E pouco tempo depois estavam conversando intensamente sobre as noitadas, as viagens, os risos, os causos… Os sonhos compartilhados…

Até se esqueceram por alguns instantes do encontro que teriam logo mais, com o passado. Com a cidade e com as pessoas que pararam no tempo e pouco sabiam da história recente dos dois. Esses seres inertes de tempos atrás só especulavam sobre o rebuliço e a fuga. Nada mais.

E naquela manhã de domingo mais que propícia, perceberam, através da sonoridade da música e das palavras recordadas, que não temiam mais nada. Nem os fantasmas do passado, nem os perrengues do presente, nem as surpresas do futuro.

Eram tudo: os problemas, as soluções, as lembranças, os amigos, os livros de cabeceira, as bitucas de cigarro, as garrafas de vinho, as tatuagens nos braços, os blues das madrugadas, os abraços, os beijinhos e os carinhos sem ter fim.

Eram todo o amor que houver nessa vida. Até os ossos!

Eram as calmarias. Aquelas estranhas e lancinantes calmarias.

Das manhãs de domingo.

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Quando a gente vai…

Agosto 18, 2009

Quando a gente vai

Há tempos tenho tentado mudar de vida. Tornar-me mais responsável com meus estudos, com meu trabalho e com minha casa. Tenho tentado encontrar alguém com quem possa compartilhar os desgastes e as alegrias dos dias, das semanas, dos meses e, quem sabe, dos anos…

Na verdade, quero e tento ser mais organizado e sistemático, pra não parecer que uma bomba atômica é lançada a cada passo que dou, por cada lugar onde piso.

Profissão, satisfação, sabedoria, carinho, amor… Por tempos pensei em estratagemas, táticas e formas de alcançar tudo isso. Claro que não de uma hora pra outra. Mas gradualmente… Com leveza, calma, sapiência…

Mas nada funcionou até então.

Tenho tentado descobrir o que tanto me aflige, qual a causa de tanta hiperatividade, de tanto descontrole.

Não tenho paciência.

E essa ânsia pra que as coisas dêem certo me deixa louco, me tira do mundo. Acaba afetando meus relacionamentos interpessoais e profissionais. Estou com preguiça pra dialogar sobre coisas banais. E até mesmo sobre algumas coisas que considero sérias.

Tenho precisado de fundamentos. E de calma, pra lidar com minhas reflexões. Com minha mente e com meu coração.

Deve ser por isso que esses estratagemas, táticas e formas pra alcançar essas felicidades materiais não tenham dado certo até agora. Talvez não sejam essas as felicidades que quero e, certamente, não é sendo outra pessoa que me fará alcançá-las, quaisquer que sejam.

Preciso urgentemente de novos fundamentos. Outras perspectivas. Outros olhares.

Mas entendo que é assim mesmo que funciona essa onda de ir vivendo. Às vezes dá vontade de ser outra pessoa… Alguém diferente. Como as pessoas mais loucas e felizes dos filmes. Como as mais ousadas com seus amores. Como as mais criativas com seus problemas. Como as mais bombásticas e ao mesmo tempo mais organizadas que possam existir.

Mas essa vontade passa… Como o tempo. Passa…

Quando a gente vai se descobrindo…

Quando a gente vai descobrindo o outro…

Quando a gente vai descobrindo o outro que existe dentro da gente…

Quando a gente vai se tornando alguém especial pra gente mesmo…

E nem percebe.

Daí dá uma puta duma vontade de ser uma versão melhorada do que a gente já é.

E isso é bom.

Pelo menos, eu acho.

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Chuva de lírios

Agosto 10, 2009

Chuva de lírios

Passei esse final de semana assistindo filmes que, de alguma forma, fizeram parte da minha vida, do meu passado. Claro que influem ainda no presente e, provavelmente, influirão no futuro, mas, de qualquer forma, num plano específico, mais detalhado, esses filmes ficaram lá, guardados em algum lugar do meu passado.

E algumas características desse passado, num plano mais geral, pode-se dizer que “pelo ângulo como eu analiso e critico as coisas”, é igual ao presente e, provavelmente, vai ser igual no futuro. Meus métodos pra pensar e refletir sobre as coisas da vida parecem ser os mesmos de quando eu tinha doze anos: cheios de estratagemas, conjecturas, devaneios e fantasias.

Mas, enfim… Comecei as sessões com Magnolia, numa madrugada incendiária. O efeito foi o mesmo das outras três vezes que assisti: fiquei acordado até as nove da manhã, fantasiando milhares de loucuras. Coisas minhas, coisas da vida, coisas do filme. Sinas e sinais de uma viagem muito louca, que às vezes eu acho que só eu tenho, de tão colorida e estroboscópica que é. Sei lá. É estranho. Juro que tem vezes em que fecho os olhos pra dormir e começo a ver diversos caleidoscópios, de cores diferentes, berrantes, que giram na minha cabeça. Sou obrigado a abrir os olhos, fitar a escuridão durante alguns minutos e só daí fechar os olhos e tentar dormir novamente. Foi mais ou menos isso que aconteceu depois que assisti o filme pela quarta vez, mas eu ainda estava acordado.

No sábado assisti Secretária. Estava ainda meio estranho, lesado, sei lá. Mas mesmo assim foi uma experiência fantástica. Perceber o amor e o sexo com olhos mais ávidos e menos estereotipados. O sentido de coisas que num primeiro momento parecem infames, mas que, com o passar das reflexões, se tornam claras, aceitáveis, corriqueiras. Naturais, até. E é nesse momento, quando começo a naturalizar milhares de coisas que pra maioria das pessoas são bizarras, é que percebo o quanto eu mesmo sou bizarro, por me deixar enlouquecer por muitas dessas pequenas atitudes que inicialmente parecem infames e que depois se tornam naturais, pelo menos pra mim. Deve ser porque, pra sociedade, essas coisas realmente são infames e, geralmente, não se tornam naturais…

No domingo, pra aproveitar as pitadas de loucura que tinha visto nos dias anteriores, assisti Angels in America. Fui tentado a provar novamente de toda aquela atmosfera rebuscada e cheia de significados do filme-teatro, mas quase que instintivamente, o que me tentou mesmo foi a loucura dos personagens e suas relações frenéticas com espíritos, alucinações, anjos e mensageiros, enquanto que, no mundo real, se é que ele existe, vivem pra exorcizar determinados demônios.

Enfim… Acho que não precisava de tanto blá-blá-blá pra chegar a certas conclusões. Não é mais ou menos tudo isso que a gente faz todos os dias? Fantasia as coisas, pensa em amor, pensa em sexo e exorciza os demônios da vida?

Acho que a grande e fundamental diferença reside na forma como refletimos sobre tudo isso e não nos conteúdos propriamente ditos… Os referenciais são importantes também…

Pra mim, as referências não são os filmes, mas os devaneios que eles incitam…

E é isso que aprendo, a cada passo, a cada momento de loucura: a respeitar a delicada ecologia de meus delírios.

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A viagem de Julieta

Julho 1, 2009

Julieta dos espíritos

Da série “Recordar é viver!”

Não esperava muito de uma noite enfadonha de terça-feira. Resolvi passar na locadora para ver as novidades, mas, de sobressalto, acabei locando um filme bem antigo.

Digamos que tinha uma capa pouco convidativa. Claro, pouco convidativa aos olhos da explosão colorida de efeitos sobrenaturais que a atual cinegrafia tenta passar aos espectadores através das capas dos filmes. Da mesmo que aqueles roteiros dos quais escorrem ladrões, mocinhos, beldades e tantos outros atores de fama internacional, que acabam tomando a cena de tal forma que a história acaba se perdendo, tendo pouca importância.

O fato é que não esperava assistir a um filme que trouxesse uma atmosfera tão carregada de cores, sentidos, emotividade e, acima de tudo, uma maneira tão única de ver e expressar a mística do “fazer cinema com paixão”.

Julieta dos Espíritos (Giulietta degli Spiriti, Itália/França, 1965) conta a história de uma mulher que, ao desconfiar que o marido a traia, começa a ser acometida por visões.

Mas não pensem que se tratam de visões com espíritos malignos ou com aquelas aparições fantasmagoricamente toscas. Esse contato com o (sur)real, com um outro mundo de significados, leva Julieta (Giulietta Masina) a uma jornada de novas descobertas que a fazem despertar para a vida.

Despertar para sensações nunca antes sentidas. Despertar para aquilo que realmente traz unicidade e valor ao “ser vivente”, para tudo aquilo que realmente importa quando nos deparamos com as nossas reais necessidade e desejos.

Peço desde já desculpas a qualquer leitor que tenha chegado ao final deste texto, mas é meio difícil ser claro, conciso e jornalisticamente objetivo quando, pela primeira vez, assisti a uma obra-prima tão cheia de cor e esplendor, do mestre atemporal Federico Fellini.

Gozei!

É até bom salientar que o filme concorreu ao Oscar nas categorias “Direção de Arte” e Fotografia”, além de ganhar o prêmio Globo de Ouro de “Melhor Filme Estrangeiro”. Aliás… Não precisa de nada disso não… É Fellini!

O que vale mesmo salientar é que no texto original, pro site “Dentro do Balaio” que a gente montou no curso de comunicação da UFV em 2007, eu não escrevi a palavra “Gozei!”… Ainda era um jornalistinha meio retraidinho com as palavras. E com o sentido delas… Chato, né?!