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Desamor em quatro atos

26 26UTC Outubro 26UTC 2011

Para melhor abertura sensorial dos lobos parietais: Não existe amor em SP

Mantra urbano nº3

Me vem como palavra
Me sai como esperança
Furacões cruzados para vir
Braços cruzados, tumor ao sair
É fúria extirpada em dedos
É perder violento que se ganha
Sabe-se lá porque.

Ato III – Like cops at the scene of crime

Lugar: Quarto rabiscado
Pessoas: Nós dois e a solidão
Fundo musical: Love is a losing game

- Tô afim agora não, bicho.

- Falô, então… Tenho um cado de coisa que fazê da vida.

- Uai, vai não! Tá puto comigo, né? Vai não, deita aqui do meu lado.

Não se sabe a hora exata da manhã, mas se olharam com um pouco de assombro, falaram aos solavancos e, indecisos, caíram em tentação: se beijaram, se tocaram e se sentiram no dever moral de desvendar os mistérios pendentes da madrugada passada. Certamente sabiam que o correto era desaparecerem na penumbra do dia, sem deixarem rastros evidentes da noite passada. Mas num pequeno relance de olhar, resolveram ficar e acatar com as responsabilidades do crime cometido. Nessa porrada de pequenos delírios e incertezas, misturados de breves toques e afagos, adentraram aquele caminho estreito entre o amor e o sexo, sabendo que, no final dessas contas já prestadas tantas outras vezes, o que sobrava de mais valioso era, em si, aquele simbólico momento de intimidade. E mais nada.

Era, enfim, o gozo. O último suspiro das histórias de uma noite.

E assim, após alguns segundos orgásmicos, a história se repetia como em todo dramático enlace almodovariano: os olhares se desviavam com certa paixão, com certa fúria, com certo desconserto e os espaços se abriam ligeiros. Uma música de Elis tocava baixinho e o efeito de transição esbranquiçado terminava a cena. Pela manhã, a solidão entra na dança pra integrar um ménage e preencher a lacuna que previsivelmente faltava.

Estranhos estrangeiros e nada mais.

The sky is a landfill.

Sem céus para cair, sem rios para chorar, sem mágoas para entreter.

Todos poderiam morrer de rir. Tudo poderia ruir. Continuavam a se olhar inabaláveis, inoperantes, amatemáticos. E gozados, claro. Vezenquando olhando ofegantes para algum canto rabiscado do quarto, como se repudiassem o fato de terem, finalmente, acabado de trepar com pequena dose de amor. E com altas doses de microbiana, homeopática, nanotecnológica e patética idiotice, tentavam disfarçar qualquer sentimento que pudesse ter existido. Era como se tudo não passasse de nada e a vida só precisasse ser vivida de turbilhão em turbilhão, uma coisa por vez, com afago, sem apego.

Era o desassossego. O pai dos errôneos porques.

E talvez a vida fosse assim mesmo, pensaram. E talvez nada precisasse fazer tanto sentido, como se todo momento desconhecido parecesse conhecido. E talvez deixar-se morrer aos poucos. Intercursos do viver, saca? Afinal, tudo é tão redundante. Pois no momento que os suspiros findavam, que o gozo vinha e o prazer se dissipava, era também hora de rememorar todas as outras situações, todos os outros pequenos amores. Que se iam, que saíam pela primeira porta entreaberta, que pegavam o ônibus, o metrô, o avião e seguiam por aí, a procura de outros travesseiros. Por que agora seria diferente?!

E, por isso, viver era isso mesmo: agir sem se preocupar com o  último afago, o último apego, the last goodbye. Mas, sabidos, não era isso que queriam do fundo da alma. Existia aquela tristeza dos últimos momentos que não se findava ali, no calor daquele colchão e naquelas paredes rabiscadas. E, sem mais delongas, mais um pequeno amor se acabava, da noite pro dia.

Era o silêncio. A lágrima que seca sozinha e nunca cai.

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Orquídeas caídas

20 20UTC Outubro 20UTC 2011

Ou “25 anos blues”.

Para ler ouvindo To Love Somebody, com a serenidade de Nina Simone e a fúria de Janis Joplin.

Dialogue a trois:

- Navegar é preciso. Viver não é preciso.
- “Precisar” em que sentido: exatidão ou necessidade?
- Exatidão.
- É preciso estar atento e forte. Não temos tempo de temer a morte.
- Exatidão ou necessidade?
- Necessidade.
- Vou olhar os caminhos. O que tiver mais coração, eu sigo.
- Não tem verbo “precisar”.
- Mas é exato e necessário.

Esse ano não teve texto ou palavra ou metonímia ou onomatopeia de alegria nem de tristeza. Silêncio em forma de refrigerantes sem gás e salgadinhos de festa. Paro de conversar e olho para o quase jardim de inverno com certa melancolia. Uma orquídea seca cai do galho, leve como leve pluma muito leve pousa. Acompanho estático todo o seu movimento calmo e ondulado até o gramado. Penso logo de cara no tipo de movimento que a flor realiza enquanto a gravidade, o vento e o atrito agem sobre suas pétalas. Estarrecido por pensar primeiro na física das pétalas ao invés da beleza subjetiva do momento, falo alto, em sinal de auto-censura travestida de descaso:

- Flores mortas não fedem nem cheiram.

A maioria ali, indiferente a qualquer crítica ou auto-crítica, continua a falar alto enquanto as orquídeas secas caem com o vento. E numa espiral de beleza e silêncio e loucura começo a refletir não mais sobre as noções físicas, mas sobre o tempo metafórico das pétalas.

Talvez essa melancolia seja só reflexo da Lua na casa 4 em instrospecção com o Sol na casa 12. Ou o fim do ciclo revolutivo de Mercúrio. Ou o novo ano astral que se inicia. Tudo junto, sei lá. Ou talvez seja só uma pequena ponta de indiferença mesmo, uma tristezinha velada, uma pequena alegria que não faz muito sentido, talvez nada muito astrológico, nada tão visão divina. Mas, de certa forma, preciso que assim seja: alto astral altas transas lindas canções, para não pensar na física das pétalas e de todas as outras coisas. Não preciso movimentos físicos matemáticos químicos  por agora. Preciso místicas. Exatas e necessárias.

Mas são tempos de correria, sem dúvida. Muita coisa im-por-tan-te pra fazer, muita pe-dra pra carregar, muito la-bi-rin-to pra percorrer! Falta cabeça pra pensar no que está acontecendo, avaliar-se e refletir sobre a pétala que cai, sobre o tempo que se leva. E se for parar pra pensar bem, há tanta coisa nova e bonita pra ser sonhada nesse ano do escorpião, de grandes realizações. Há tanto deserto pra percorrer, floresta pra desbravar, mar pra navegar!

E a melancolia, talvez, resida aí mesmo, em todas essas grandes e escorpianas realizações. São aprendizados, certamente. Burocráticos e duros, trazem dores de cabeça inevitáveis, cansaços de fundas olheiras, aborrecimentos físicos, mas nem por isso são menos interessantes ou necessários ou contextualizados ou propícios. E mesmo assim, mesmo sabendo da necessidade de tudo isso, ando precisado de algo mais. De me render a certos devaneios. De mais paciência para reencontrar a pureza nas almas de luta. De misticismos esotéricos que alucinem o marasmo dos dias. De gritos incontidos, de goles de vida, de choros cheios de olhos, de nuvens que escondam as luas mais bonitas, assim como a caixa que guarda o carneirinho do pequeno príncipe.

- Preciso de doações prazerosas de corpo e alma, por Jah!, grito em silêncio enquanto olho o jardim.

A flor seca finalmente caiu.

Depois que ela desfaleceu no gramado, penso nessas contradições do querer e do viver a todo tempo, como se meu mapa astral me perseguisse, como se um espelho me levasse me refletisse me guiasse por tudo que é lugar. E é quando estou com a cabeça pesada, lisérgica de tanto pensar nisso tudo, que saio por aí. Como leve pluma muito leve, pouso de madrugada em madrugada em qualquer balada estranha e multicolorida do centro.

Da sacada de um prédio antigo, olhos fechados, ergo a cabeça para o alto e vejo aos poucos a imensidão da lua cheia. Olho para baixo e vejo a calçada molhada e suja. Vejo algo reluzente gotejar em uma poça d’água. Meio zonzo, cogito ir até lá pegar essas gotas de luz, penso em cair levemente como a orquídea do quase jardim de inverno, pois já é quase inverno e tempo seco e vento e movimento e bêbado não fico pensando em todas as coisas que me incomodam, mas em não faça assim, não faça nada por mim, não vá pensando que eu sou seu, uma música bonita na voz do Ney. E nesse momento já não me censuro mais pelos primeiros pensamentos. A melancolia me parece mais leve também. Sinto o vento, o tempo e os movimentos como se orquídeas caídas pudessem voar…

Olho para os lados e vejo você de relance na luz negra. Duas caveiras multicoloridas olham para nós. Muita gente se olha com estranheza. Algumas pessoas me olham com estranheza. Já não olho mais para as gotas de luz. Já não vejo o chão. Só vejo seus olhos meio desavisados. Não sei ao certo o que você vê. E olhando serenamente você ali ao longe, recito baixinho:

- Te daria essa lua se você quisesse, se respondesse aos meus apelos. Não faça assim, não faça nada por mim, não vá… Pois hoje olhando a chuva pela janela do ônibus, percebi que já me encontrei há tempos e não preciso de vaidades, identidades, sofrimentos. Preciso seus olhos sobre os meus. Preciso seus sorrisos amarelos. Preciso tuas mãos no meu rosto. Preciso não precisar as coisas.

Como mantra internalizado, esqueço cada pessoa à minha volta. Você me olha também, sem assombros. Com precisão de esquecimento, para não precisar mais os dias deixados para trás, com precisão de estar atento e forte, para não ter tempo de temer a morte, sigo instintivo, sem pensar demais nos poréns. Após dois minutos de dança no escuro, te peço um beijo. Você brinca e diz sim com um sorriso. E o que me sai dessas entrelinhas, sem texto ou palavra ou metonímia ou onomatopeia de alegria ou tristeza, é um dos beijos mais bonitos, calmo e demorado como a orquídea que cai no gramado.

- Somos orquídeas caídas, falo baixinho.

- O que disse?, você me pergunta.

- Que gostei de você, respondo calmamente.

- Como? Não te ouvi…, você me responde sorrindo.

- Nada não. Talvez a gente nem se veja amanhã ou depois. A gente perde muito tempo na vida. A cada palavra que sai a gente morre um pouco. Fica comigo essa noite…, falo com os olhos.

- E não te arrependerás! É isso?!, você me diz gargalhando.

- Isso. E não te arrependerás, tipo Nelson Gonçalves, gargalho junto.

Acho bonito nosso diálogo a três, nós dois e a mística das pequenas coisas,  mesmo sabendo que o desencontro e o desassossego seriam inevitáveis. Místicas não duram para sempre. Nós também não. Afinal, uma noite foi o que pedi e uma noite foi o que tive. Por isso mesmo não quis saber nada: nem nome, nem telefone, nem endereço.

- Tenho receios de me aventurar demais por você, por seus cachos e olhos e pálpebras e arranjos e afagos e quereres e escombros e esquinas eteceteras, resmungo embriagado enquanto nos despedimos.

Um último beijo rápido e profundo e bonito e te dou as costas pelas ruas do centro e nunca olho para trás. Fujo com o olhar fixo num ponto qualquer dum sol qualquer que raia que cega que tira a cor das coisas que deixa tudo branco.

Serenidade, apesar de tudo. Certa fúria comedida pelas palavras desmedidas, pela loucura crua das conversas, pelos vitupérios da embriaguez, mas ainda assim detalhes tão pequenos…

Parece que nascemos para fugir querendo ficar. E olhamos para pontos fixos que remontam um mesmo lugar qualquer, talvez por medo de ficarmos cegos de amor pelo mundo divino maravilhoso que nos cerca. Em noites como essa a melancolia parece não existir: estranhamente é a escuridão que me abre os olhos. Tristeza vezenquando serena vezenquando furiosa que retorna pelas manhãs, quando a claridade volta a me cegar. Talvez, por isso tudo, por desejo de contrariar as coisas estabelecidas, preciso te rever agora. Exato e necessário.

Fato que são 25 anos de flores secas e noites serenas e fugas cegas e manhãs de domingo. Quem sabe não te reencontro em algum jardim por aí?

Afinal, somos orquídeas caídas.

Cegos de quase inverno.

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Desamor em quatro atos

18 18UTC Outubro 18UTC 2011

Para melhor abertura visual do lobo occipital: Jorge da Capadócia

Mantra urbano nº2

Me vem como dedos
Me sai como braços
Palavras cruzadas para vir
Esperanças cruzadas ao sair
É furacão violento que se ganha para se perder
É tumor extirpado em fúria
Sabe-se lá de onde.

Ato II – Like sex on fire

Lugar: Apartamento 01
Pessoas: Nós dois e o sofá
Fundo musical: Sex on fire

- Espera um cado. Todo mundo dormir.

- Vamo lá. Devagarinho por enquanto. Pódisê?!

Às 4h30 da madruga, eram breves. Os toques, os afagos, digo. Nada contidos, só  breves. Mecânicos, de certa forma, como se todo corpo fosse igual, como se todo sexo fosse comum, sem nada de tão extraordinário. E, diga-se de passagem, hajam copos sujos, corpos suados e transas noturnas pra tantas histórias mundanas! Gente antiga essa… Na arte da piranhagem, dizem por aí as velhas e boas línguas.

E ainda assim, nessa noite que era mais uma, transavam perceber determinadas subjetividades do corpo físico, pequenos resquícios de alma que pairavam em fina camada acima do arrepio da pele. Sentidos que viviam naquela mão derrapada por detrás do pescoço, que sussurravam gemidos ao pé do ouvido, que se deixavam desfalecer por dentre as partes quentes dos corpos em êxtase.

Eram os olhos. As semicerradas pálpebras.

Às 5h, quando o mundo parecia dormir, o sofá verde de dois lugares ao canto esquerdo da sala sofreu pequenos abalos sísmicos. Tira mão daqui, bota lá, curva aqui, desdobra acolá. Os pequenos quadros de Toulouse-Lautrec emoldurados em latão pareciam olhar a cena e conversar euforicamente entre si. As paredes brancas ardiam em ondas multicoloridas que se propagavam concêntricas pelo ambiente.  E, enquanto isso, o inevitável cansaço tomava notas e prestava contas da transação que ocorria; o sono começava a reinar absoluto sobre a tentativa de desvendar quaisquer dos mistérios gozosos.

Era a preguiça. A mãe suprema dos vagabundos.

Os braços se envolveram naturalmente. As mãos permaneceram dadas. E numa daquelas cenas clichê de filme adolescente, permaneceram abraçados como dois corpos adormecidos na superfície lunar, dois amantes do círculo polar, dois perdidos numa noite suja.

Era o carinho. O espinho que não se vê em cada flor.

Atos de desamor em releitura: Número 1

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Desamor em quatro atos

11 11UTC Outubro 11UTC 2011

Para melhor abertura mística do lobo temporal: Ainda bem, de Marisa Monte

Mantra urbano nº1

Me vem como furacão
Me sai como tumor
Dedos cruzados para vir
Braços cruzados ao sair
É palavra violenta extirpada em fúria
É esperança que se perde para se ganhar
Sabe-se lá o que.

Ato I – Like a bomb before explosion

Lugar: Inferninho do Centro
Pessoas: Nós dois e o resto
Fundo musical: I found a boy, de Adele

- Porra! Puta vontade de tomar um campari!

- Bora? Partiu balada?!

Sincronia verbo-temporal. Poucas palavras para um caminho curto: pequeno trajeto, grande silêncio, algumas baforadas.

Em dois quarteirões, uma fotografia de Verger formicada numa porta de madeira indicou a entrada de um inferninho qualquer do centro. Pouco corpo pra muita entidade, pensaram. Parecia que a família toda da banda havia se enfurnado no bar para acompanhar o grandioso evento. Só eles e nós. Às 3h da madruga, hora do diabo.

Anyway…

O campari desceu. O sorriso saiu. A conversa rolou. A música tocou. Os pés se movimentaram numa pegada meio Thalma de Freitas com Robert Johnson, Elza Soares com B. B. King, Elis Regina com James Brown. Um passo triste meio alegre, alegre meio triste, que não combinava muito com as caras de tacho refletidas nas paredes do lugar. As luzes vermelhas e verdes do espaço é que refletiam e combinavam bem com os olhares desavisados, com a movimentação frenética dos pés, com a tristeza comedida dos sorrisos. E isso acabava, de certa forma, por compor o todo da cenografia, o enquadramento insuspeito da cena. Porém, sabiam todos ali, fato, que eram aqueles movimentos carnalmente compassados, compreendidos em todo o seu intento sexual, com direito a sorriso de olho fechado e bebida de virada.

Era a dança. O maldito e já conhecido jogo.

Próximo à escadaria vermelha, num fumódromo ao ar livre, a fumaça dos cigarros traçou aquela linha contínua, conjunta, solta devagarinho… E não faria mais nada além de sorrir, beber, conversar, dançar. Não queria, talvez, mais nada além de sorrir, beber, conversar, dançar. Não vivia, possivelmente, mais nada além de sorrir, beber, conversar, dançar. Papo vai, papo vem, pausa seguida de profunda respiração, movimento para levar o cigarro à boca.

Não fosse esse suspiro.

Pois foi num desses intervalos suspirados, desses pequenos momentos de falta de palavrório, que aconteceu.

Era o beijo. O abençoado inesperado.

E dessa forma meio cinema boca do lixo, às incertas 4h da manhã, que a fotografia de Verger estampada na porta sorriu. Os poucos pássaros noturnos levaram os agouros da fumaça e arrastaram a cinza batida. O cheiro de cravo masala tocou fundo um stand by me e o olfato respondeu um sonoro and I’ll stand by you. Os corações disparatados acataram algumas dívidas com o tempo passado.

E, claro como a luz do dia que viria, o copo vermelho vazio indicou os rumos do desassossego.

Era o sorriso. O de canto de boca.

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Finjo e quero.

25 25UTC Abril 25UTC 2011

Para ler ouvindo Só sei dançar com você.

Talvez seja só mais um engano.

E se não for?

Tenho de ver o erro cara a cara para reconhecê-lo, isso é fato. Mas tenho tão pouca disposição para isso… Chega de joguinhos por agora, vezenquando quero pingos nos “is”.

E sim, ainda sofro.

Estou farto de minhas loucuras.

Estou cansado de me dar conselhos, de me dar ouvidos, de me dar ajuda. Cansado também de dar conselhos, de dar ouvidos, de dar ajuda. Já me matei muitas vezes por reconhecimento. E não, não fui reconhecido. Já me morri muitas vezes aos solavancos das ruelas, esquinas do centro, calçadas paralelas, corredores de ônibus, escadas de metrô. Lugares de matar e morrer onde me tornei lugar comum, irreconhecível em meio a multidão. E não, não me matei por você em público, pois sei fingir. E sim, a morte da multidão é solitária e não pára o mundo.

Não parei de fingir não me importar com tudo isso, com você. Mas confesso que quis parar.

De me aconselhar, digo, de galgar passos rumo ao desconhecido do reconhecimento. Agora, e só por agora, durante esses trinta segundos de grito no escuro, não quero mais ter de galgar nada por-você-por-mim. Quero me engalfinhar com minha solidão e matá-la com minhas próprias mãos, prazerosamente aos poucos. Quero criar, nascer, ter e recriar, renascer, reter minhas esperanças. Conter e recontar, contar e reconter minhas contas por conta própria. Sem ouvidos pra nada que não saia do fone, da voz rouca de um cantor qualquer.

Não, não vou me aconselhar a repensar o sempre e o nunca. São grandes, gerais e soberbos demais. Vou só sentar na cadeira preta de rodinhas, ouvir a voz rouca de qualquer cantor e pensar na métrica do som. Sim, é fácil assim desaparecer.

Como se fosse, finjo. E sim, finjo não ponderar a possibilidade de parar de fingir, de não desaparecer.

E ainda assim te quero. Quero ficar com você e com minha-sua preguiça, com minha-sua canção de algum cantor qualquer. Quero que você me chame da forma mais bonita que for pra dançar essa canção. Quero a alegria de matar minha solidão. Quero a agonia de perder a esperança, para depois resgatá-la. Quero que você saque minha esquizofrenia quando ninguém a entende. E me faça girar, por favor, pois é tudo isso que o amor e a loucura do-outro-do-eu faz.

De-bom-de-boa-para-com minhas fingidas caraminholas.

O telefone tocou. Não era você. Não era engano. Fingi animação ao ouvir a voz, o causo, toda a história. Aconselhei alguém que amo. Lembrei do trato comigo mesmo de não aconselhar-mais-ninguém-nem-a-mim e parei. Enfim, vai fundo até tudo acabar naturalmente e prometo não falar mais nada. Não acertei a métrica, nem o conteúdo.

Da música, digo.

Afinal, na vida quem perde o telhado em troca recebe as estrelas. Pra rimar até se afogar e de soluço em soluço esperar, o sol que sobe na cama e acende o lençol. Só lhe chamando. Solicitando…

Sim. A música acertou por mim.

A métrica e o conteúdo dos versos são verdadeiros.

Mas não falo mais nada por agora, pois preciso fingir estar tudo certo-errado.

Preciso vomitar, mas me sinto engasgado, como se aquilo que comi ontem não quisesse sair. Tenho ânsia. Ânsias, na verdade, mas o mundo urge e não consigo me mover da cadeira preta de rodinhas. A música continua tocando e não consigo parar de pensar na métrica.

Não da música, do caminho que sigo com-sem você.

De pensar, nem sei mais o que é o alívio.

Só sei de uma canção triste do Tom Zé, um cantor qualquer. Ouvida de um fone vermelho, de uma cadeira preta de rodinhas.

Que não se movem.

E ainda digo que te quero, mas cansei de esperar por você.

E ainda finjo.

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Procura-se avenca desesperadamente

28 28UTC Março 28UTC 2011

Para ler ouvindo Crazy for you, I’ll be waiting e Make you feel my love.

Lembro certa vez li um texto que tinha uma pontuação estranha, com poucas vírgulas e nenhum ponto e uma das metáforas que mais me marcou nesse texto era a comparação entre uma roseira e uma avenca, que um homem desesperado dizia à pessoa amada pouco antes dela partir pra sempre de sua vida, como quem diz que esperava mais dessa pessoa, que para ele representava inicialmente uma roseira, mas que não passava de uma avenca e mesmo assim ele continuava a amando, mesmo sem conseguir dizer a palavra amor nas sentenças desconexas que criava, com todas as letras que essa palavra compõe e acho que fiquei comovido com esse monólogo desesperado, pois de certa forma me desespero e também porque acredito que a palavra amor não deva ser composta assim, só com quatro letras: amor deve ser plural, escrito com quantas letras sejam possíveis, da forma torta que cada um saiba escrever, mas, estranhamente, algo em mim me diz que preciso de alguém singular, de alguém que já conheço sem conhecer, de alguém que desconheço conhecendo, por isso preciso superar uma concepção de amor que creio livre pra cair na armadilha do destino de alguém que não conheço mas gostaria muito de conhecer, entende? aliás, não sei se isso é bem amor ou não, pois nunca soube ao certo como classificar meus sentimentos em relação às minhas relações e o que isso representa pra mim é um mistério, que ainda não sei como solucionar a não ser arriscando minhas fichas em um possível amor que talvez nem tenha possibilidade  de existir, já que estamos todos distantes uns dos outros nesse mundo cão que não abre a boca pra dizer o que sente quando necessita dizer o que está sentido, assim mesmo, no gerúndio, enquanto as coisas estão acontecendo, enquanto o coração ainda está batendo forte perto da pessoa que se venera sem esperar, que se gosta sem conhecer, que te encanta com um sorriso indescritível de crença de que algum dia o mundo deixe de ser tudo isso que é hoje, essa pasmaceira incrível de pessoas mudas, que preferem não dizer aquilo que sentem por medo das expectativas depositadas não corresponderem aquilo que se almeja e, meu Santíssimo Sacramento, desde quando esse sentimento de tudo ser como queremos acontece realmente?  e não sei como te dizer as coisas que gostaria de te dizer, mas fato é que gostei de você desde o primeiro momento que vi uma foto sua numa rede social qualquer num momento qualquer da vida sei que o tempo parou e você estava ali me encarando com seus olhos castanhos e sorriso mais maroto do mundo e quando te vi ao vivo e a cores parece que um buraco se abriu entre nós e toda aquela alegria que via nas fotos parecia estar empalidecida por uma timidez estranha um sentimento de aprisionamento que me deteve que te deteve que deteve meus instintos mais gostosos minhas mais belas palavras e agora não sei como te dizer isso mas gostei de você desde o primeiro momento que vi uma foto sua numa rede social qualquer num momento qualquer da vida que segue com uma aflição velada pelo silêncio que não tive coragem de quebrar pela vida qualquer que segue sem tempo sem olhos sem sorriso e agora que já fiquei sem nenhuma pontuação que pontue meus engasgos na garganta gostaria que você lesse tudo isso que escrevi afoitamente e entedesse cada palavra cada gesto cada pequena minúcia como uma forma de te dizer que quero te conhecer melhor pra que possamos juntos construir.

Qualquer forma de amor.

O texto (des)pontuado a que me refiro é do Caio Fernando Abreu e se chama “Para uma avenca partindo”. E nesses encontros e despedidas, não vejo partida, mas, por enquanto, vejo simples procura, pois como dizem os mais entendidos por aí, quem procura…

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Nossa carne é de carnaval

24 24UTC Março 24UTC 2011

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas as vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Clarice Lispector

Na mesa do bar não existe preocupação. Não quando estou com meus amig@s. Todos falam, todos riem, todos futricam sobre a vida alheia, todos discutem algum tipo de relação bizarra entre uma coisa e outra. Não que não existam desavenças. Essas vem aos montes. Não que não existam histórias tristes, coisas do passado. Sempre rola uma lágrima ou outra. Não que não existam momentos de silêncio. Às vezes eles são meio que necessários. Não que não existam desencontros e despedidas. Que deixam boa saudade, só.

Mas preocupação mesmo, não existe. Estamos juntos pra reinventar a história, pra revivê-la de outra forma, pra fantasiá-la com cores novas, diferentes sabores e cheiros dos mais diversos.

Tem cheiros, cores e sabores que não esqueço. Aliás, que não quero e não me deixo esquecer. O gosto do vinho e da cachaça com mel, o cheiro do mutuca, da chuva e do perfume no cangote, as múltiplas cores do carnaval. E isso me lembra mais mesas de bar e o quanto sou louco por elas: pelas conversas de botas batidas, pelas discussões políticas em voz alta, pelas confissões ao pé do ouvido, pelas paixonites agudas que mantém a chama acesa, a roda vida, a voz ativa.

De tanto relembrar, de tanto reviver, consigo remontar e refantasiar perfeitamente uma grande mesa de bar, com todos que, de diferentes formas, com diferentes copos e bebidas, passaram e ficaram em minha vida. Imagens reais de um Brasil que amo, de São Paulo a Minas Gerais, de cerveja a cerveja, de cigarro a cigarro, de sorriso a sorriso, de história a história.

Por tudo isso sei que sou Atrás da Porta: me arrasto, me arranho, me agarro em seus cabelos, nos teus pés, no tapete atrás da porta… Sou passional demais e tenho aprendido a ser mais contido, mais objetivo com meus quereres e meus prazeres, sem deixar de lado o amor e a saudade que sinto. Que fique claro: objetividade não é prisão, nem perda de subjetividade, é uma leveza nos sentimentos, um equilíbrio essencial à delicada ecologia de meus delírios.

Sei, logo de cara, que nem todos à mesa são como eu, graças a Jah. Aliás, tenho observado que muitos de meus amigos e amores representam pra mim um oposto, igualmente amoroso, mas sem essa passionalidade toda. São Mil Perdões: te perdôo por fazeres mil perguntas, que em vidas que andam juntas ninguém faz, te perdôo por pedires perdão, por me amares demais… São aquele gostar meio escondido, aquela objetividade exacerbada, que não deixa os sentimentos aparecerem à primeira vista, nem à segunda. Uma racionalidade tamanha que não deixa determinadas vontades emergirem por si próprias. Aprendi, creio eu, com essa minha busca por uma passionalidade mais branda, a respeitar essa maneira de agir, essa forma de adorar pelo avesso.

Porém, como a mesa de bar é sempre um espaço de democracia, todos nos propomos a sentir o que o outro sente, ou temos procurado fazê-lo, à nossa maneira. E espero, nessas andanças de mesa em mesa, de bar em bar, ter dado um pouco do meu coração passional aos que dele querem sentir algo. E, tenho certeza que, da mesma forma, absorvi muitos desses pensamentos de mentes racionais, de que tanto preciso pra me transformar.

Afinal, vida é troca, vida é luta, vida é delírio, vida é transformação.

E dessa vida, a única coisa que sei, amigos e amigas, é que quando estou junto de vocês, quando nos conversamos, quando nos abraçamos, quando nos beijamos e quandos nos amamos, não somos nem Atrás da Porta, nem Mil Perdões.

Somos todos Folhetim. Somos todos Dê um rolê.

Somos, definitivamente, amor da cabeça aos pés.

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Mil razões, mil perdões

3 03UTC Fevereiro 03UTC 2011

Para ler ouvindo Atrás da Porta e Mil Perdões.

Toc-toc.

- Quem bate?

(Desce o som. Vazio. Sobe aquele cenário escuro, aquele suspiro frio e enevoado, como nos filmes de suspense)

- É o calor.

(Bobagem! Todos sabemos como essa cena começa)

Pelo vão da porta, logo senti que era o frio disfarçado. Não a abri e nem quero que seja aberta, mas continuo em frente à maçaneta, vezenquando olhando pela fechadura. O frio, disfarçado de calor, me encara como uma criança triste, sentada no frio do viaduto, esperando a benvinda redenção. Sinto seu olhar de ódio desviado, falso ao mesmo tempo abatido, que me tenta a deixá-lo entrar novamente.

- Não. Já te perdoei por me perdoares, mesmo quando se vitimizava em suas próprias entranhas.

(Donde eu tanto me entrenhava…)

Por que retornar à minha vida assim, mesmo pedindo a devida licença? Por que ainda sente prazer em me atormentar, me fazer de bobo perante meus próprios olhos? Se você sempre olhava pra baixo quando conversávamos… Por que? Minha figura nunca foi austera, nunca foi assustadora, nunca foi fundo de mar. Fui teu cais, pois resvalei-me de meus mais castos mistérios, de meus mais belos acasos. Por você e por mim. Por isso mesmo acabou… Por eu estar ali, nu em pêlo, mesmo sem querer, sem minhas melhores mentirinhas.

Meus olhos estavam tão cheios de mim mesmo que não conseguiam olhar pra você? Era isso que você pensava, sempre pensou, eu sei. Isso me magoava, entristecia, matava um pouco a cada dia, pois percebendo meus olhos, você deixava de reconhecer os seus, que se perdiam numa ilusão vitimizada, que não conseguiam enxergar toda a maravilha refletida no espelho. O todo de sua divina obra, tua imagem refletida. Criação tua, só tua.

(Donde eu tanto me entrenhava…)

O que queres de mim novamente? Que além de deixar pra trás minhas mentirinhas, deixe pra trás também meus questionamentos? Que eu me remexa num túmulo de histórias passadas enquanto você se martiriza de um sofrimento que nunca sofreu? E se sofreu algum dano, não foi por tua própria causa, de teu olhar que não te olhava? Hoje, esses mesmos olhos que, segundo suas aspirações, pensavam só neles mesmos e no rosto em que se encaixavam, vêem com certa clareza toda aquela situação: tudo aquilo pra se fazer de vítima das situações cotidianas, pra me vestir de bicho papão perante seus amigos.

Plano traçado durante quanto tempo, quantos carnavais? Precisava? Fui tão mau assim? Passei dos meus próprios limites por insistência, creio. Mas, se passei, foi por você. E por mim. E pelas contas que contei. E por acreditar do fundo da alma que daria certo. E é por aí que errei e é por aí que hoje acerto: respeito a delicada ecologia de meus sentimentos, de meus mórbidos desejos. Sem ao menos sentí-los, sem ao menos desejá-los. Conselho: faça isso também com teus belos olhos…

(Donde eu tanto me entrenhava…)

O teu olhar, por fim, era de adeus. O meu, de esperança.

E sabe por que foi assim?

Por que meus olhos foram tudo que me sobraram. O resto todo era seu.

E hoje, quase tudo é meu novamente. Retornando em doses homeopáticas, em pequenas prestações, fragmentos de mim que se desgarraram de ti, que te esqueceram pelos cantos escuros das noites azuis, dos suspiros enevoados atrás da porta. Meu olhos e meu corpo querem ser de alguém que não você. Ainda bem!

Por isso pare.

Por isso repare.

Por isso não volte.

Por isso não revolte.

Sua tristeza nunca foi maior que a minha. Nem menor. Somos democráticos em relação ao sofrimento sofrido.

E se te amei pelo avesso, o erro foi meu e dos teus olhos.

Isso, porém, não faz de mim um crápula. Um inocente idiota, talvez. Nada de tão horrendo que justifique tuas ações.

Afinal, amar pelo avesso também é amar. Ou não é?

No mais, acabou, o frio se foi.

- Te perdoo.

h1

À exceção do amar

30 30UTC Setembro 30UTC 2010

Para ler ouvindo The only exception, a única exceção à regra do Paramore.

Pé com pé, manso de tudo, desinteressado, braços frouxos, bornal jogado no ombro, respirou fundo, girou a maçaneta. Blasé.

Tirou os óculos escuros da avó, olhou pra esquerda, percebeu um olhar. Belos olhos. Conteve-se.

Sentou no corredor de cadeiras vazias, ouviu a palestra durante exatos dois minutos e trinta e sete segundos… Abriu o livro de cabeceira. Começou a devorar silenciosamente cada página, como se entrasse naquele mundo bandido, biográfico e dele fosse parte. E era, de certa forma: um pouco de louco, um pouco de herói, um pouco de místico, um pouco de renegado, muito de sonhador, assim como o amigo relembrado no livro, seu escritor favorito. Leu até sentir sede. Não queria se levantar e sair da sala, não queria ser percebido. Preguiça versus sede. Round 1. Fight!

Nem precisou sair do primeiro round: sede wins.

Ao abrir a porta, garganta seca e garrafa de plástico em mãos, avistou numa conversa a dois aquele belo par de olhos, que novamente o encaravam. Decidiu, meio a contragosto do raciocínio padrão, tirar o coração do automático, do sistema de defesa anti-vírus e como se levantasse de um trono todo empoeirado e cheio de teias de aranha, foi puxar conversa. Venerava esses acasos, esses pequenos momentos de mistério, de indecisão até levantar do próprio trono e sacudir a poeira; ao mesmo tempo que os temia. Tinha medo de todo esse processo, de se decepcionar, de não ser retribuído. Mas o fato é que deu as caras. E percebeu, além dos belos olhos, um leve, sutil, mas, ainda assim, grande sorriso. Para o bem de seu coração, que funcionava momentaneamente no manual, os olhos em comunhão com o sorriso indicavam ao raciocínio padrão, já todo despadronizado, a esperada retribuição, resposta mais que bem-vinda ao acaso e ao mistério que o moviam. Sem ter nem saber, retribuiu também com um belo olhar e um grande sorriso.

- Vamos fumar um cigarro?

- Não fumo nada com nicotina, mas te acompanho.

Risos.

O restante, de certa forma nada particular, é história, como dizem por aí. Se conheceram, se reconheceram, fizeram novos amigos, se tornaram amigos, compartilharam algumas noites, algumas manhãs e construíram uma pequena história. Uma grande epifania, na verdade, acompanhada de um quarto bagunçado, uma cama de solteiro, um edredom azul, um travesseiro molhado de suor, milhares de beijos de cinema e abraços tão apertados e entrelaçados que até um marinheiro se os visse sentiria vergonha por seus nós. Dois tímidos “eu te amo”, no final, vindos de ambas as partes e seguidos de outros beijos e abraços, agora de despedida.

Uma história clichê e nada particular. Isso se um deles, há muito tempo, não tivesse jurado nunca mais dizer, com tamanha precipitação, a expressão “eu te amo”, mesmo que ela fosse entremeada de um inseguro “também” e seguida de um sorriso amarelo. Para ele existia, e talvez ainda exista, certamente, um medo, um receio, uma dívida bastante viva com essa expressão: é forte demais, traz com ela muito de passado, de momentos que doem, doíam. E pode te derrubar, ou pior, derrubar alguém, como uma bala perdida. E o havia derrubado, certamente. E derrubado alguém, não sabia.

Pesadelo passado, retornou ao sonho presente.

Acordou…

Acordei, finalmente.

E ao acordar do ferimento a bala que havia sofrido há anos, acordei desse acaso, desse mistério, desse sonho em terceira pessoa, que nunca acontecia comigo. Até então. Acordei do sono que havia dormido tanto tempo, que me transmitia ausente esse tom de inexistência, de neutralidade, de terceira pessoa. Percebi, abruptamente, que em anos de sonho ao avesso, você foi um tipo de alvorecer, de despertar. Minha primeira quebra de juramento. Sem também, sem sorriso amarelo, sem medo, sem bala perdida, sem arrependimento.  E da próxima vez, vou me precaver pra não me preparar, pra não jurar, pra não esperar. Vou acreditar nessa mística particular dos nossos lábios, dos nossos abraços apertados, dos nossos corpos nus, das nossas noites e das nossas manhãs. Dos nossos sorrisos, nariz com nariz. Afinal, acaso é palavra de ordem e mistério sempre há de pintar por aí.

E, até então, você é dos meus melhores acasos. Dos meus melhores mistérios.

E minha breve e única exceção pro verbo amar.

h1

24 parágrafos

9 09UTC Setembro 09UTC 2010

ou Da janela do quarto.

Vinho e cigarros. Vinho e cigarros. Vinho e cigarros…

Fecho os olhos e tento lembrar. Bem apertado.

Como começa essa história?

Lembrava ontem, hoje não lembro mais.

Merda…

Tinha lua, tinha gato, tinha árvore, tinha recados, tinha uma mesa cheia de porcarias, um edredon sujo.

Merda…

Acordei por volta das cinco ou seis da tarde com o vento. Não lembro que hora fui dormir. Só sei que já era noite. A árvore quase que totalmente depenada ainda jorra pela janela pequenas folhas amareladas no meu edredon azul. Tipo de frio. Árvore filha-de-um-puta-mal-paga, sujou todo meu edredon com essas merdas de folhinhas amarelas. E como tirar essas merdinhas amarelas do trilho da janela, da beirada do pé da cama, do chão do quarto todo? Não sei bem o que faço por aqui, deitado, friorento, tentando dormir um sono que não existe enquanto todo o mundo está acordado. Às seis da tarde…

Lembrei. É dia de comemorar. Aliás, é véspera de comemoração.

Acendi um cigarro logo que levantei. Fui pra beira da janela, coloquei Beauty is within us pra rolar, som de Scott Matthew. Onde ouvi isso a primeira vez? Não, não é de Shortbus. Acho que é de Ghost in the Shell, mas não tenho a máxima certeza, nem a mínima vontade de pesquisar. Deixei rolar, fácil assim, afinal, a beleza está dentro de todos nós, é como uma rosa que está pra desabrochar e blá blá blá blá. Só quero ouvir uma música que dê pra chegar até o meio do cigarro, depois escolho outra, aleatoriamente pré-requisitada, pra outra metade. Psychedelic Soul, mais do mesmo. Antes que o cigarro terminasse senti uma vontade quase que irrefreável de encostar os lábios na cantoneira de metal da janela. De segurar firme as mãos na parede ao lado da janela. Como se agarrasse alguém, como se aquele enconstar de lábios contra o metal e de mãos contra a parede fossem um simulacro daquilo que eu mais desejava durante esse tempo todo de sono, sonho e cigarro.

Uma marca quase imperceptível de respiração ofegante foi desaparecendo lentamente da superfície metálica, enquanto a chama do cigarro se esvaia e os últimos tragos estavam por vir.

Não tinha muito o que comemorar, pensando bem, analisando minha atual situação de desprendimento com o mundo e de literal agarramento com a parede do quarto e com o metal da janela.

Parei de pensar. Não há pra onde fugir, não há contra o que ou quem lutar. Não existem razões, nunca existem, não é mesmo? Por que pensar, então? Melhor: em que pensar? Na situação que acabou de acontecer ou nas situações que já aconteceram antes dessa, muito parecidas por sinal?

Não há nada em que pensar.

Vesti uma roupa, peguei uma blusa de frio, calcei as havaianas e saí. Meio sem rumo, creio. Precisava comer. Comprei uma pizza, metade moda da casa, metade frango com catupiry, uma coca-cola, vi algumas pessoas, não olhei nenhuma no rosto, fui até à padaria, comprei pão, presunto e queijo, vi mais algumas pessoas, não queria olhar em rosto nenhum, andei alguns metros, merda, voltei à padaria, comprei um maço de cigarros, este produto contém mais de 4.700 substâncias tóxicas, e nicotina que causa dependência física ou psíqui…, saco, nem se pode comprar um pão em paz!

Não. É proibido comprar pão.

Voltei lento pra casa. Acompanhava o passo não-passo dos gatos preguiçosos que habitam as ruas desertas de feriado. Avistei alguém fumando, cigarro de filtro amarelo, enquanto esperava o cachorro, um poodle branco mais que horroroso, fazer as necessidades noturnas. Tanto a tarefa quanto o cigarro pareciam não ter fim, tanto que me acompanhou com os olhos disfarçados de boné até minha chegada em frente ao portão. Walking after you, Foo Fighters, tocou baixinho em minha cabeça. Estranha fantasia.

Subi a escadaria, tomado pelas paredes e pelas vigas de metal, até o terceiro andar. Passei pela velha porta branca, pela porta de mogno, pela porta de Dona Nena, avistei o tapete colorido, bem-vindo, entrei. I’m on your back. Barulho de chuveiro, adoro água, doce, de preferência, por favor. Pus a pizza na mesa, o pão na cozinha, os frios na geladeira, o maço de cigarros perto da janela da sala, junto do cinzeiro. Pratos na mesa, talheres também, condimentos idem. Comemos, conversamos, olhei pouco para os lados. Fui pro quatro, fumei uma metade ouvindo 20 anos blues e a outra, Batucada da vida, ambas de Elis.

Meia-noite. Meio-cigarro. Meio-apático. Toca o telefone.

Parabéns! Abraço! Te amo muito! Sinto sua falta! Queria você por aqui! Agora você já tem a nossa idade! (risos, não meus, até então).

A partir daí, e só daí, comecei a lembrar. Comecei a desprender alguns sorrisos, pequenos que fossem. E fui me lembrando de coisas, que talvez já não façam mais parte de mim, não sei. Lembrei que sempre tentei ser um cara legal. Lembrei que tenho família e amigos e que os amo muito. Lembrei que já fiz coisas das quais me orgulhei com força. Lembrei, principalmente, que existem formas de lutar e lugares onde resistir. Kamchatka. Lembrei de alguém que, despercebidamente, passou pela minha vida. E espero que volte. Lembrei de mim. E essa foi uma boa lembrança.

Cantei É com esse que eu vou e Só tinha de ser com você em voz alta, enquanto saía de casa, enquanto esperava o ônibus, enquanto andava pelas ruas do centro. Daí em diante, desprendi sorrisos mais largos, mais cheios de mim, de alguém, de todos que amo. Ao olhar pela janela, vi mais que folhas amarelas.

Vi o sol.

E os brotos novos que saem dos galhos da árvore.

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