h1

A viagem de Julieta

Julho 1, 2009

Julieta dos espíritos

Da série “Recordar é viver!”

Não esperava muito de uma noite enfadonha de terça-feira. Resolvi passar na locadora para ver as novidades, mas, de sobressalto, acabei locando um filme bem antigo.

Digamos que tinha uma capa pouco convidativa. Claro, pouco convidativa aos olhos da explosão colorida de efeitos sobrenaturais que a atual cinegrafia tenta passar aos espectadores através das capas dos filmes. Da mesmo que aqueles roteiros dos quais escorrem ladrões, mocinhos, beldades e tantos outros atores de fama internacional, que acabam tomando a cena de tal forma que a história acaba se perdendo, tendo pouca importância.

O fato é que não esperava assistir a um filme que trouxesse uma atmosfera tão carregada de cores, sentidos, emotividade e, acima de tudo, uma maneira tão única de ver e expressar a mística do “fazer cinema com paixão”.

Julieta dos Espíritos (Giulietta degli Spiriti, Itália/França, 1965) conta a história de uma mulher que, ao desconfiar que o marido a traia, começa a ser acometida por visões.

Mas não pensem que se tratam de visões com espíritos malignos ou com aquelas aparições fantasmagoricamente toscas. Esse contato com o (sur)real, com um outro mundo de significados, leva Julieta (Giulietta Masina) a uma jornada de novas descobertas que a fazem despertar para a vida.

Despertar para sensações nunca antes sentidas. Despertar para aquilo que realmente traz unicidade e valor ao “ser vivente”, para tudo aquilo que realmente importa quando nos deparamos com as nossas reais necessidade e desejos.

Peço desde já desculpas a qualquer leitor que tenha chegado ao final deste texto, mas é meio difícil ser claro, conciso e jornalisticamente objetivo quando, pela primeira vez, assisti a uma obra-prima tão cheia de cor e esplendor, do mestre atemporal Federico Fellini.

Gozei!

É até bom salientar que o filme concorreu ao Oscar nas categorias “Direção de Arte” e Fotografia”, além de ganhar o prêmio Globo de Ouro de “Melhor Filme Estrangeiro”. Aliás… Não precisa de nada disso não… É Fellini!

O que vale mesmo salientar é que no texto original, pro site “Dentro do Balaio” que a gente montou no curso de comunicação da UFV em 2007, eu não escrevi a palavra “Gozei!”… Ainda era um jornalistinha meio retraidinho com as palavras. E com o sentido delas… Chato, né?!

h1

café. cigarros. miçangas.

Junho 26, 2009

senhora café

Andou uns dois quarteirões até chegar ao ponto de ônibus. Sentou-se no banquinho verde de madeira da praça da matriz, logo em frente ao ponto.

Precisava pensar… Aliás, não precisava, mas queria pensar um pouco no que iria fazer, pra não cair na trama desordenada dos atos precipitados. Se bem que precisava de um pouco de desordem em sua vida.

Num assalto pegou a mala, a gata, que dormia de barriga pra cima, e subiu no primeiro ônibus que viu passar. Coincidentemente ia até saída da cidade. Logo que subiu o primeiro degrau, lembrou-se de algo que não poderia deixar de fazer: despedir-se.

Pensou em tudo que iria falar, em tudo que precisava desabafar. Em tudo que tinha sofrido, em todas as noites mal dormidas, em todas as lágrimas que havia derramado. Precisava pensar nisso tudo novamente, pra dar a última cartada, pra esquecer tudo de vez e viver uma nova vida.

Chegou, finalmente, à Alameda dos Anjos. Olhou de cima pra baixo a figueira frondosa, com suas raízes imponentes rasgando o concreto afora. Avistou logo as escrituras acima das abóbodas ogivais que contornavam o portão de grades azuis: “Nós que aqui estamos, por vós esperamos”.

Adentrou o cemitério segurando firme no peito a convicção que há muito não sentia. Andou por todo o caminho de ipês amarelos até chegar ao túmulo de Salvador. Apesar das margaridas mofadas e da cera de vela espalhada pelos cantos úmidos, dava ainda pra ver a foto envelhecida e a escritura com os dizeres “Tudo transformou enquanto viveu”.

Hilda tinha tanto o que dizer, tanta coisa entalada na garganta, tanto sentimento pulsando, escorrendo pelas veias… Mas não. Conteve-se.

- Você não me conheceu completamente. Talvez não fosse minha outra metade. Mas é certo que nos amamos. E muito… Isso é certo… Certíssimo…

Derramou uma lágrima só.

Voltou-se de costas ao túmulo no intuito de seguir seu novo caminho.

Um sopro de ar contido fez com que Hilda se arrepiasse. Parecia uma resposta de Salvador. Um acordo. Uma aprovação.

Sem querer deixou a caixa com a gata cair no chão. De súbito o animal, que dormia calmamente, correu assustado em direção a um beco cheio de entulhos próximo à saída do cemitério.

Hilda não se apavorou. Dirigiu-se ao beco e começou a chamar pela gata. Sentiu-se um pouco como Audrey Hepburn em Bonequinha de Luxo, mas sem desesperos. Ruborizou ao cogitar a possibilidade da chuva torrencial, do momento místico, do grande amor à espreita… Enquanto subia o som de Moon River num beijo apaixonado…

Desistiu da gata.

Deixou ali a caixinha de madeira com um recado: “Quem encontrar uma gata siamesa, de rabo cortado, com cara de fome, cheia de safadeza,  favor adotá-la.”

Antes de ir, resolveu deitar-se por alguns minutos ao lado de Salvador. Trocaram carícias de brincadeirinha, conversaram-se, amaram-se, sentiram-se pela última vez. Afinal, eram as últimas carícias de um casal feliz.

Nem cogitava Salvador que além de tudo que transformara em vida, havia tudo transformado após sua morte. E que enquanto as flores do ipê caíam, Hilda reviveu alguns bons anos. Pronta para viver os próximos.

Ao som de Moon River, fumando da piteira do tempo, deu-se conta de que aquele era certamente o último momento a dois.

O último adeus.

h1

A alguém conhecido-desconhecido

Junho 12, 2009

conhecido-desconhecido

Corre calma, chama de pavio. Corre calma… Tua hora inda há de chegar. Just pray for somethig good…

Para ler ouvindo Yael Naim.

Saí de casa tarde, pra beber e fumar alguma coisa.

Mentira.

Procurava alguém… Conhecido-desconhecido. Não sei bem…

Passei pelos bares e não vi nada, nem ninguém. Andei pelas ruas escuras de chuva… Passei pelo puteiro, pela lanchonte, pelos postos de conveniência. Não, não consegui comprar um cartão telefônico. Queria tanto ligar pra alguém, não sei quem.

Mentira.

Eu sabia muito bem pra quem queria ligar, mas não tinha o número. Nem sabia se deveria…

Voltei pelo mesmo caminho, esperando que algum conhecido-desconhecido estivesse sentado na porta de casa. Esperando por mim, com uma garrafa de vinho e um sorriso estampado.

Só quando cheguei lá me lembrei que coisas assim não acontecem.

Sinto que estou por fora, quando uma grande bagunça acontece por dentro. Vivendo pra ver tudo queimar e virar cinza.

Nada. Não é nada disso que quero mais.

Pois ao final de cada noite, sinto que perdi a noção da hora. E que, sozinho, joguei tudo fora.

Ninguém, afinal, me diz quando ei de partir.

Muito menos quando ei de chegar…

Lá.

h1

Não volte, Lucía!

Junho 12, 2009

Lucía

Na noite-tédio de sexta, liguei a TV na tentativa de cair no sono. Assisti Jô Soares, vi umas duas ou três entrevistas de não sei quem e acabei percebendo o quão o nome dele é estranho… Jô de quê?! João? José? Joaquim? Bem… de qualquer forma é um nome de sonoridade feia…

Depois assisti o Som Brasil, vi Aline Calixto, uma cantora que começou em Viçosa, cantando agora com Martinho da Vila. Fiquei um tanto quanto nostálgico… Nossa! O tempo passou e eu nem vi… Parece que foi ontem que cheguei de ressaca do Leão depois de uma noite de Beba do Samba.

Depois disso, ainda sem sono algum e com uma pequena euforia nostálgica dos tempos passados, assisti o Inter Cine, vi um filme horroroso sobre vampiros e lobisomens. Um massaroque desembolado em que uma vampira se apaixona por um ser humano que vira lobisomem e depois vira um vampirosomem, que é uma coisa que nem os seres humanos, nem os vampiros e nem os lobisomens sabem direito o que é… Só se sabe, o que era de se esperar, que eles ficam juntos no final. A vampira e o vampirosomem. Mas, de qualquer forma, bom ou ruim, assisti o filme todo sem titubear.

Foi assim, com os olhos marejados de sono e com uma pequena esperança de conseguir dormir, que conheci Lucía.

Uma mulher interessante, bonita, sofisticada… Grande escritora de livros infantis, que estava prestes a viajar pro Rio de Janeiro com o marido. Nada anormal, até o momento em que o suposto marido desaparece no aeroporto em meio às bagagens.

As coisas ficam ainda mais estranhas quando Lucía percebe que aquela história que contava não era sua. Pelo menos não completamente: era escritora, mas não era famosa; não era tão sofisticada quanto aparentava inicialmente, mas não deixava de ser interessante.

Pois bem… Seu marido desapareceu misteriosamente. O que fazer?

Bem… O primeiro passo é falar com a polícia sobre o desaparecimento. Isso, se os sequestradores não tivessem ligado antes pedindo um resgate de 20 milhões!

Mas de onde Lucía, uma escritora falida, com um marido falido, iria tirar 20 milhões?!

Claro! Da conta sigilosa que o marido mantinha, com 20 milhões de dólares.

Bem… É aí, na  verdade, que começa a história de Lucía, quando ela conhece seus vizinhos: um senhor, veterano de guerra, e um jovem músico, que tentam ajudá-la a descobrir onde está o marido e porque ele teria 20 milhões de dólares em sua conta.

Mas não é o desenrolar e o desfecho dessa história que fizeram com que eu me interessasse por Lucía, mas seu desprendimento do real. Mesmo em meio a toda merda que era sua vida, e depois, quanto tudo se tornou uma merda maior ainda, ela tinha aquela capacidade que poucos tem de vislumbrar novas possibilidades… De criar novos mundos, novos amores e novas Lucías.

Gosto de imaginá-la no vestido de festa vermelho, com taças de champanhe na mão, esperando seu amor juvenil bater à porta.

Apesar da vida nem sempre ser como a gente espera ou gostaria que fosse, não volte, Lucía!

Continuemos sonhando…

O seu (e o meu) desejo são os rastros que ficaram do dia.

E nunca acordamos desse sonho.

E nunca dormimos…

Aos olhos de uma mulher (Lucía, Lucía ou La hija del canibal, 2003, Antonio Serrano)
h1

Just let the sun

Maio 27, 2009

Just let the sun

You take it easy
You walk on your own
Look for the sunshine you’ll find your way home

Just let the sun
Shine on your face

- Vocês são iguais a ela… Aquela degradada, débil… Ficam buscando essas formas alternativas pra ver as coisas!

- Ser diferente é ser alternativo? Se for, é isso mesmo. Não tem como. Vai ficar tudo do jeito que está.

- Vocês viram onde ela foi parar agora, né? Com todas essas alternatividades… Vocês viram onde ela está com suas loucuras e desvarios? Tá lá, a sete palmos! Aquela vadia! Nos deixou pelo mundo…

- Não há mais espaço pras suas normatividades em nossa vida. Chega de hipocrisia. Amar não mata ninguém. E ela morreu muito feliz, se quer saber. Pediu que eu lhe desse um beijo e um abraço de despedidas. E disse que espera lá do céu, ou do inferno, que você ainda possa ser feliz. Assim, como ela procurou ser.

- Eu quero mais é que ela queime. E que vocês mudem! E vejam que tudo isso é passageiro! Que na vida só nos resta seguir.

E ela queimou.

Na verdade, todos queimaram. Por dentro, por fora, de raiva, de prazer…

E o mundo inteiro mudou.

Na verdade, pra pior. Só eles, e alguns outros, foram felizes de verdade.

Pois tiveram coragem pra deixarem de ser passageiros e tomaram a boléia do trem desgovernado.

Perceberam a tempo que a vida não é só seguir.

Pero seguir luchando.

Y poniendo el cuerpo…

h1

Blues da madrugada

Maio 25, 2009

blues

Para ler ouvindo You don’t know what love is.

Desceu pela primeira vez naquela estação.

Era o início da nova rotina casa-trabalho, trabalho-casa.

Cabeça baixa, taciturno, atravessou a estação como quem se encontra perdido e assustado no meio de um mar de gente. Mas não havia quase ninguém no pátio central da estação. Não naquele horário. Alguns travecos debochados, algumas putas cansadas, dois ou três cafetões tirando o último sarro do dia…

Não, não tinha medo dos degradados e degradadas da madrugada. Era mais um que chafurdava. Mais em pensamento que em ação, mas ainda assim chafurdava.

Espantou-se por alguns instantes com a desgraça alheia. Depois sorriu da própria desgraça. Um sorriso meio amarelado, ainda de cabeça baixa. Mas era um sorriso, sem dúvida.

Foi aí, nesse momento-preguiça-de-viver, que ouviu a música que mudaria sua vida. Caiu como uma estrela do céu. Iluminou-o.

Um blues.

Parou um instante no meio do pátio, levantou a cabeça para ver daonde vinha a voz e o sax.

Encantou-se. Pelos lábios que cantavam com tanta veemência, com tanta dor.

Percebeu de imediato que aqueles lábios haviam sido deixados. De imediato, percebeu também que queria-os pra si.

Tentou trocar um olhar, um sorriso amarelo, mas não conseguiu. Os olhos dos belos lábios estavam fechados, chorosos…

Com o tempo, os passos pelo pátio da estação foram ficando um pouco mais alegres. Todo dia um blues diferente. Todo dia os mesmos lábios. Todo dia os mesmos encantos e as mesmas dores de amor. Nenhum olhar, nenhum sorriso. Praticamente as mesmas reações iniciais.

Um santo dia, uma terça, às três da madrugada, passava mais uma vez pela estação, cabisbaixo e taciturno.

Foi quando a música parou e ouviu um grito, um chamamento.

- Ei, ainda são três horas! Você só passa às quatro!

Sentiu um arrepio gelado, visceral, mas gostoso. Sentiu que era pra ele que aqueles lábios se dirigiam.

- Esqueceu que o horário de verão acabou?

Pensou um pouco, sorriu. Bendito horário.

- Acho que perdemos a noção da hora…

Até pegar o ônibus pro trabalho ficaram conversando. Tomaram um pingado, comeram um pão de queijo. A tristeza dos meses se fora para ambos. Não viam a hora do partir. Queriam os desvarios e as travessuras das noites eternas. Sentiram-se como partes soltas no mundo recém-encontradas.

Deixaram o passado e foram verdadeiros. Fizeram as perguntas e deram as respostas. E, juntos, jogaram tudo fora. Agora estão aqui, após tanto tempo, perto de mim, esperando juntos o trem na estação. Ambos chorosos.

- Estou te deixando pela última vez. Você acha que me ama, mas não… Você não me ama. Até aprender a amar, você tem que perder.

Só escutei, com o sax na mão. Não ousei interferir, pois eram os mesmos encantos e a mesma dor dos amores e dos dias passados no pátio da estação.

Foi-se… Os belos lábios ficaram sozinhos novamente, após tanta espera, após tanta procura, após tanto blues.

Mal sabiam esses lábios que o maior parceiro, o maior amor, estava logo ao lado. Com o sax na mão. Na espera, na escuta.

De tempos em tempos acordo com uma puta vontade de gritar, de declarar meu amor e minha saudade.

Ontem, e só por ontem, acordei pra ir até a velha estação.

Pensei nos amores que nunca tive, nas respostas que nunca dei, nos blues que nunca toquei, em todas as vidas e histórias que presenciei sem presenciar, sem ter e nem tocar da maneira que queria.

E hoje, e hipocritamente só hoje, não sei porque acordei bêbado e fumado.

Com o intuito de amar. Na esperança de também ser amado.

Pelos lábios, pelos ouvidos, pelos olhos…

h1

Livro de Cabeceira

Maio 6, 2009

Φ Capítulo 1 Φ

- 4ª Página – Soneto de Desanuviar -

Tudo mudou.
Nada mais está no lugar que estava antes.
Uma nova vida desabrocha na rua apinhada de bares, amores e boemias…

A xícara, o cinzeiro, os livros, os chapéus, os filmes, as fotos, a colcha, o quadro de avisos,
Até os amigos, os desafetos, os encontros e os desencontros,
Tudo e todos em seus novos lugares.

Agora acordo com preocupações a menos e responsabilidades a mais,
Principalmente comigo mesmo, com minha alma, com meus amores…

Realmente,
Valeu a pena ganhar o dia fazendo rimas de ontem,
Pois estou mais seguro de cantar as prosas de hoje,
Cogitando escrever os livros do amanhã.

Mas, agora…
E só agora…
Meu pensamento tem a cor do seu cabelo.

Espero.

Mas não sentado. E nem de braços cruzados.
Sou todo amor, sou todo afeto.

- Listas -

Cinco Vontades:

- Abraçar minha família e meus amigos.
- Sair pra beber e sambar.
- Comer um pote de Nutella.
- Beber vinho assistindo filme.
- Traaaaaaaaaaaansar!

Cinco Músicas:

- Girassol da cor de seu cabelo – Clube da Esquina (letra)
- Mercy – Duffy (letra)
- Segue o seco – Marisa Monte (letra)
- Cherry – Amy Winehouse (letra)
- Lover, you should’ve come over – Jeff Buckley (letra)

Cinco Filmes:

- Chicago – Rob Marshall (torrent / wikipedia)
- Hair – Milos Forman (torrent / wikipedia)
- Kill Bill – Quentin Tarantino (torrent / wikipedia)
- Closer – Mike Nichols  (torrent / wikipedia)
- A liberdade é azul – Krzysztof Kieslowski (torrent / wikipedia)

h1

Filosofias de um cagão…

Maio 5, 2009

cagao

Acordei cedo. Quase não dormi a noite toda.

Estava com o c* na mão.

Lavei o rosto meio assustado, limpei bem a boca com a escova de dentes, passei o fio dental, anti-séptico bucal, gargarejo. Ainda assim a gengiva sangrava sem ter nem saber.

Deu aquele frio na espinhela. Um medo da porra de ser coisa séria.

Fui quieto pra caminhonete pra não deixar transparecer o nervosismo. E fiquei quieto quase a viagem toda, só pensando em que daria aquela visita ao médico.

Tudo passou rápido demais. A estrada, os motel, a escola onde estudei, a praça onde sentava pra ler… Quando vi já estava na sala de espera do otorrinolaringologista.

Não sei porque tinha tanta criança naquele consultório! Pelo amor de Jah Rastafarah! Hoje em dia não se pode ter um momento de drama na vida sem barulhos incômodos de pessoas felizes?! Ainda por cima eram pessoas felizes  que seguravam bebês rechonchudos, remelentos e risonhos!

Minha mãe conhecia uma das mães felizes. Conversou, conversou, conversou e nem me viu ser chamado pelo médico.

Andei meio troncho pelo corredor, como quem faz gracinha em momento sério pra descontrair com o próprio destino.

Sentei na cadeira e, quando dei por mim, estava frente a frente a um senhor de cabelos brancos, cara de nordestino e óculos preto fundo de garrafa. Quase gargalhei enquanto estendia a mão pra cumprimentá-lo.

Repentinamente me esqueci de tudo que me afligia. Passados dois minutos de perguntas corriqueiras, o nordestino cego de cabelos brancos diagnosticou rinite, amidalite, desvio de septo, gengivite intermediária e cistos glandulares. Nada que não pudesse ser tratado com facilidade, segundo ele.

Receitou uns quatro remédios, escovação correta, enxaguatório bucal constante. E aqueles conselhos de sempre.

Saí da sala tão risonho quanto as mães com as crianças a tiracolo.

Engraçado como dez minutos acabaram com uma preocupação de quatro meses. Engraçado como o medo de não pertencer mais a este mundo faz a gente mudar nossas concepções em relação à vida que levamos.

Depois de dez minutos no consultório das mais pessoas risonhas e fofas do mundo, decidi ser mais sincero comigo mesmo, mais saudável e um pouco menos medroso.

Já se passaram duas semanas desde então e acho que ainda não cumpri com nada do que me auto-prometi. Mas, de tudo, penso que valeu a pena passar por tudo isso, pois já escrevi esse texto, tomei uma dose maravilhosa de cachaça pra agradecer o santo e acabei gastando toda a filosofia de buteco que tinha armazenada só pra repensar com mais sinceridade e carinho por onde andava minha vida.

No mais, me sinto mais leve.

h1

café. cigarros. miçangas.

Maio 5, 2009

senhora-cafe

Chorou em demasia. Por alegria, por tristeza, por amor, por dor. Chorou em demasia por saudade!

Respirou fundo. Encheu os pulmões de coragem. Expirou as angústias. Limpou as lágrimas com o antebraço esquerdo e levantou abruptamente, como quem decide de ímpeto correr atrás de algo que deixou pra fazer de última hora.

Certa dos desejos que a corroíam e tentada a provar das delícias de novos cálices, pegou a malinha vermelha de cima do pequeno guarpa-roupas de duas portas…  Colocou nela cinco vestidos, algumas roupas de baixo, os saiotes, os vidros de perfume e o álbum de fotografias.

Pegou também a caixinha de madeira com grades de ferro e colocou a gata siamesa pra dentro, ainda dormente.

Finalizadas as arrumações, foi tomar a última chuveirada na casa que a abrigara durante 50 anos. Tirou toda a roupa, adentrou o box de plástico quebrado, ligou o chuveiro, bem quente. Abaixou a cabeça com se tomasse a primeira comunhão. Levantou-a lentamente, sentindo a água escorrer pela nuca, pela face, pelas rugas do corpo.

Tocou-se.

Sentiu os lábios, o pescoço, os seios, os poucos pêlos pubianos…

Empertigou-se de uma sensação orgásmica que há muito não sentia.

Arrepiou-se.

Sentiu uma frieza na testa. Os pêlos se arrepiaram.

Parou por aí. Tinha medo. De trair seus sentimentos pelo homem que amou durante toda a vida, apenas para satisfazer os desejos juvenis do dia anterior. Pensava no garoto do posto de conveniência. Na fumaça do cigarro. Imaginava-o nu enquanto se tocava. Era parecido com Salvador quando se conheceram. Até no jeito de fumar. Segurava o cigarro em um movimento de pinça com os dedos. Assoprava a fumaça de olhos fechados, com a cabeça pro céu, voltando-a para baixo quando a fumaça acabava de sair, abrindo os olhos lentamente, logo em seguida.

Não considerou justo trair a alma do amado. Não achou justo consigo mesma trair os desejos que sentia.

Simplesmente parou e saiu do banheiro. Nua e ainda molhada.

Secou-se no quarto, colocou o vestidinho azul, o colete de lã branco, os sapatinhos vermelhos… Perfumou-se com três borrifadas de seu melhor perfume francês.

Pegou a mala e a caixa de madeira da gata, passou tremendo pela porta envernizada, trancou-a, andou lentamente pelo corredor de piso cor-de-rosa, abriu o portão de grades verdes e saiu.

- Vai aonde nesse chiquetê, Dona Ida?!, perguntou a vizinha.

- Vou visitar uns parentes na roça, minha filha, respondeu.

Mal sabia a pobre vizinha que nunca mais veria a velha senhora de cabelos curtos e rostinho angelical de professora de primário.

Hilda estava mesmo de ida.

Rumo à terra azul, da cor de seu vestido. Terra onde os girassóis eram da cor dos cabelos de seu amado e as estrelas eram de mar, enternecidas pelo vento solar das três da manhã…

Leia ouvindo O girassol da cor de seu cabelo, do Clube da Esquina. Uma homenagem à nova vida de Dona Hilda…

h1

Conversa de desamor

Abril 25, 2009

conversa-de-desamor

Para ler ouvindo Jeff Buckley.

Olhando pela porta vi a chuva cair sobre as casas, sobre os pratos, sobre as roupas, sobre a rua toda, sobre todo o caminho. Um certeiro, outro matreiro.

- Por que não podemos transpor esse muro?

- Você não me conhece bem.

- Deixa conhecer…

Cara fechada. Olhos baixos. Lábios de reprovação. Nada feito. Sintomático…

- Algumas vezes um homem não pode suportar o peso em suas costas.

- Podemos carregar juntos.

- Pra que, se você sabe que não tem ninguém na vida?

- Tem a mim…

Cabeça em movimento negativo. Olhos entreabertos direcionados pra cima. Sinal de cansaço. Preguiça mental. Insuficiente…

- Meu reino por um beijo, todo meu sangue pela delicadeza de seu sorriso.

- Isso nunca vai dar certo. Você não vê? Somos di-fe-ren-tes!

- E a diferença não edifica? Me proponho a tentar… E você?

De pé. Na casa. Na porta. Na rua. No caminho. Em tantos caminhos. Longe.

Muito jovem pra seguir em frente com um amor, muito velho pra quebrar o muro e correr. Muito fraco pra carregar o peso que acumulou, muito cego pra ver a cagada que fez.

Então eu espero por você. E queimo. Por fora, por dentro, pela porta, pela casa, por toda a rua, por todo o caminho.

Louco por amor, sem ter como alimentá-lo.

Mas talvez não seja tão tarde. Como diria Jeff, Lover, you should’ve come over…